ESTÁ NA HORA DE PRESTAR ATENÇÃO NO TDAH

Sim, o jogo de palavras é proposital. E sim, precisamos falar muito sério sobre esse assunto.

Nos últimos anos, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, ou TDAH, tornou-se um tema dos mais procurados em saúde mental. Está presente nas redes sociais, nos grupos de pais, nas salas de professores, nas conversas entre amigos e, como não poderia deixar de ser, nos também consultórios.

Raramente há uma semana sequer em que alguém não chegue ao meu consultório dizendo: “Acho que tenho TDAH” ou “Tenho quase certeza de que meu filho tem TDAH!”. Pensando bem, existe algo de positivo nisso: por muito tempo, talvez por gerações a fio, as pessoas passavam a vida, ou pelo menos muitos e muitos anos, sem compreender por que tinham tanta dificuldade para se concentrar, organizar a vida, cumprir prazos, terminar aquilo que começavam ou até mesmo para controlar impulsos. Muitas eram chamadas de preguiçosas, desinteressadas, indisciplinadas ou “distraídas”. As consequências podiam ser desastrosas: evasão escolar, repreensão, castigos, estigmatização como “burras” ou outros termos que nem são mais tolerados mencionar.

Um maior conhecimento técnico sobre o TDAH permitiu que muitas delas encontrassem uma explicação para as dificuldades que as acompanharam vida afora. Mas o problema maior, na minha visão de psiquiatra, acredito que aconteça quando uma suspeita se torna “certeza” antes de uma avaliação cuidadosa e, por isso, correta da condição que determina a desatenção e a hiperatividade.


Volto aqui àquela constatação que sempre é repetida: nunca tivemos tanto acesso a tudo como nos dias de hoje, mas talvez também nunca tivemos tanta dificuldade para distinguir informação de conhecimento.

Um vídeo de quinze segundos pode apresentar “dez sinais de que você tem TDAH”. Alguém reconhece oito deles e, alguns minutos depois, aquilo que começou como identificação transforma-se em diagnóstico. Reconhecer-se em uma descrição não é irrelevante. Pode ser exatamente o primeiro passo que leva alguém a procurar ajuda. O erro está em transformá-lo no último.

Da mesma forma, um pai pode perceber corretamente que algo não vai bem com seu filho, um professor pode observar dificuldades que ninguém havia percebido em casa, um adulto pode finalmente começar a entender uma história inteira de esquecimentos, desorganização e oportunidades perdidas. Tudo merece ser ouvido e levado ao conhecimento de um profissional capacitado.

Desatenção não é sinônimo de TDAH

Talvez esse seja o ponto mais importante desta conversa: desatenção é um sintoma, e não um diagnóstico. E sintomas podem ter as mais diferentes causas.

A ansiedade, por exemplo, pode lotar a mente da pessoa com tantas preocupações que sobra pouco espaço para elas se concentrarem. A depressão pode reduzir os níveis de energia, motivação, velocidade de pensamento e capacidade de organização. Alterações importantes do sono, por sua vez, podem comprometer funções mentais como memória e atenção. E oscilações do humor, situações traumáticas, uso de álcool ou outras substâncias, além de algumas condições clínicas específicas, tudo pode interferir também no funcionamento cognitivo — apenas emulando o TDAH, sem de fato sê-lo.

Em crianças e adolescentes, a investigação pode ser mais complexa. Os transtornos específicos de aprendizagem, a deficiência intelectual, dificuldades emocionais, conflitos familiares, ambientes escolares pouco adequados ou estimuladores, além de outros fatores ligados ao neurodesenvolvimento especialmente, podem se manifestar como queda no rendimento escolar, inquietação e agitação psicomotora, dificuldades de concentração ou mesmo uma aparente falta de interesse pela escola ou pelos temas de casa.

Até a maneira como usamos telas, jogos digitais e redes sociais nos dias atuais merece participar dessa conversa de hoje. O uso problemático das tecnologias pode competir com outros aspectos da vida importantes como o sono, a atividade física, os estudos, a convivência social e tantas outras atividades que exijam esforço mental sustentado. Ao mesmo tempo, pessoas que apresentam impulsividade ou dificuldades de autorregulação emocional podem ser especialmente vulneráveis às consequências do uso ilimitado desses recursos. Portanto, a relação entre desatenção e hábito não é simples, e possivelmente ocorre nos dois sentidos.

Como disse mais acima, tudo isso pode produzir um quadro que, se analisado com pressa, se pareça com TDAH. E ainda há uma complicação adicional: algumas dessas condições podem coexistir com o TDAH.

É justamente por isso que o diagnóstico não deveria começar simplesmente com uma escala simples de sintomas de desatenção ou de hiperatividade. Mas sim pela pergunta: “o que está acontecendo com essa pessoa, levando-se em conta a sua vida como um todo?”. Mesmo quando feita a uma criança ou a um adolescente, essa pergunta pode receber respostas incrivelmente surpreendentes.

O que caracteriza o TDAH

O TDAH é exatamente um dos vários transtornos do neurodesenvolvimento. Ele possui, reconhecidamente, um importante componente genético e implica diferenças no funcionamento das redes cerebrais envolvidas na atenção, no que chamamos de “controle executivo”, na motivação e na regulação do comportamento.

Os sintomas começam exatamente durante o desenvolvimento da criança, alguns deles precisando estar presentes antes dos 12 anos, mesmo que o diagnóstico venha a ser feito apenas muitos anos depois. Isso explica por que alguém pode descobrir o próprio TDAH aos 30, 40 ou 50 anos. O diagnóstico pode ser tardio; o transtorno, não.

Existem as apresentações predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa-impulsiva e a combinada. Por isso, TDAH não é exatamente um termo sinônimo daquela imagem clássica de uma criança que não simplesmente consegue permanecer sentada na sala de aula.

Há crianças que são desatentas silenciosamente. Há meninas cujo quadro passou despercebido durante toda a vida escolar e adultos que construíram estratégias para compensar suas dificuldades durante anos, até que as exigências da vida se tornaram maiores do que essas estratégias conseguiam suportar.

O diagnóstico é essencialmente clínico. Isso quer dizer que não existe exame de sangue, tomografia, ressonância, eletroencefalograma ou biomarcador capaz de dizer: “esta pessoa tem TDAH”.

O que é necessário é reconstruir uma história desde cedo na vida até os dias atuais: quando as dificuldades começaram? Elas aparecem em mais de um contexto (na escola, em casa, no trabalho, na igreja, nas atividades sociais)? Existe um real prejuízo para a pessoa? Se já adulta, como ela era quando criança? O que os pais lembram? O que os professores observavam? E o sono, como está atualmente? Além disso, há sintomas de ansiedade, depressão ou alterações de humor? O que as outras pessoas que convivem com o paciente reparam?

E a avaliação neuropsicológica?

Ela é extremamente útil, e eu diria que até indispensável — mas é importante dizer exatamente para quê. Sozinha, ela não “oficializa” o psicodiagnóstico, mas acrescenta informações extremamente importantes. Ajuda a compreender melhor o funcionamento da atenção, da memória, das funções executivas, da inteligência e da aprendizagem; contribui para investigar transtornos específicos ou deficiência intelectual; e revela não apenas dificuldades, mas também habilidades preservadas que podem ser utilizadas na construção de estratégias de tratamento. Junto com a história familiar, acadêmica, profissional e emocional do indivíduo, ela fornece elementos importantes para a avaliação da pessoa que chega ao consultório com a queixa. E aí auxilia no tal diagnóstico clínico.

Como tratar?

Quando o diagnóstico está correto, o tratamento farmacológico do TDAH pode ser muito eficaz. Os psicoestimulantes estão entre os tratamentos farmacológicos de primeira linha e possuem décadas de evidências demonstrando benefícios sobre os sintomas centrais do transtorno. Existem também opções de medicamentos não estimulantes, utilizadas conforme a idade, as características clínicas, a resposta terapêutica, os efeitos adversos e outras particularidades de cada paciente.

Mas note que foi mencionado detalhe importante no parágrafo acima: quando o diagnóstico está correto. A investigação diagnóstica importa justamente porque a estratégia terapêutica muda completamente quando a dificuldade de atenção faz parte de outra condição.

Uma pessoa cuja concentração está prejudicada por depressão pode precisar de um tratamento com antidepressivos. Outra, cuja desatenção ocorre em meio a ansiedade intensa, pode precisar de outro tipo de tratamento. Em alguém com transtorno bipolar ainda não conhecido ou não estabilizado, determinadas intervenções exigem uma cautela especial pelo risco de desestabilização do humor.

Por isso, ao procurar ajuda profissional, o objetivo da pessoa não deve ser meramente conseguir “prestar mais atenção” e sim compreender por que isso está acontecendo, já que, como vimos, inúmeras causas podem contribuir para esse resultado.

Além disso, medicamentos capazes de produzir benefícios também podem provocar efeitos adversos. No caso do TDAH, pode ser necessário o acompanhamento do apetite, peso e crescimento, além de sono, pressão arterial, frequência cardíaca, alterações de humor e outros possíveis efeitos, tanto na criança como no adulto. A resposta ao tratamento também precisa ser constantemente reavaliada: continuar tomando uma medicação simplesmente porque ela foi prescrita um dia não é acompanhamento.

E existe ainda outro problema que merece nossa atenção: o uso de psicoestimulantes por pessoas sem diagnóstico, especialmente adolescentes e adultos jovens, com a intenção de estudar durante mais horas, render mais ou suportar jornadas excessivas. Na verdade, medicamentos destinados ao tratamento de um transtorno não deveriam ser usados como um recurso adicional para a adaptação a exigências de produtividade cada vez maiores. Desatenção pode ser o sintoma importante de um distúrbio como nome  e sobrenome; não conseguir ultrapassar os limites humanos para um sistema que exige cada vez mais e em menos tempo não é uma doença, ao menos não no sentido individual. No sentido social, talvez.

O tratamento não começa nem termina com o remédio

Mesmo quando o diagnóstico é realmente TDAH, a ideia de “tratamento” não se limita à prescrição de medicamentos. A abordagem deve ser individualizada e pode envolver medicação ou não, contando com um arsenal que engloba intervenções psicoterapêuticas, orientação aos pais e familiares, adaptações escolares ou no ambiente de trabalho e estudo, e até mudanças na organização da rotina.

A psicoterapia, particularmente quando trabalha estratégias cognitivas e comportamentais, pode ajudar na organização, no planejamento, na gestão do tempo, na procrastinação e na regulação emocional.

A psicoeducação também faz enorme diferença. Compreender que determinado comportamento decorre de uma dificuldade de autorregulação emocional não significa eliminar limites ou responsabilidades. Bem ao contrário: significa abandonar explicações simplistas como “preguiça”, “falta de vontade” ou “má-criação” e procurar maneiras mais eficientes de ajudar aquela pessoa a viver melhor.

Sono adequado, atividade física regular e uma rotina minimamente previsível também fazem parte do tratamento. E o que na Medicina chamamos de “comorbidades” também precisa ser investigado, como já dissemos. Ansiedade, depressão, transtornos de aprendizagem, dificuldades de regulação emocional e problemas de comportamento são frequentes e podem modificar tanto a apresentação do TDAH quanto a maneira de tratá-lo.

Talvez o problema seja a nossa pressa

Portanto, existem erros que devemos evitar a qualquer custo: diagnosticar TDAH onde ele não existe e deixar de reconhecê-lo quando está realmente presente.

A resposta para o excesso de diagnósticos apressados é não desacreditar o TDAH e evitar transformar toda dificuldade de concentração em TDAH, ignorando assim possíveis causas que precisem ser conduzidas da maneira correta.

Precisamos fazer melhor aquilo que a saúde mental sempre exigiu de nós: ouvir a história, observar o contexto, formular hipóteses, investigar alternativas e acompanhar a pessoa ao longo do tempo. Por isso, antes de procurar uma resposta rápida, talvez seja preciso fazer algumas perguntas demoradas.

O que o problema pede é extrema atenção. Desta vez, sem trocadilhos.









Imagem gerada por IA a partir de prompt do autor.

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