GENTILEZA

Circular nessa época do ano por Londres, onde vim passar uma temporada de estudos e prática profissional, é algo para se lembrar! As ruas iluminadas pelas decorações de fim de ano são um presente para os olhos e, para muitos, também para o coração. A cidade parece perder um pouco da agitação incessante do ano e entrar em uma vibração mais festiva, onde tudo convida a pensar sobre o ano que passou e, mais ainda, a planejar o que está por vir. O frio, apesar de ainda intenso para os nossos padrões brasileiros, não chega a impedir passeios pelas ruas — a pé ou de transporte público — cobrando para isso apenas que carreguemos conosco um casaco ao sair de casa. Um preço justo para algo que, na nossa condição de cidadãos de um país aculturado, aprendemos a admirar no outro e, até certo ponto, a incorporar às nossas tradições locais.

E, na minha condição de cidadão aculturado, presto atenção à proposta de diversidade da megalópole enquanto busco um assento livre no vagão do metrô antes do trem partir. Cartazes oferecendo toda espécie de produtos e serviços estampam rostos felizes de modelos das mais variadas origens. Anúncios afixados nas paredes da parada com frequência retratam grupos de amigos, casais e até famílias interraciais inteiras, todos com sorrisos perfeitos que me acompanham pela janela ao partir da estação até que sumam por completo do meu campo de visão e, na próxima parada, venham me saudar de novo, radiantes, vendendo novas soluções para uma vida mais feliz. Sentados ao meu lado ou procurando manter-se em pé dentro do vagão em movimento, observo duplas aqui e pequenos grupos de pessoas acolá, todas aparentemente vindas dos mais diversos cantos do mundo, mas bem menos miscigenadas que seus equivalentes nas propagandas lá fora. Concentradas nas suas tarefas do dia, ou em seja lá com o que se passa pelo pensamento enquanto transportadas para seus destinos, parecem uma versão bem menos glamourosa que as dos comerciais.

Esforço-me para achar ao meu redor, então, amostras da diversidade real, não a criada pelas propagandas. Me vem à lembrança o metrô de São Paulo, repleto de figuras pós-modernas circulando com roupas excêntricas e uma atitude afirmativa não apenas de sua identidade étnico-cultural, mas também de gênero e de lugar na complexa e plural sociedade do outro lado do oceano. Constato, talvez de maneira superficial e apressada, que a diversidade nesse microcosmo das linhas do metrô limita-se à etnia dos passageiros: muitas, muitas mulheres mesmo ostentam sua burca ou ao menos um hijab que lhes cubra os cabelos, figuras frequentes por aqui e que acabei por naturalizar algumas semanas após a minha chegada; asiáticos, quase sempre muito tímidos, a menos que inseridos em grupos mais numerosos; imigrantes de origens variadas que, até onde pude perceber, são a base da mão de obra não qualificada da imponente metrópole.

Negros locais, que consigo diferenciar dos recém-imigrados através do sotaque e do estilo das roupas, também parecem formar grupos relativamente homogêneos quando viajam acompanhados, ainda que, vez por outra, seja possível avistá-los em companhia de pessoas de outras etnias.

Volto minha atenção aos rostos dos passageiros. Diferentemente do Brasil, aqui não parece ser muito aceitável fixar os olhos em estranhos demoradamente em lugares públicos. Por isso, procuro exercer de maneira muito discreta minha curiosidade natural de conhecer as pessoas pela observação direta da sua fisionomia, da linguagem corporal e da maneira como se comportam quando dentro de um grupo.

Um homem em seus trinta e poucos anos, com botas de operário e roupas manchadas de tinta, estira-se no assento, uma das pernas esticadas à frente, o braço do lado oposto pendendo em direção ao chão, olhos semifechados após um dia inteiro de trabalho, pintando o apartamento elegante de algum cliente no norte de Londres. Uma adolescente de lindos e longos cabelos, possivelmente de origem indiana ou paquistanesa, vestida com saia xadrez e meias cinza estendidas até o joelho, parece voltar da escola refazendo sua maquiagem com a ajuda de um tutorial online. Um senhor de boina e cachecol observa, com expressão séria, a paisagem inexistente do lado de fora da janela do vagão. Pergunto-me se estaria preocupado com o resultado de algum exame médico que acabou de realizar, com as suas finanças pessoais ou, ainda, o casamento em crise de um de seus filhos.

Ao longo da minha prática clínica, aprendi a sempre procurar entender quais os sentimentos que as pessoas me despertam quando me conecto a elas. Indiferença, desesperança, reserva e cansaço foram alguns dos que consegui, entristecido, identificar nessa breve jornada sobre trilhos. Um trio de possíveis imigrantes do leste europeu discutindo acaloradamente entre si dispersa os meus pensamentos e passo a observar como gesticulam e interagem uns com os outros. Talvez se posicionem sobre alguma questão política do seu país de origem ou se queixem de um chefe em comum, dada a seriedade e a atitude discretamente demandante de suas expressões.

Divago sobre as diferentes histórias de vida por trás das pessoas que viajam ao meu lado. Tento refletir sobre o que têm elas em comum, o que as torna iguais – ou ao menos equivalentes, em sua existência – já que as diferenças são explícitas. Cada um, de cada canto do mundo, talvez carregue dentro de si razões para as escolhas feitas ao longo de suas jornadas, assim como expectativas, decorrentes dessas mesmas escolhas, que desejam ver compreendidas e acolhidas pelo outro. Apoiado no privilégio que minha profissão me confere em poder conhecer o que há de mais íntimo na alma das pessoas, porém sem nenhuma comprovação teórica do que vou dizer, penso a essa altura da vida que, possivelmente, nada nos torne mais iguais em nossa humanidade do que a necessidade de sabermos que fomos compreendidos. Não no sentido de ter atendidos incondicionalmente todos os nossos desejos e anseios. Mas no sentido de sabermos que nossas demandas foram reconhecidas como legítimas pelo outro, individual e coletivamente, e que, nesse processo, nossas diferenças acabam por ser respeitadas, garantindo dessa forma a humanidade que define a cada um de nós.

***

Chego a um recital de poesia promovido nesse mês de dezembro pela associação Doctors of the World (DOTW) UK no campus central da King’s College London. O evento reuniu representantes de minorias – majoritariamente imigrantes africanos e refugiados do Oriente Médio – que leram em voz alta, para uma plateia compassiva, textos intensos, carregados de emoções fortes, inspirados em feridas ainda expostas. Por meio da literatura, compartilharam, com tantos quantos se dispuseram a empatizar com suas pautas, o que vivenciaram na recente onda de protestos organizada por um pequeno grupo de pessoas brancas contra a permanência dessas populações no país, que ficou conhecida como The 2024 Summer Riots. O evento recebeu um nome contundente: Do you hear me? A creative anthology of poems in exile ("Você me escuta? Uma antologia de poemas do exílio"). Palavras, colhidas om delicadeza dentre o repertório dos vários e riquíssimos idiomas por eles falados, expressam a dor, o medo, o sofrimento e toda uma vida de opressão, transparecidas em cada verso dos textos narrados à audiência que, vez por outra, balançava a cabeça em concordância com a mensagem transmitida, ou simplesmente cerrava os olhos e baixava o rosto, como se envergonhada pela violência física e psicológica imposta a uma minoria de flagelados em virtude da cor da sua pele e da sua condição de imigrantes e refugiados.

Penso aqui na gentileza que nos fazem nesse momento, ao transformar em beleza literária o horror da violência enfrentada nas ruas. Penso na gentileza dada por esses poetas a nós, sua audiência, a despeito da rejeição, do medo de serem mortos ou feridos e de serem ainda mais banidos, como de fato já o são, das condições mínimas de vida, do acesso à saúde física e mental, à educação e ao trabalho digno dentro do país que lhes ofereceu refúgio. Poetas distribuindo sorrisos puros aos que se dispunham a ouvi-los; não retaliação, ameaças, gritos ou reivindicações, mas poesia e rostos sinceramente gratos pelo mero fato de serem ouvidos.

A delicadeza deles é verdadeiramente notável. Em vez de responderem com retaliação ou raiva, compartilham suas histórias com poesia e gratidão por serem ouvidos. Mas a conexão flui em ambas as direções: a empatia do público oferece tanto conforto quanto encorajamento, criando uma troca poderosa de compreensão. Ouvir alguém dizer: "Você tem razão; o que aconteceu com você foi injusto" pode ser profundamente transformador. Acolher o outro também é um revolucionário ato de gentileza.

Uma das autoras, acredito que Mwakaego seja o seu nome, retribui com tocante sinceridade o abraço condoído que uma espectadora de cabelos ruivos vem lhe oferecer ao término do recital. Com seu turbante nigeriano lindamente adornado por cores muito vivas, tudo nela, da expressão do seu rosto à maneira com que permite que seu corpo seja abraçado, traduz uma generosa capacidade de aceitar o perdão, envolto em compreensão e solidariedade, que a jovem ocidental vem, talvez inconscientemente, lhe oferecer. Duas mulheres se abraçam e, ao menos por aquele instante, lavam do mundo o ódio que o aterroriza.



***

De volta ao meu assento no metrô londrino lotado, vejo entrar no vagão um casal de negros de classe média empurrando um carrinho de bebê e várias sacolas de compras. Próximo à porta por onde acabam de passar, uma senhora branca, de aparência inglesa, imediatamente lhes oferece o lugar onde está sentada, erguendo-se sorridente, num gesto genuinamente encorajador para que aceitem sua cortesia. Meu coração se aquece levemente com a pequena alegria que surge dentro dele.

A gentileza é uma pequena promessa de paz. Por menor que seja, agarro-me a ela.

Que a vida, se não nos puder ser fácil, ao menos nos seja gentil.

Feliz novo tempo.









          Crédito da imagem: Wall of Colorful African Fabrics, Cultures Studio, iStock Images

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