O COLCHÃO E A ESCADA
Um remédio para a tristeza e a solidão. Para ser menos ansiosa ou ansioso e baixar as preocupações. Uma pílula para melhorar o sono. Ou uma para "ligar" e outra para "desligar". Remédio para o cansaço mental, para esfriar os ânimos, para controlar a impulsividade e a irritação. Uma medicação que ajude a lidar com o cônjuge de difícil trato ou com os filhos que não obedecem. Algo para ficar mais motivada ou motivado. Para conseguir comer menos e exercitar-se mais. Uma droga para ser feliz.
É raro um dia no consultório em
que eu não me depare com o desejo dos meus pacientes por uma espécie de
“mágica” que dê conta de tantas demandas comportamentais e emocionais. Entendo
a fantasia, de certa forma infantilizada, porque muito primitiva, pela qual as
pessoas depositam tanta esperança em soluções instantâneas e na “maravilhosa
medicina moderna”, com a ilusão de que alguns miligramas de determinada substância e uma dose um pouco maior de esperança possam resolver todos os seus problemas
vitais.
A verdade, porém, é que isso absolutamente não existe. Lamento não haver nenhuma molécula milagrosa, nenhuma solução fácil a ser ingerida com um copo d’água uma vez ao dia que seja capaz de resolver por completo as questões que nos levam a procurar ajuda psíquica. Convém pensarmos que essas questões, relacionadas com o trabalho, casamento, convivência, estudos, luto, desafios, autoimagem, entre tantos outros aspectos, dependem de uma ação deliberada – apoiada por uma mudança de motivação – da pessoa frente aos seus problemas e, principalmente, frente a si própria. Essa mudança é um lugar, uma instância, que o remédio não alcança. Mas ela é essencial e um dos meios mais efetivos para promovê-la é por meio da psicoterapia.
Costumo utilizar a metáfora de
que, em momentos de instabilidade, o remédio serve como uma espécie de colchão,
meticulosamente disposto no fundo do buraco ao qual a crise nos arrasta, como
meio de amortecer a “queda” provável que sofremos nessas ocasiões. Com
densidades e espessuras diferentes, alguns com mais molas ou espuma, outros menos,
esses colchões químicos com receita controlada estarão lá para contrabalançar o
impacto que a gravidade emocional exerce sobre o nosso psiquismo. Proverão,
dessa forma, que nos machuquemos o menos possível, devolvendo-nos o controle
sobre os nossos movimentos e permitindo o início de uma ação orquestrada para o
enfrentamento do problema-crise.
A partir daí, será necessária a
ajuda de uma escada para, sobreviventes da queda, sairmos do buraco em que caímos
e voltarmos à superfície onde nos encontrávamos antes do incidente. Uma escada
segura, apoiada firmemente à parede, de modo que o paciente, por seus próprios
esforços, a escale e retorne com segurança à sua vida. Na crise, essa escada de
emergência pela qual escapamos do fundo do poço representa a psicoterapia. Cada
componente do nosso arsenal de sobrevivência psíquica – colchão e escada – tem a
sua importância e seu valor, assim como sua própria maneira de auxiliar. Dessa
forma, cada um compreende uma técnica específica e também um
tempo adequado para ser aplicado.
A medicação, é fato, pode ser
útil tanto nos momentos de “crise” quanto como “manutenção” do tratamento e
deve ser prescrita e acompanhada por um profissional da área médica, de
preferência com treinamento para atuar em saúde mental. A psicoterapia, por sua
vez, deve ser conduzida por profissional treinado para esse fim. No Brasil, são
reconhecidos os profissionais com formação como psicólogos (ou seja, bacharéis em
Psicologia que tenham feito um ano de prática supervisionada) e médicos com
especialização em psicoterapia. Existem as chamadas terapias “alternativas”, mas
elas não equivalem à psicoterapia convencional, constituída de
técnicas e referências teórico-clínicas claras e específicas, assim como de níveis satisfatórios de evidência científica. Já o coaching e o life coaching são serviços diferentes da psicoterapia e não a substituem.
A psicoterapia se destina a
proporcionar um processo de autoconhecimento e transformação. Ela permite
identificar os padrões de pensamento, comportamento e emoções que nos mantêm
presos a ciclos de sofrimento. Mais que isso, a psicoterapia oferece
ferramentas práticas para lidar com os desafios da vida de forma mais coerente.
Diferentemente da medicação, que atua
no nível bioquímico (ou, mais especificamente, neurobiológico), a psicoterapia
opera no campo da consciência. Ela nos ajuda a entender as raízes de nossos
problemas, muitas vezes conectados a crenças limitantes e à maneira como nos
relacionamos com os outros e com o mundo. Coloca-nos, assim, em contato com as
motivações que nos levam a sermos quem somos e a agirmos como agimos. Enquanto
o colchão da medicação nos protege da queda, a escada da psicoterapia nos
fortalece para escalarmos, degrau a degrau, a resolução dos conflitos enfrentados.
Essa não é uma tarefa fácil. O
processo psicoterapêutico exige coragem, comprometimento e paciência. Assim
como não podemos esperar que um medicamento nos faça “acordar felizes” de um
dia para o outro, também não devemos esperar que a psicoterapia alavanque
mudanças rápidas e involuntárias. Cada degrau representa um avanço pequeno, mas
importante, em direção à autoaceitação e à construção de uma vida mais integrada.
Há momentos em que o paciente
pode sentir que está avançando mais lentamente do que desejaria, ou que está até
mesmo parado em algum degrau. Nessas horas, é fácil se frustrar e pensar que a
terapia simplesmente “não funciona”. É justamente nesses momentos que é fundamental
persistir. Muitas vezes, tememos todo esse potencial que vemos depositado em nossas
mãos, nos autossabotando por causa do medo de nos tornarmos saudáveis a ponto
de não termos mais a que ou a quem culpar pelos fracassos.
Subir a escada implica um movimento de “dentro para fora”, isto é, uma mudança deliberada que se organiza dentro do paciente para se externalizar por meio de novos comportamentos e também de novas formas, perceptíveis pelos outros, de regulação emocional. Por seu turno, a medicação deve ser considerada um recurso externo, agindo “de fora para dentro”. Ambas são importantes e necessárias; assim, é fundamental reconhecer que há momentos, sejam crises agudas ou processos crônicos, em que a medicação é absolutamente necessária. A medicação estabiliza o paciente, dando-lhe a capacidade de participar da própria terapia. Sem esse suporte, em muitos casos, não haveria a prontidão requerida para galgar os degraus da psicoterapia.
Nesse particular, a metáfora ilustra a complementaridade entre o tratamento farmacológico e o não farmacológico. O
remédio pode ser essencial para aliviar o sofrimento imediato e nos dar o
fôlego necessário para iniciar a terapia. Mas é a psicoterapia que nos ajuda a
transformar esse alívio inicial em ganhos duradouros. Ela nos convida a olhar para dentro, a fazer perguntas difíceis e a trabalhar para encontrar as
respostas. A psicoterapia é um investimento em nós mesmos e na qualidade do
nosso futuro.
Por sinal, um ponto importante é
que a escada da terapia não é propriamente uma aventura solitária. Embora o
processo psicoterapêutico seja profundamente pessoal e individual, ele envolve
uma relação de confiança com o terapeuta, que atua como um guia nessa jornada.
O terapeuta não sobe a escada pelo paciente, mas o acompanha de onde quer que
se encontre, ajudando-o a perceber seus recursos internos e a encontrar a força
necessária para avançar, mesmo quando parece difícil ou improvável.
Com o tempo, isso nos ajuda a
construir um conjunto de ferramentas emocionais e cognitivas que permitirá
lidarmos com as crises futuras – e com as dificuldades “normais” do dia a dia –
de forma mais resiliente. O objetivo final não é apenas sair de uma situação
aguda, mas aprender a navegar a vida com mais calma, segurança e naturalidade, sabendo que teremos dentro de nós o instrumental para enfrentá-la.
Ao final do processo, há uma
tendência de que o paciente não apenas se recupere da crise, mas se torne mais
forte que antes; ele não apenas volta ao ponto de partida, mas avança, com uma
nova perspectiva sobre si mesmo e sobre a vida, com suas vulnerabilidades e
forças. Com ou sem o reforço da medicação, a grande promessa é ultrapassar limites
inimagináveis.
Imagem gerada por IA [https://chat.openai.com]


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