RECOMEÇOS
Sei que é um
tanto óbvio associar o início de um novo ano no calendário à ideia de recomeço.
As diversas culturas humanas criaram rituais que se repetem em datas
específicas, de acordo com os ciclos da natureza (as fases da lua, as estações
do ano, a posição das estrelas, a chegada das chuvas etc.), com o objetivo de
marcar o tempo, dar sentido à passagem dos dias e reforçar a esperança de
renovação. Esses rituais funcionam como pontos de virada simbólicos, momentos
em que nos permitimos refletir sobre o que passou e projetar o que desejamos
para o futuro. São oportunidades de encerrar ciclos, deixar para trás o que já
não nos serve e reafirmar compromissos com aquilo que consideramos essencial. E
é justamente por essa necessidade de significado que o início de um novo ano se
torna um convite tão poderoso ao recomeço.
Não é à toa
que muitos de nós deem tanta importância aos marcos do tempo tal como vistos no
calendário. É por essa razão que gostaria de falar sobre a ideia de recomeço no
meu primeiro post do ano.
Quantas e
quantas vezes ao longo da vida não somos levados a repetir algo que já fizemos,
como retomar a escola ou o trabalho após as férias? Recomeçar também pode ser
algo que siga à ideia de tentar de novo: recomeçar um namoro ou
casamento, ainda que com a mesma pessoa; recomeçar do zero a execução de uma
receita ou o esboço de um desenho que não deram certo na primeira tentativa.
Penso ainda em quantos atletas e artistas, por exemplo, não recomeçam todos os
dias o treino ou ensaio de um movimento novo, por menor que seja, mas que tenha
relevância e valor no contexto do que realizam: quantas vezes alguém, que
costumamos aplaudir ao ver executar com perfeição uma nota musical ou uma
passagem de bola em quadra, não fez e refez, centenas ou milhares de vezes –
ou, em outras palavras, começou e recomeçou a aprender algo –até que estivessem
satisfeitas o suficiente com sua (nova) habilidade para compartilhá-la com os
demais?
No nosso
mundo intrapsíquico, aquele que habitamos dentro de nós de forma solitária,
também somos capazes de promover constantes recomeços. Seja porque nos tornamos
insatisfeitos com um romance que se desgastou, com um trabalho que nos tornou
infelizes, um projeto de vida que perdeu seu sentido ou com qualquer qualidade
pessoal nossa que se consolidou ao longo do tempo, mas que gostaríamos de
alterar.
Porém,
quantas vezes nós próprios não somos os primeiros a colocar em dúvida nossa
capacidade de recomeçar? Nem sempre fazemos isso por mera descrença em nossos
recursos internos, mas pelo medo – algumas vezes inconsciente – de sair da
nossa zona de conforto. Entenda-se aqui esse lugar como aquela situação que nos
entristece, enjoa ou desanima, mas nos parece grande ou sólida demais para
conseguirmos mudar. Assim, nos causa a sensação de que contentarmo-nos com uma
realidade ruim, mas conhecida, é menos trabalhoso, ou perigoso, do que nos
aventurarmos rumo à conquista de uma nova realidade, que idealmente nos
satisfaz. Mas que, apesar de nos seduzir, pode não passar de uma ilusão, ou
pode não se concretizar a não ser a duras penas ou com perdas de outras coisas
igualmente importantes ou desejadas.
É nesse
contexto que a ideia de recomeçar surge como uma revolução
pessoal. Um ato de subverter a ordem reinante da nossa realidade atual para
substitui-la por outra, no momento apenas imaginada, mas sedutora o suficiente
para desejarmos executá-la. Em alguns casos, diferentemente, trata-se de uma
revolução apenas necessária, sem qualquer glamour envolvido na mudança. Mudança
essa que se dá por imposição de uma nova ordem, com o mero fim de
sobrevivência, dada a falência da condição atual. Assim, há um revolucionar
para crescer e um revolucionar apenas para poder ficar vivo.
O que está
implícito tanto em uma quanto outra possibilidade de recomeço? Penso aqui que o
que implica nossa capacidade de recomeçar é a nossa capacidade de promover
rupturas. Nossa capacidade de identificar e de nos erguermos contra o que
nos oprime, o que nos imobiliza, o que impede nossa felicidade, o que nos
coloca para trás, ou mesmo, como visto acima, o que coloca a nossa própria
existência futura em risco. A ruptura, frequentemente vista como um ato de
rebeldia, é o pressuposto do recomeço, na medida em que é tão inerente a este
quanto à ideia de que, pare começar de novo, algo precisa antes terminar – ao
menos terminar de ser na forma como vinha sendo para começar de novo, com uma
cara diferente.
Por sua vez,
o processo de promover rupturas pressupõe uma mudança de perspectiva. Romper
sem alguma visão da nova realidade que queremos ter seria uma manobra vazia e
sem sentido. Fazer isso não envolve criar uma realidade que não existe
absolutamente, mas, sim, perceber os potenciais e recursos disponíveis para tornar
a realidade atual mais perfeita. Em outras palavras, requer que percebamos o
que está lá, embora invisível, como o sol absoluto sobre as nuvens: a mesma
realidade, mas numa perspectiva nova.
Romper com o antigo e familiar e abraçar o novo e desconhecido não é fácil. Isso se aplica tanto às coisas mais banais que se deseja mudar, como seus hábitos alimentares ou uma rotina de atividades físicas, como às mais centrais, como seus valores pessoais, filosóficos, espirituais e o sentido mais amplo que procura dar à sua vida. Tanto num caso como em outro, recomeçar não significa apenas mudar de direção, mas ressignificar o que passou. É olhar para trás com respeito à jornada percorrida, sem se prender ao peso do que já não serve mais. É entender que as experiências vividas, boas ou ruins, foram fundamentais para o crescimento, por ensinarem o que deu certo ou não, o que prova que nada foi em vão.
Os recomeços
nem sempre são grandiosos. Às vezes, são silenciosos, quase imperceptíveis aos
olhos dos outros. São aqueles momentos em que decidimos, no íntimo de nosso
ser, que não aceitaremos mais determinadas condições, que não repetiremos
certos padrões, que faremos diferente daqui para frente. Esses pequenos
recomeços são tão revolucionários quanto as mudanças mais visíveis e radicais.
E, claro, há
recomeços que vêm sem aviso, impostos pela vida. Um término inesperado, a perda
de um emprego, uma doença, uma mudança abrupta de planos. Nesses casos, o
recomeço não é uma escolha consciente, mas uma necessidade. E, mesmo assim,
dentro dessa necessidade existe uma oportunidade: a chance de reconstruir algo
novo a partir do que foi quebrado. De se redescobrir, de se reinventar.
Embora certo
de que todo recomeço pressuponha um processo de ruptura deflagrado por uma
mudança de perspectiva, não acredito que exista uma “receita prática” para
recomeçar qualquer coisa na vida. Mas há ingredientes importantes que precisam
ser separados para cozinhar as mudanças, necessárias ou desejadas, do dia a
dia: calcular quanto tempo será preciso investir para
recomeçar o que se se deseja – admitindo que as mudanças se iniciam no momento
mesmo em que são pensadas, a vida pessoal tem seus próprio ciclos, ditando
nossos tempos internos para o consequente preparo da terra, o plantio e a
colheita, determinando os momentos mais apropriados para implementá-las,
exceto, é claro, as urgentes; desapego da situação atual que
precisa ser mudada o que inclui invariavelmente ter de abrir mão de aspectos
favoráveis, os quais devem pesar menos que os desfavoráveis para que a mudança
seja justificada; entender o desejo que está por trás da
mudança, o que gosto também de traduzir como a motivação, nem
sempre consciente, para a situação que se intenciona mudar; coragem,
que na minha interpretação pessoal do termo também gosto de chamar de inspiração (que
pode advir de algo genuinamente nosso que carregamos dentro de nós e acionamos
em momentos cruciais da vida ou que vem de fontes externas que admiramos, como
pessoas, fatos históricos, livros; apoiar-se na nossa experiência de
vida para guiar as estratégias de recomeço – por mais novo que seja cada
desafio, impondo criatividade para lidar com o inusitado, a bagagem acumulada
ajuda a identificarmos em nós mesmos os recursos para o enfrentamento de novas
situações; ter em mente que a opção por recomeçar abarca necessariamente assumir
riscos, o que, em outras palavras, implica antever que, se algo der errado,
terá sido por uma tentativa de melhorar algo e não por inanição; lembrar que o
que se recomeça tampouco será a versão definitiva: será bom, útil e necessário
um dia recomeçar o que um dia já foi novo, de modo que todo recomeço é um estágio
provisório do que pode ser melhorado ainda mais.
Recomeçar é
um convite à esperança. Significa permitir-se acreditar que ainda há caminhos a
serem percorridos, que ainda há tempo para aprender, evoluir, transformar. E,
se existe alguma coisa que a vida nos ensina, é que nunca é tarde demais.
Então, se há
algo que você deseja mudar em sua vida, você não precisa esperar pelo próximo
ano, pelo seu aniversário, por uma data simbólica no calendário. O melhor dia
para recomeçar sempre será hoje. Porque a mudança se inicia,
precisamente, no momento em que começa a ser pensada.
Que este ano
– e todos os anos que virão – sejam feitos de recomeços corajosos, conscientes
e cheios de significado. Que você tenha a audácia de romper com o que já não
serve e a sabedoria de construir algo novo e genuíno para si. Afinal, recomeçar
não é sobre apagar o passado, mas sobre usá-lo como base para escrever uma nova
história.
E quantas
novas histórias – ou novos finais – não podem começar a ser criados
exatamente agora?
Crédito da imagem: o autor
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