E SE TIVESSE EXAME DE SANGUE EM PSIQUIATRIA? EXPLICANDO A NOVA CIÊNCIA DA MENTE

“Doutor, qual o exame para saber se eu sou bipolar?” Essa é uma perguntas que já escutei mais de uma vez no consultório. Geralmente vem de pacientes que estão tentando há meses — às vezes anos — entender o que se passa com eles. O paciente já leu algo em algum lugar, talvez tenha visto um vídeo ou uma reportagem, e então lhe parece fazer muito sentido a condição de bipolaridade, depressão, esquizofrenia ou qualquer outro rótulo diagnóstico que esteja circulando pela mídia. Então vem a pergunta, com uma mistura de curiosidade e esperança.

Eu gostaria que houvesse uma resposta simples para essa pergunta — um exame de sangue, uma tomografia, um número qualquer que trouxesse precisão diagnóstica e apaziguasse a inquietação dos pacientes, surgida da dúvida e da busca por sentido. Mas a Psiquiatria não funciona assim. Pelo menos, não ainda.


Entre o laboratório e o consultório

Diferentemente da Cardiologia ou da Endocrinologia, a Psiquiatria ainda não possui marcadores laboratoriais que “provem” um diagnóstico. Até o momento, nosso principal instrumento continua sendo a avaliação clínica: a escuta, a observação, a empatia.

Mas por trás dessa aparente simplicidade, a ciência avança rapidamente. Em centros de pesquisa ao redor do mundo, estudos buscam reduzir o que chamamos de gap translacional — a distância entre o laboratório e o consultório, às vezes entre o laboratório e o leito hospitalar, ou mesmo entre aquele e a comunidade onde o paciente e sua família vivem e estabelecem trocas entre si.

A chamada pesquisa translacional visa justamente transformar descobertas da neurociência em ferramentas que realmente ajudem as pessoas e levar de volta à ciência “de bancada” as perguntas que surgem no encontro clínico. Esse é o movimento constante “do banco ao leito e do leito de volta ao banco” (bench to bedside and back).

A promessa dos biomarcadores

Um biomarcador é algo mensurável — uma molécula, um sinal fisiológico ou cerebral, uma imagem, um padrão de comportamento — que indica o que está acontecendo dentro de nós. Na Cardiologia, por exemplo, o colesterol pode prever o risco de infarto. Na Psiquiatria, pesquisadores têm estudado proteínas como o BDNF, relacionadas à plasticidade neuronal e à resposta ao estresse; mudanças em circuitos neuronais observadas por ressonância magnética funcional; ou até padrões captados digitalmente por celulares e relógios inteligentes (wearables), como o tom de voz, o ritmo do sono, o barulho do ambiente ou o nível de atividade física.

A esperança é que, um dia, novos biomarcadores ajudem a diagnosticar, escolher tratamentos e até prever recaídas. Isso porque o ser humano é complexo: duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem tê-lo por causas completamente diferentes. Da mesma forma, alterações cerebrais semelhantes podem aparecer como condições distintas. A ciência precisará se adaptar para acolher as singularidades de cada pessoa. O sofrimento humano resiste a simplificações.

Novas formas de enxergar a mente

É por esses motivos que a ciência também está repensando a maneira como denomina e classifica os transtornos mentais. Hoje, ela se vale de um sistema categórico, que distribui o sofrimento humano em “caixinhas” bem específicas, descritas previamente em catálogos de doenças — como o DSM e o CID — nas quais somos incluídos após apresentarmos determinados sintomas (por exemplo, alucinações, perda de prazer, dificuldade de manter o foco, energia elevada, e muitos outros).

O problema — e costumo conversar sobre isso com meus pacientes — é que a experiência humana é mais ampla, e consequentemente mais sofisticada, do que um checklist de sintomas. Não é fácil (para falar a verdade, é simplesmente impossível) enquadrá-la numa caixinha que corresponda a um rótulo que será fixado, muitas vezes para sempre, na ficha desse paciente — e em função do qual ele poderá ser identificado, vida afora, por médicos, familiares, amigos, empregadores, instituições e, principalmente, por ele mesmo.

Mais ainda: essas caixinhas (ansiedade, TOC, autismo etc.) não revelam a causa do transtorno — a sua etiologia. Por isso, se o foco não for tratar os pontos específicos que representam a queixa do paciente, independentemente de em qual diagnóstico ele se enquadre, qualquer tentativa de estabelecer uma conduta médica estritamente baseada no nome da doença pode corresponder a uma espécie de voo às cegas entre as várias possibilidades de tratamento disponíveis, farmacológicos ou não.

Em vez de caixas rígidas — TDAH, disforia de gênero, transtorno de personalidade, bulimia —, novos modelos propõem um olhar mais dimensional sobre o paciente, que leva em conta emoção, motivação, cognição, relações sociais e ritmos biológicos. Imagine um “mapa” da sua mente formado não apenas por sintomas, mas por circuitos, genes, experiências subjetivas e histórias.

A ideia não é abolir os diagnósticos, mas torná-los mais flexíveis e próximos da realidade de cada pessoa, possibilitando uma abordagem personalizada — a chamada Psiquiatria de precisão. Por isso, tenhamos calma com a ideia de uma revolução radical. As classificações atuais são fruto de décadas, séculos até, de trabalho duro, baseadas nas melhores evidências disponíveis. Elas ainda informam sistemas inteiros de saúde pública e privada, à sua maneira ajudam muita gente e devem permanecer, sendo apenas aprimoradas com a chegada de novos olhares.

O futuro da Psiquiatria

No futuro, talvez a pergunta mude de “Qual o meu diagnóstico?” para “Como o meu cérebro, o meu corpo e a minha história interagem para criar o que eu sinto?”. Talvez esse seja o aspecto mais bonito de toda essa transição científica.

O futuro da Psiquiatria não estará apenas nas informações processadas por máquinas ou contidas em moléculas, mas sobretudo na integração entre dados e significados, entre biologia e biografia, entre o que é mensurável e o que é vivido.

Por isso, quando alguém me pergunta: “Doutor, tem exame pra saber se eu sou bipolar?”, eu costumo sorrir e responder: “Ainda não. Mas, nesse momento, o que a gente pode fazer é entender juntos a sua história.”

Estamos inaugurando uma era em que, graças ao avanço da neurociência e da interdisciplinaridade com outros campos do saber, a Psiquiatria poderá deixar de tentar encaixar as pessoas em categorias por vezes simplórias, para enxergar cada ser humano como um fenômeno vivo e singular — um construto em constante redefinição e movimento, feito de química e de sentido, de corpo e de palavra, trazendo a ciência para mais perto do espírito.

Na minha maneira de enxergar esse futuro, o papel do psiquiatra consiste em traduzir a ciência em cuidado — e o cuidado em novas perguntas para a ciência. Assim, sustentar no mesmo olhar o cérebro e a alma.

Admirável mundo novo esse onde a ciência se aproxima da vida, e a vida, da ciência.








Crédito da imagem: twinsterphoto | iStock

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