“BYE-BYE TRISTEZA, NÃO PRECISA VOLTAR”: POR QUE VIVER A TRISTEZA PARA QUE ELA POSSA PARTIR
Por esses dias, uma paciente muito querida em luta com um quadro depressivo importante me trouxe durante a consulta uma fala mais ou menos assim: “Uma coisa com a qual muitas pessoas não concordam é que estou começando a usar a gratidão como uma alternativa para a minha depressão. Agradecer pelo que eu tenho para além dela, agradecer por algumas coisas boas que posso fazer ou que ainda acontecem, mesmo estando deprimida. Essa tristeza já está comigo há três anos e hoje me percebo como alguém que se acostumou a sofrer. Uma das estratégias que tentei foi justamente me permitir sentir essa dor, vivenciá-la por inteiro para que eu pudesse enfrentá-la. Mas a estou sentindo há tanto tempo que já não suporto mais. Então pensei em começar a usar um outro recurso, sabe? Em vez de me entregar à tristeza, ser grata pelas coisas boas que tenho apesar dela. Penso, por exemplo, Obrigada, meu Deus, por eu estar conseguindo fazer minha atividade física diária, aquele curso online que eu queria tanto fazer, por poder trabalhar e me sentir produtiva. E assim vou agradecendo por tantas outras coisas positivas na minha vida. Acredito que, assim, a gente começa a olhar as coisas de um modo melhor. À noite, agora, faço uma lista de tudo o que tive de bom ao longo do dia, para tentar ver que houve coisas boas também. Até então, vinha sendo muito dura comigo mesma, sempre para baixo, como se absolutamente nada na minha vida estivesse bom, o que parecia piorar ainda mais a tristeza. Há pouco tempo vi na internet um senhor dizendo que, quando lhe acontece algo ruim, ele pensa em três acontecimentos bons associados ao primeiro. Por exemplo, se furou o pneu do carro, ele pensa: só furou o pneu, não houve uma batida; ainda bem que eu tinha um estepe em condições de uso; que bom que foi hoje, quando eu não tinha muitos compromissos na agenda. É o que estou tentando fazer, além de tomar minha medicação, é claro. Estou tentando mudar esse padrão de pensamento, que estava muito ruim, e do qual me sinto muito cansada”.
Nossa conversa então fluiu de maneira muito natural para uma
questão interessante: qual a melhor forma de lidar com a tristeza? Vivenciá-la
por inteiro até que ela passe ou afastá-la, procurando ver apenas o lado bom
das coisas?
Do meu ponto de vista, que sei não corresponder totalmente ao de quem se encontra efetivamente triste ou deprimido, mas procurando ter no mínimo compreensão empática destes, afirmo que uma coisa não precisa necessariamente excluir a outra.
Não vejo por que identificar a dor da tristeza, reconhecendo
e vivenciando esse sentimento dentro de nós, nos impeça de tomar uma atitude diferente
diante dela ou mesmo apesar dela. Podemos e devemos ser gratos à vida que
segue em meio à depressão, como a água de um riacho que contorna suavemente as
pedras duras e imóveis dispostas em seu curso e segue seu caminho. Flui apesar
dos obstáculos. A depressão, muitas vezes dolorosamente mórbida, pode acometer
a nossa vida e em alguns casos até colocá-la em risco, senão extingui-la, mas
não se confunde com a própria vida. É uma parte devastadora da nossa existência,
mas não é a existência em si. Do mesmo modo que fatos, pessoas, perdas,
conquistas, derrotas, e até outras doenças são partes do que vivemos, não
definem nossa identidade. Sempre somos mais que o que sentimos, percebamos isso
ou não.
Mais cedo ou tarde, porém, incorremos naquela velha dúvida: o
copo está meio cheio ou meio vazio? A rigor, enxergar o que ainda resta dentro
dele não nos impede de ignorar o que falta. Como quando alternamos figura e
fundo ao olhar uma imagem, ora focando o olhar num objeto central, ora tirando-o
do alvo para observar o entorno, ambos continuam pertencendo à mesma cena. Talvez
haja até algo mais profundo aqui: não é conhecendo o que nos “falta” que
conseguimos saber o que “sobra”? Como entender a ausência se ignoramos o que
gostaríamos que estivesse presente? Como explicar a noite se não temos o
conceito de dia? De maneira muito simplificado, podemos até pensar que
tristeza, em certa medida, é falta de alegria. Mas a própria alegria seria
difícil de explicar a alguém que jamais tivesse conhecido a tristeza.
Talvez a arte de lidar com ela resida justamente em encontrar
um meio termo. Vivenciar um pouco a dor para reconhecê-la, nomeá-la e lidar com
ela, em vez de simplesmente tentar fazer o impossível: ignorar por completo sua
presença. Ao mesmo tempo, perceber outros setores saudáveis da vida – nem que
isso se reduza à nossa capacidade de entender o sofrimento como algo em
nós, não como algo que seja nós. Alternar figura e fundo.
Nesse ponto, preciso fazer algumas ressalvas técnicas. Embora
a depressão frequentemente contenha a tristeza, ela não é meramente tristeza. Trata-se
de uma condição, que pode ser identificada como um transtorno mental breve ou
prolongado, agudo ou crônico, e que costuma envolver um conjunto mais amplo de sinais
e sintomas. A tristeza, por sua vez, é um afeto ou emoção elementar, compartilhado
em alguma medida até com outras espécies, podendo ser compensatória (no sentido
de procurar trazer o indivíduo de volta ao estado de equilíbrio ou homeostase
psíquico após uma situação de perda em algum nível). Se arriscarmos pensar em
algo como uma “fisiologia psíquica”, a tristeza tem um uma função, podendo representar
um recurso até “saudável”: sinaliza que há algo em nosso espaço vital que foi
perdido, abalado ou ameaçado. É, portanto, um convite à retirada estratégia, à
reorganização, à ressignificação. A dor psicológica que a caracteriza
desempenha um papel. Com efeito, vejo com frequência na clínica que, ao
investigar mais a fundo, notamos que os sintomas associados aos fenômenos
psíquicos têm uma certa “lógica”, mas isso é assunto para uma outra conversa. A
tristeza não é uma doença em si, algo para ser extirpado como quem resseca um
tumor, ela é algo para compreender, tolerar por um tempo e processar dentro de
nós para só então nos livrarmos dela. Talvez ela seja uma tentativa do nosso psiquismo de nos adaptar a uma nova situação e também sinalizar essa mudança aos nossos conviventes.
Tristeza também não é exatamente a mesma coisa que
melancolia, embora esses termos sejam frequentemente empregados como sinônimos
no senso comum. Enquanto a tristeza, como vimos, possa ser compreendida como
uma emoção, uma resposta à perda, à frustração ou à decepção, a melancolia é um
termo mais elaborado, ligada à experiência subjetiva do vazio, da falta, do
desinvestimento no mundo e da perda da percepção de valor em si próprio. É mais
simbólica, não se resumindo ao simples fato de “estar triste”.
Falando a partir de um olhar estritamente médico-biológico, sempre
discutível, incompleto e insuficiente para abarcar toda a complexidade da
experiência humana, a tristeza e o pesar têm, portanto, um papel evolutivo. Diante
de uma perda, uma derrota, de algo que vulnerabilize o espécime abatido, a
tristeza pode induzir ao recolhimento, favorecendo a economia de energia, a mobilização
de cuidados por parte do grupo e até a sinalização de fragilidade ao agressor,
fazendo-o cessar o combate, por não mais vê-lo necessário. Em vez de ser
apenas um “erro” da natureza, a tristeza pode ter sido, em alguma medida, um recurso
de sobrevivência. Peço olhar ao final desse post alguns exemplos da vasta
bibliografia existente sobre o tema, ainda que este permaneça como objeto de
debates. E com efeito, entre os humanos, tudo isso se torna infinitamente mais intrincado
mesmo, porque a cultura, a linguagem, a memória, os símbolos e a biografia
recobrem esse afeto básico com camadas e mais camadas de significado. Mas
talvez ainda haja aí algo de nossa natureza gritando: um pedido de ajuda, de
amparo, um convite a nos reerguermos. E esse sinal é dirigido não apenas aos
outros, mas também a nós mesmos.
Por isso, a tristeza talvez mereça ser escutada. Não
idealizada, nem imediatamente combatida, como se fosse sempre um inimigo a ser prontamente
exterminado. Compreendida. Porque ela pode denunciar algo real: uma carência
existente desde sempre e só percebida tardiamente, uma perda não superada, uma
vida vivida em desacordo com o que somos, um amor que faltou, um projeto que
ruiu, uma identidade ferida, uma esperança que se enfraqueceu. Contrariamente, ela
é, sob circunstâncias diversas, algo a ser compreendido, tolerado por algum
tempo, processado internamente, para só então ser deixado para trás.
Contudo, escutá-la não significa entregar a ela o governo da
própria vida. E talvez seja aqui que a gratidão, longe de representar
ingenuidade ou alienação, possa assumir um papel profundamente terapêutico. Não
uma gratidão cega, forçada, artificial, usada para negar a dor. Mas uma
gratidão lúcida, estratégica, orientada por sentido. Uma gratidão que não apaga
o sofrimento, mas se recusa a conceder a ele o monopólio da nossa existência. Quando
alguém, mesmo deprimido, consegue dizer “ainda há algo de bom aqui”, esse gesto
representa o resgate de algo saudável e preservado em si mesmo, muitas vezes o
início de uma reorganização interna. Não a negação da sombra, mas a recusa em reduzir-se
a ela.
Nesse sentido, a gratidão pode ser compreendida como uma
forma de resistência. Um modo de preservar a capacidade de ver que a vida
excede o sofrimento, ainda que naquele momento ele pareça ocupar todo o
horizonte. Talvez por isso a imagem topográfica da própria palavra depressão
me pareça sugestiva: uma depressão do terreno é um rebaixamento do solo, um
ponto a partir do qual a visão do horizonte desaparece. Quem está lá embaixo não
consegue ver longe. E, no entanto, o fato de não enxergar o horizonte não
significa que este tenha deixado de existir. Às vezes, a gratidão é
precisamente o exercício de imaginar, sustentar e recordar aquilo que naquele
momento não conseguimos ver. Ela mantém viva, dentro de nós, a ideia de que
existe algo além da reentrância escura em que nos encontramos.
***
Aqui, reconheço, estou olhando para o lado cheio do copo. E
nem sempre, especialmente numa depressão, esse olhar é fácil de ser obtido.
Muito frequentemente é o próprio transtorno que o impede. Há quadros que exigem
psicoterapia, medicação, neuromodulação, mudanças concretas de vida, rede de
apoio, tempo, acompanhamento e, por vezes, muito esforço apenas para atravessar
um dia de cada vez. Mas se pudermos entender que não somos a tristeza e que
algo em nós é maior que ela – como o riacho que contém margem, água,
peixes e pedras sem ser ele próprio só margem, água, peixe ou pedra –
temos então ativada a porção saudável em nós que iniciará o trabalho de
reconstrução que precisa ser feito.
Como naquela antiga canção de soul-pop do século XX, nossa atitude pode ser mesmo a de dizer “bye-bye tristeza, não
precisa voltar”. Compreendo que só posso dizer isso se antes reconheço a
tristeza. Quando percebo que ela começou a impregnar a imagem que faço de mim
mesmo e a confundir a minha capacidade de deliberar, torno-me capaz de
reassumir, aos poucos, o comando da vida e impedir que ela me conduza a um lugar
sombrio, vazio, solitário e sem perspectivas.
Como todo ato de resistência, esse movimento requer coragem.
A coragem de olhar a própria condição sem disfarces, reconhecer limites,
admitir dores, nomear faltas, aceitar fragilidades. Quando perguntamos
honestamente o que há em nós, também nos abrimos para respostas que podem machucar
ainda mais. Ainda assim, é essa coragem que torna possível buscar saídas para o
lugar em que caímos. Coragem de pedir ajuda. Coragem de expor a intimidade a um
psicoterapeuta. Coragem de colocar um novo medicamento dentro do próprio corpo.
Coragem de mudar hábitos, rever rumos, estabelecer cortes, sustentar perdas
necessárias, experimentar caminhos que talvez não funcionem de imediato e que,
em algum momento, precisem ser revistos, ajustados ou substituídos, mas que ao
final nos tragam de volta, da maneira o mais plena possível, a nós mesmos – e
até nos impulsionem a desbravar novos caminhos, em direção às novas
perspectivas que se abrem num horizonte agora perceptível.
Fica para outro
momento um debate possível, a respeito do significado daquilo que
perdemos. A discussão de se o que nos torna infelizes é a própria perda ou
ausência do bem perdido ou algo mais profundo e obscuro em nós, que aquele
apenas representa. Avisarei aqui quando tiver escrito sobre esse tema!
Voltando à gratidão pelo que continua existindo de bom — sem
que para isso seja necessário negar a dor, ela então se revela um gesto
decisivo. Por permitir enxergar que há algo além da melancolia. Quando carregada
de sentido e integrada a uma estratégia de vida, ela se torna muito mais:
resiliência, aprendizado diante da dor, capacidade de transcendê-la. É a nossa
inerente, inevitável e instintiva propensão à autopreservação, à felicidade, à
vida em todo o seu esplendor.
Que toleremos a tristeza só para escutá-la e, ao final, nos
despedirmos dela.
Referências utilizadas para a reflexão sobre tristeza, depressão e hipóteses evolutivas das emoções, em ordem de relevância para o tema:
- Gilbert, P. (2016). Depression: The
evolution of powerlessness. Routledge.
- Price, J., Sloman, L., Gardner,
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10.1192/bjp.164.3.309
- Hagen, E. H. (2011). Evolutionary theories
of depression: A critical review. Canadian Journal of
Psychiatry, 56(12), 716–726. DOI: 10.1177/070674371105601203
- Andrews, P. W., & Thomson,
J. A. Jr.
(2009). The bright side of being blue: Depression as an adaptation for
analyzing complex problems. Psychological Review, 116(3),
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- Nesse, R. M. (2004). Natural selection and
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Society B: Biological Sciences, 359(1449), 1333–1347. DOI:
10.1098/rstb.2004.151
- Nesse, R. M., & Ellsworth,
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- Welling, H. (2003). An evolutionary function of the depressive reaction: The cognitive map hypothesis. New Ideas in Psychology, 21(2), 147–156. DOI: 10.1016/S0732-118X(03)00017-5
Crédito da imagem: ilustração gerada por inteligência artificial (ChatGPT / DALL·E), a partir de prompt do autor.



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