O PARADOXO DE FERMI — POR QUE NOS SENTIMOS TÃO SÓS

Uma pergunta “cósmica”

Se o universo é tão absurdamente grande, tão incalculavelmente infinito… onde estão os outros?

Formulada por Enrico Fermi em 1950 (Martin, 2018), essa pergunta carrega uma estranheza desconcertantemente familiar a toda a humanidade. Em um cosmos vasto, antigo e com uma infinidade de planetas aparentemente propícios à vida, por que quando olhamos para ele só ouvimos o silêncio? Por que não encontramos, ao menos até o momento em que publico essa página, nenhum sinal concreto e inquestionável da existência de seres vivos fora da Terra? Afinal, onde é que está todo mundo?

Este é o sentido e o conteúdo do chamado paradoxo de Fermi: causa perplexidade pensar como podemos estar sós em meio a uma vastidão infinita. Com toda a admiração e até uma humilhante curiosidade que nutro pela Astrofísica desde guri, o meu intuito de mencioná-lo aqui é bem mais frugal e, na verdade, baseado num questionamento ouvido diariamente dos meus pacientes: em um mundo cada vez mais populoso, hiperconectado, permanentemente online, uma sensação geral de vazio e isolamento parece crescer de forma paradoxal. Nunca estivemos tão cercados de gente, de meios de comunicação, de canais tão facilmente ao alcance de qualquer pessoa — e, ainda assim, nunca foi tão comum quanto é nos dias atuais nos sentirmos pouco ouvidos e pouco compreendidos. Não tenho em mãos estatísticas para comprovar o que digo, mas empiricamente, a julgar pela queixa que circula insistentemente no meu consultório, não é impossível que a constatação de que nos percebermos cada vez mais sós esteja certa.

O post de hoje propõe, portanto, uma metáfora. O instigante paradoxo de Fermi como espelho da nossa condição humana. Um mundo cheio de pessoas, mas pobre em encontros. Um ruído constante que convive com uma escassez profunda de escuta. E a experiência, cada vez mais frequente, de habitarmos um planeta lotado onde nos percebemos sozinhos.



Um mundo cheio de pessoas e pobre em relações interpessoais

Nunca houve tantas pessoas, tantas vozes, tantas imagens circulando ao mesmo tempo. Redes sociais, aplicativos de mensagens, reuniões virtuais, comentários, opiniões, reações. A promessa implícita desse início de século XXI, que já não é mais tão inicial assim, era clara: mais conexão, mais proximidade, mais pertencimento à já fora de moda “aldeia global”. O resultado, porém, tem sido ambíguo, para dizer o mínimo. O excesso de contatos não se converteu automaticamente em proximidade. Estar acessível não significa estar disponível. Responder mensagens não é o mesmo que escutar. Compartilhar não garante ser reconhecido. Dar e receber likes não significa que tenhamos nos envolvido emocionalmente com o outro.

Na prática clínica — e na vida cotidiana — é cada vez mais comum ouvir pessoas que se dizem cercadas por outras, mas atravessadas por uma sensação persistente de solidão. Não a solidão da ausência física, mas a solidão de não ser realmente visto, de falar sem ser escutado, de existir sem ressonância no outro. Aqui, o paradoxo se repete: quanto mais gente, menos encontro. Quanto mais comunicação, menos diálogo. Quanto mais recursos para preencher distâncias, mais vazio. Quanto mais pessoas, mais solidão. Uma hipótese na qual penso para tentar explicar esse fenômeno cheio de contradições é a de que o que tenha se perdido nas últimas décadas não sejam as relações em si, ou a facilidade delas acontecerem, mas sim as condições internas e externas que tornam possíveis encontros verdadeiros. Trocas intersubjetivas genuínas, construtivas, carregadas de sentimento e pertença.

É possível sustentar que, até por força de tanta informação, de tantas possibilidades de nos aproximarmos do outro, tenhamos ficado cada vez com menos tempo — não apenas o tempo cronológico, mas o tempo psíquico necessário para sustentar a presença do outro em nossas vidas e a nossa presença na vida dos outros. Perdeu-se a escuta sem pressa, sem objetivos imediatos, sem a ansiedade de responder ou corrigir. Perdeu-se a capacidade de estar com o outro sem transformá-lo rapidamente em espelho, ameaça, audiência ou medida da nossa popularidade digital. E também de enxergar o outro não como um produto em catálogo, tão facilmente e tão abundantemente disponível que chega a se tornar não individualizável e, por isso, inviável: se tenho tantas outras possibilidades, para quê dedicar tanto tempo a esse um, especialmente se, à primeira vista, ele é tão diferente de mim? E isso é uma via de mão dupla: cada um de nós se tornou, na mesma medida, descartável aos olhos do outro, não merecedor da persistência em nos conhecerem melhor. Somos todos substituíveis na rápida passagem para o próximo perfil do aplicativo de relacionamentos.

Esse tempo subjetivo que se tornou tão escasso para investirmos no outro também determinou que se perdesse uma linguagem comum, capaz de reunir e de manter juntos amigos, famílias, amores, almas. Emoções complexas passaram a ser comprimidas em rótulos rápidos; sofrimentos singulares, traduzidos em diagnósticos ou slogans; divergências, tratadas como ataques pessoais. O espaço intermediário — onde a dúvida, a ambivalência e a possibilidade do encontro poderiam existir — foi sendo erodido por um silêncio nosso e do outro. Por uma solidão cruel por ser tão pouco provável numa sociedade que se autointitula como a da “informação”.

O outro como território desconhecido

Encontrar o outro nunca foi simples. Mas, hoje, isso talvez seja mais ameaçador do que nunca. O outro pensa diferente, sente diferente, vive em outro ritmo. Não confirma automaticamente nossas certezas nem valida nossas narrativas. Não entende nossos sentimentos, dores, dúvidas e conflitos e possivelmente não deseja despender muita energia tentando fazer isso. O mundo de relações fast-food favorece atalhos. Queremos compreensão rápida, afinidade instantânea, respostas claras. Quando isso não acontece, o outro se torna estranho demais, trabalhoso demais — e o contato é abandonado antes mesmo de começar. Pasteurizamos e generalizamos os indivíduos, mesmo aqueles já conhecidos, para evitar a angústia de descobrir como cada um deles funciona, ou o quanto mudou, e também para economizarmos o nosso tempo subjetivo, algumas vezes nos dando conta, ao final, que ele transcorreu e nossa solidão só aumentou.

Nesse mundo interconectado, cada pessoa funciona como um planeta isolado dentro de  seu próprio sistema, com códigos, histórias, cicatrizes e linguagens singulares, quase encriptadas, quase indecifráveis. Aproximar-se exige disposição, curiosidade, humildade e tolerância a não entender tudo de imediato. Nessa perspectiva, não é difícil concluir que o isolamento possa funcionar como uma defesa: melhor afastar-se que arriscar o desconforto do encontro. Queixar-nos do isolamento é mais seguro que, deliberadamente, nos aventurarmos universo adentro em busca de um improvável e incerto sinal de alteridade.

Pequenos gestos, grandes riscos, menos ruído

Se o sofrimento contemporâneo está ligado, em parte, à dificuldade de promover encontros, e em parte à nossa triste percepção de sermos vítimas desse mal, talvez a pergunta mais importante não seja “por que estamos sós?”, mas como é possível estabelecer contato? Conectar-se ao outro não implica, mesmo hoje, grandes feitos. Exige pequenos gestos: primeiro, disponibilizar-se. Disponibilizar-se a estar perto verdadeiramente, a escutar sem interromper, a sustentar o silêncio, tolerar a diferença, admitir que não se sabe, a aceitar que ainda somos seres sociais e por isso codependentes emocionalmente. Por mais que o mundo cibernético tente nos convencer que encontramos tudo nele, o incômodo da solidão prova o contrário. Disponibilizar-se exige reduzir o ruído, inclusive o interno, para que algo desse outro possa ser realmente ouvido. O encontro humano sempre envolve riscos: de frustração, de desencontro, de não correspondência. Mas envolve também a possibilidade rara e preciosa de encontrarmos sentido. É nesse espaço incerto que se constroem vínculos, pertencimento e reconhecimento. É nele que nos constituímos, desde sempre e para sempre, em nossa humanidade.

Conclusão — talvez o silêncio não seja vazio

Uma advertência final e necessária: sejamos honestos, nem todo encontro é saudável e produtivo. Nem toda troca entre duas pessoas ou mais é destituída de um jogo de forças, de caprichos individuais, de egocentrismo. Nem todo convívio é melhor que a solidão. Mas, como vimos, a pergunta “onde está todo mundo?” talvez não aponte para a ausência em si, mas dificuldade de estabelecermos contato. Talvez não estejamos sós no universo — nem neste mundo —, mas falando línguas emocionais cada vez mais desencontradas, o que não justifica não tentarmos dominá-las, aprendermos o que o outro diz como forma de mitigar a alienação-silêncio que nos ensurdece. Nem que seja para, após algum aprendizado, decidirmos que este outro em particular não vale mesmo a nossa disponibilidade interna.

Em um tempo que fala demais e escuta pouco, o gesto mais radical pode ser justamente o mais simples: estarmos presentes. Não para invadir o território do outro, nem para colonizá-lo com nossas certezas, mas para visitá-lo com cuidado, curiosidade e respeito. A grande surpresa é que, procurando nos fazer presentes para o outro, nos tornamos presentes para nós mesmos. Afinal, não há a disponibilidade externa sem a interna. Aquela depende desta. Se compreender o outro depende dos ecos que sua fala causa dentro de nós, estarmos disponíveis de verdade para o outro depende de estarmos inquestionavelmente inteiros para nós mesmos.

E, quem sabe, assim descobrirmos que sempre houve sinais. Apenas não estávamos escutando, ou nos fazendo escutar, da maneira certa.

REFERÊNCIAS:

Martin, A. R. (2018). The origin of the Fermi paradox. Journal of the British Interplanetary Society, 71, 200–206.









Crédito da imagem: ilustração gerada por inteligência artificial (ChatGPT / DALL·E), a partir de prompt do autor.

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