NÃO

Frequentemente, meus pacientes relatam situações em que acabam por dizer “sim” mesmo contra a vontade, por não se sentirem seguros ou confortáveis em dizer “não”. Seja em relação a um pedido, um convite, uma imposição ou até mesmo uma crítica que lhes seja trazida por um terceiro, contrapor-se a algo pode ser efetivamente um desafio para muitas pessoas.

A perspectiva de negar o que o outro pede ou diz é por vezes percebida como algo ameaçador, uma forma de aniquilamento de si ou da relação com o outro que trará consequências ruins, mobilizando desconforto, angústia e medo, para dizer o mínimo.

Por vezes, temos necessidade de recusar até mesmo um presente, um gesto de carinho ou de amor do outro, entendendo que, por melhor que seja a intenção, não é o que precisamos ou desejamos em dado momento. Por mais incrível que possa parecer, uma situação como essa também pode ser desafiadora e potencialmente geradora de culpa e sofrimento.

Dizer “não”, nas mais diversas situações em que essa palavra de apenas três letrinhas se faz necessária, não é uma tarefa fácil. Exige, além das óbvias habilidades de comunicação, um nível adequado de maturidade, autoconfiança, autoestima, convicção de seus próprios valores e, como refletiremos a seguir, também de seus limites.

Assim, a capacidade de dizer “não” ao outro pode ser considerada quase uma arte – e muitos de nós temos grande dificuldade em desenvolvê-la. Desde cedo, somos condicionados a agradar aos outros, a ser solícitos e a aceitar pedidos, muitas vezes às custas do nosso próprio bem-estar ou das nossas possibilidades do momento. Tememos desapontar, prejudicar relacionamentos ou sermos vistos como pessoas ruins e egoístas. Essa necessidade de aprovação se transforma, com o tempo, no hábito de fazermos concessões que estão além das nossas possibilidades e de assumirmos compromissos em excesso, nos sobrecarregando e deixando nossas próprias necessidades de lado. Podemos pensar que dizer “sim” todas as vezes não nos fortalece – pelo contrário, nos esgota, nos enche de ressentimento e nos faz perder o controle sobre nosso próprio tempo e energia.

Reconheço que a percepção que tenho do que vou dizer logo a seguir possa estar enganada, mas ao menos na minha experiência de consultório, observo uma dificuldade ainda maior das mulheres em dizer “não” ao outro. Pergunto-me se isso não se deveria a razões culturais, em decorrência das quais, ao menos aqui no nosso país, as mulheres sejam historicamente obrigadas a dizer mais “sim” do que “não” e, dessa forma, levadas a submeter-se e a agradar às pessoas mais do que se exige dos homens. Se verdadeiro, isso que observo é algo cruel e estigmatizante.

O desejo de agradar às pessoas é uma armadilha comum, na qual colocar as necessidades e desejos do outro em primeiro lugar se torna um hábito automático, mesmo que nos prejudique. Dizemos “sim” por medo do conflito, da rejeição ou de sermos percebidos como antipáticos ou pouco solícitos. No entanto, ao priorizar os outros todo o tempo, começamos a perder de vista nossas próprias prioridades. A grande ironia é que, ao tentar ser tudo para todos, acabamos muito frequentemente sendo menos eficazes, menos presentes e mais sobrecarregados, ao final falhando com estes e também com nós mesmos.

O custo de dizer sempre “sim” é muito maior do que imaginamos. O excesso de compromissos leva ao esgotamento, em que o cansaço físico e emocional acaba tomando conta. Perdemos um tempo precioso que poderia ser usado para recarregar as energias, nos dedicar a momentos prazerosos para nós ou simplesmente descansar. Nossos relacionamentos sofrem, não apenas porque nos sentimos exaustos, mas também porque dizer “sim” por obrigação, e não por vontade genuína, gera ressentimentos e a sensação ruim de que não há sinceridade naquilo com que concedemos.

Mais importante que essa constatação é que, ao ceder constantemente às demandas dos outros, nossa autoestima se enfraquece. Deixamos de confiar em nossa própria capacidade de estabelecer o que queremos e o que não queremos, o que podemos e não podemos e, pouco a pouco, nossas próprias necessidades vão ficando constantemente para trás. Isso implica sacrifícios nem sempre justos conosco mesmos.

Devemos pensar, diante disso, que o “não”, na maior parte das circunstâncias em que essa palavra precisa ser pronunciada, relaciona-se com a ideia de estabelecer limites. Quando dizemos “não” ao outro, estamos estabelecendo a este uma limitação, indicando algo que ele ou ela não poderá fazer, não poderá receber, uma ajuda que não poderá ser prestada, um lugar físico ou simbólico ao qual essa pessoa não poderá ter acesso.



Os limites estabelecidos não são apenas para a pessoa que recebem o “não”. Ao dizê-lo, que assim faz também está estabelecendo limites internos para si mesma ou si mesmo: “Não vou chegar a nenhum ponto além daquele a que estou disposta ou disposto”; “Não vou dar alguma coisa que não possuo, que não posso ou que não desejo dar”; “Não vou me forçar a fazer algo que vai além das minhas forças”. Apesar de todos termos limites internos um tanto óbvios na maioria das vezes, reconhecê-los e deixá-los claros para as pessoas nem sempre é tão fácil.

Nessa medida, desenvolver a habilidade de dizer “não” pode ser vista como fruto de um processo, de um aprendizado que envolve autoconhecimento, reflexão e amadurecimento.

O primeiro passo para recuperar nosso tempo e energia, portanto, é compreender nossos limites, valores e prioridades. Definir limites não significa afastar as pessoas, mas garantir que possamos oferecer o nosso melhor de maneira alinhada com o que é essencial para nós e, ainda, manter as portas abertas em relação ao outro. Logo, é imperioso refletir sobre o que realmente importa—carreira, família, saúde, segurança financeira, crescimento pessoal, gerenciamento do tempo—e identificar as áreas em que nos sentimos esgotados ou explorados. Ao definir quais pontos são inegociáveis, ganhamos a clareza e a confiança necessárias para dizer “não” com propósito e livres de culpa.

Na cultura ocidental, que em alguns textos é também mencionada como judaico-cristã (apesar de, na prática, nem sempre relacionar-se tão claramente com preceitos religiosos), somos levados em alguma medida a nos sentir culpados ao negar ao outro algo que este precisa ou deseja, em detrimento das nossas próprias possibilidades e necessidades. Ao conversar com vocês sobre a ideia de dizer “não”, não estou defendo aqui, absolutamente, qualquer posição relacionada ao individualismo e à supremacia do “eu” sobre o “outro”. Pelo contrário, mesmo pessoas abnegadas, dedicadas ao bem-estar de sua família ou comunidade, necessitam por vezes dizer “não”, até mesmo para o benefício da própria pessoa a quem o pedido é negado. Pais dedicados conhecem muito bem essa situação, quando sabem que negar algo a um filho, por mais que isso lhes doa, é uma maneira de ajudá-lo ou de protegê-lo.

Como qualquer habilidade adquirida, dizer “não” exige prática. Aprender a negar tarefas extras quando já estamos sobrecarregados, recusar convites sociais quando precisamos descansar e estabelecer limites com familiares que exigem muito de nossa energia emocional são exemplos do quão fundamental é fortalecer nosso respeito próprio. Cada vez que dizemos “não” a algo que não nos serve, reafirmamos que nosso tempo e bem-estar são importantes. Ou, como dissemos mais acima, o “não” pode ser até benéfico, a depender das circunstâncias, para a própria pessoa que o recebe.

Dizer “não” não precisa ser feito de forma rude ou confrontadora. Há várias modos de recusar pedidos de maneira elegante, mantendo as relações saudáveis e com confiança recíproca mesmo após se negar algo ao outro. Por exemplo, expressar gratidão ao estabelecer um limite pode ser uma técnica eficaz, como dizer “Agradeço muito por lembrar de mim, mas não poderei me comprometer com tal coisa nesse momento.” Às vezes, adiar uma resposta nos dá tempo para avaliar se realmente queremos ou podemos aceitar e, assim, frases como “Deixe eu verificar minha agenda e te dar um retorno assim que possível” ajudam a evitar um “sim” impulsivo, por pressão, ou um “não” dito de maneira ansiosa, o qual, pronunciado no calor do momento, com claro desconforto por parte de quem o diz, pode soar como uma agressão ou ofensa. Nessa situação de adiamento da resposta, não esquecer de realmente cumpri-la em algum momento, pois é uma questão de respeito ao outro não deixar de posicionar-se em relação ao que nos é pedido ou oferecido. Por vezes, apresentar uma alternativa também pode ser bastante útil, como em: “Não posso assumir esse projeto, mas ficaria feliz em contribuir com ideias”. Quando priorizamos nossos compromissos, um simples “Eu adoraria, mas estou focado na situação tal no momento” reforça nossas metas pessoais. E, quando é necessário ser direto, um firme, porém educado “Agradeço o convite, mas terei que recusar” deixa claros os nossos limites sem necessidade de ficarmos nos explicando excessivamente.

É claro que nem todos aceitarão um “não” sem resistência. Algumas pessoas insistirão, tentarão nos convencer ou até mesmo apelarão para nosso sentimento de culpa, tentando sub-repticiamente despertá-lo em nós naquela dada situação. Lidar com essas reações com delicadeza é sempre algo bem-vindo. Se alguém disser: “Mas nós realmente precisamos de você!”, uma resposta calma como “Eu entendo e me sinto reconhecido com o que você está me dizendo, mas realmente preciso honrar outros compromissos que eu já havia assumido” mantém limites sem gerar atritos. Se pedirem uma exceção, afirmar “Gostaria de ajudar, mas preciso manter a palavra que eu já havia dado a fulano” reforça nossos valores e sinaliza ao nosso interlocutor que somos pessoas corretas e confiáveis.

Alguns podem insinuar que estamos sendo restritivos e difíceis, e, nesse caso, responder “Estou entendo que você possa estar sentindo isso, mas exatamente por te respeitar, preciso ser bem claro sobre o que posso e não posso te oferecer nesse momento, inclusive para não te prejudicar, caso eu venha a falhar” preserva nossa integridade e também a integridade da relação. Para aqueles que dizem “Mas você sempre dizia ‘sim’!”, reconhecer o próprio crescimento com “Correto, mas nesse momento estou buscando um equilíbrio maior entre o que consigo e o que não consigo fazer” sinaliza uma mudança de prioridades sem dar margem para o outro entender que possa ter perdido algo que já teve no passado.

A liberdade que advém de se desenvolver a habilidade de dizer “não” pode ser transformadora. Muitas pessoas que aprendem a estabelecer limites descobrem que têm mais tempo e energia para focar no que realmente importa. Elas também acabam desenvolvendo relações mais saudáveis, baseadas no respeito mútuo, onde suas escolhas são valorizadas diante da sua demonstração de segurança e amor-próprio. De fato, nossa autoconfiança cresce à medida que assumimos o controle das nossas próprias vidas, deixando para trás a priorização sempre das expectativas e desejos do outro em detrimento de nós mesmos. Sem contar que isso pode melhorar nosso bem-estar mental e físico, por reduzirmos o estresse, recuperarmos momentos de descanso e nos dedicarmos aos nossos interesses sem nos sobrecarregarmos com obrigações que, no fundo, não precisávamos assumir.

Nessa medida, dizer “não” não é um ato de rejeição do outro, mas de autocuidado e até de auto empoderamento. Nos permite escolher onde investir nossa energia e garante que nossos “sins”, quando ditos, sejam plenos de vontade e de sentido, em vez de respostas automáticas ditadas por um mero senso de obrigação ou pelo receio de magoar. O espaço que nos pertence fica garantido pelos limites que impusemos ao outro.

Quando pressionada ou pressionado a dizer sim, minha recomendação é que você pare e reflita antes de decidir qualquer coisa. Conecte-se ao que sente naquele momento. Identifique se o provável “sim” que está preste a dizer se alinha com suas reais possibilidades, disponibilidades e desejos. Pergunte-se se esse compromisso a ser assumido, essa concessão a ser feita ou essa concordância a ser verbalizada estão de fato alinhados com suas prioridades, se contribuem para o seu bem-estar e se o seu “sim” vem de uma vontade genuína. Em alguns casos, também será necessário avaliar se a pessoa que lhe impele a dizer “sim” o faz de maneira justa ou se está sendo egoísta ou, ainda, explorando sua natural boa-vontade e disponibilidade em ajudar. E ainda, na dúvida, pedir um tempo para avaliar melhor a situação antes de dar uma resposta definitiva sinaliza ao outro maturidade e também consideração pelo que está sendo proposto.

O poder do “não” reside na sua capacidade de defender o espaço daquilo que realmente importa em sua vida – ou seja, os limites dos quais falamos – e de acomodar o desejo, próprio e do outro, sem destruir ou prejudicar relações. O “não” é sobre como colocar-se no mundo, como saber-se em pé de igualdade com o outro e – até do ponto de vista ético – de agir de maneira coerente com o equilíbrio que buscamos entre o bem do outro e o nosso.

Aprendendo a habilidade de dizer “não”, abriremos portas para uma vida mais plena, equilibrada e autêntica. Não se trata apenas de entender o que, em dada situação, é o melhor para nós e para o outro: nosso tempo, bem-estar e energia são valiosos, e aprender a protegê-los é, em última instância, um poderoso ato de autorrespeito.

Se, como disse o poeta, “disciplina é liberdade”, desejo que você abrace suas escolhas conscientes em sua plenitude.








Crédito da imagem: Jennifer Smith / iStock

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