POR QUE DEVEMOS OLHAR PARA AS ESTRELAS — COLOCANDO NOSSOS PROBLEMAS EM PERSPECTIVA

Quando foi a última vez que você permaneceu parada ou parado, por mais de um minuto, olhando para o céu noturno sem nenhum propósito?

Não para tirar uma foto nem para verificar se vai chover. Apenas para olhar, e ficar contemplando aquela imensidão de estrelas.

Caso a resposta seja “não lembro”, você não está sozinho. E talvez isso diga algo importante sobre a maneira como você tem vivido e até sobre o seu estado emocional.

Olhar para as estrelas é um dos poucos gestos humanos que ainda exigem parar, inclinar a cabeça para trás e não fazer nada além de olhar. Numa vida pautada por telas, metas e pela sensação permanente de estarmos atrasados para alguma coisa, esse gesto se tornou praticamente um luxo.

É exatamente por isso que vale a pena entender por que ele importa — não apenas como poesia, mas como algo muito próximo do que se discute todos os dias dentro de um consultório psiquiátrico ou numa sessão de psicoterapia.

A primeira coisa que olhar para o céu pode fazer é nos devolver ao presente.

Quando estamos ali, com o pescoço reclinado e os olhos abertos para o escuro pontilhado de luz, a mente encontra um raro contraponto àquela ruminação sobre coisas ruins que já passaram e também à antecipação ansiosa do que poderá acontecer.

Presa entre o “e se eu tivesse feito diferente?” e o “e se der errado?”, a mente recebe um convite para simplesmente estar, sem tentar reescrever o passado, sem querer prever o futuro. E talvez seja esse o efeito mais imediato: não é que os problemas desapareçam. Por alguns minutos, eles apenas perdem o microfone.

Então acontece uma segunda coisa, ainda mais interessante. Se continuamos olhando, algo começa a mudar de tamanho. Aquele problema que carregamos há anos, que parece grande demais para ser resolvido e doloroso demais para ser aceito, visto contra a escala de uma galáxia inteira, pode começar a parecer (e aqui escolho com cuidado essa palavra:) pequeno.

Não trivial. Não sem importância. Apenas pequeno, como um ponto luminoso diante da imensidão ao seu redor. Isso não significa desistir do problema ou normalizá-lo. Significa conseguir observá-lo a uma distância que nos permita colocá-lo em perspectiva, em vez de vê-lo apenas de dentro, ocupando todo o seu campo de visão, como se fosse a única coisa que acontece na sua vida, o que costuma acontecer quando estamos imersos há tempo demais numa mesma questão, aparentemente sem conseguir “livrar-se” dela.

Há uma diferença sutil, mas poderosa, escondida nessa mudança de escala: ela separa quem somos da situação em que nos encontramos. Carregamos sofrimento, ansiedade, um diagnóstico ou uma história difícil — e, com o tempo, podemos começar a acreditar que nos reduzimos a isso. Que somos o problema.

Tenho uma forte convicção de que a diferença entre essas duas frases pode, por si só, modificar profundamente o rumo de um tratamento.

Há ainda uma terceira camada, talvez a mais silenciosa. Quando olhamos para as estrelas, estamos olhando, literalmente, para o desconhecido: para aquilo que não conseguimos nomear, mapear ou prever por completo. E isso, embora possa assustar, também pode às vezes produzir uma forma inesperada de liberdade.

Grande parte do sofrimento humano vem de tentarmos resolver problemas novos com soluções antigas: as mesmas estratégias que já fracassaram ou que talvez tenham funcionado um dia, mas já não servem para a vida que temos agora. Diante de uma dificuldade, é natural buscarmos respostas dentro do repertório que já possuímos. Mas, quando esse repertório se esgota, podemos insistir indefinidamente nas mesmas tentativas, passando a “dar murro em ponta de faca” sem perceber que talvez seja necessário criar maneiras diferentes de lidar com problemas diferentes.

Olhar para aquilo que ainda não está claro, para o céu, para o que ainda desconhecemos sobre nós mesmos, para uma solução que ainda não inventamos, é um exercício de abrir espaço para o novo, em vez de repetir de olhos fechados aquilo que já não funciona mais.

Talvez seja também por isso que olhar para cima tenha adquirido tanto significado. Em português, temos uma expressão bastante precisa para o movimento contrário: “olhar para o próprio umbigo”. Quando sofremos, nosso campo de visão tende naturalmente a se estreitar. O problema mais próximo passa a ocupa completamente o nosso foco, e quase nada mais parece caber ao redor.

Olhar para as estrelas é o exatamente o oposto: ampliar nosso campo de visão, recordar que existe um “acima”, um “ao redor” e um “além” — e que essas direções continuam existindo mesmo quando a vida nos convence de que só há aquilo que está imediatamente à nossa frente.

Existe, naturalmente, uma armadilha nessa ideia, e vale a pena desarmá-la. Olhar para as estrelas não significa alcançar um desapego que transcenda a tudo, nem minimizar um sofrimento real dizendo que “nada importa porque na verdade somos insignificantes”. É algo mais modesto e, talvez, mais útil: colocar o sofrimento ao lado de algo maior. Não para apagá-lo, mas para que ele deixe de ser a única coisa visível.

É recuperar a relação entre figura e fundo. Perceber que o problema é real, mas que o contexto visível por trás dele é maior, mais cheio de possibilidades e que também merece ser levado em conta na construção das nossas narrativas de vida.

Colocar a dor em perspectiva não é desconsiderá-la. É impedir que ela transforme todo o restante do mundo (e das nossas vidas) em algo que não tenha importância. E não precisamos ir a nenhum lugar especial para fazer isso. Não é necessária uma viagem para observar a Via Láctea longe das luzes da cidade, embora certamente ajude. Podem ser trinta segundos no caminho entre o carro e a porta de casa, antes de girar a chave e entrar para o fim de mais dia comum.

Olhar para tudo o que nos rodeia e não apenas para o celular, sem a obrigação de chegar a uma conclusão e sem a pressa de transformar a experiência em mais um dos itens a serem ticados na nossa lista de afazeres.

Apenas lembrar que existe um espaço imenso, quase que completamente desconhecido, acima de nossa cabeça, que a ciência continua investigando e que pode ser tão surpreendente, em sua vastidão, quanto a própria mente que o contempla.

Olhar para as estrelas não para encontrar respostas lá em cima, mas para lembrar que ainda existe uma infinitude de perguntas e de possibilidades. Aqui dentro.

Isso, ao contrário do que a ansiedade, a depressão e o medo insistem nos fazer acreditar, pode ser uma boa notícia.








Crédito da imagem: gerada por IA a partir de prompt do autor.

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