LUTO: REORGANIZANDO O AMOR QUE CONTINUA EM NÓS

É bom dizer viver, valeu. É bem dizer amar, valeu

Gonzaguinha

O assunto de hoje não é apenas um tema sensível, é algo muito mais presente nas nossas vidas do que imaginamos. Porque o luto, como veremos, não ocorre só quando falece uma pessoa próxima de nós. Ele é uma resposta humana natural e esperada aos mais variados tipos de perdas que vamos inevitavelmente sofrer ao longo da vida.

Algumas perguntas que escuto de pacientes passando por essa situação: “eu às vezes tenho o impulso de pegar o celular na mão para ligar para o meu pai como se ele não tivesse morrido”; “será que um dia vou conseguir doar os brinquedos que a milha filha de 28 anos de idade tinha quando criança?”; “sei que preciso superar esse divórcio, mas hoje sinto ainda mais forte que ela era tudo na minha vida”.

Naturalmente, ofereço respostas diferentes para cada um desses questionamentos. Nenhuma perda é igual à outra, nenhuma pessoa reage exatamente da mesma forma que a outra, assim como nenhum vínculo de afeto é perfeitamente equiparável a outro.

Ainda assim, há algo em comum nas três perguntas que usei de exemplo acima: o sofrimento sobre o que ou quem se perdeu. Por isso essa conversa sobre luto é necessária. Não exatamente com o foco em “quando isso vai passar?” mas em como continuar vivendo quando um determinado vÍnculo deixa de existir.

Para começo de conversa, ele: o cérebro

A neurocientista estadunidense Mary-Frances O’Connor, que estuda o cérebro enlutado, falou algo que mudou o meu jeito de começar a ver o luto: nós não nos orientamos pelo mundo apenas com os olhos; o cérebro desenha, ao longo dos anos, uma espécie de mapa da realidade. É por isso que até conseguimos, alguns mais, outros menos, caminhar pela casa no escuro, sabendo onde estão as portas, os móveis e os interruptores.

As pessoas que amamos também passam a ocupar lugares nesse “mapa”. Sabemos onde elas costumam estar, quando devem voltar, a que distância se encontram. Sabemos que podemos mandar uma mensagem, contar uma novidade, pedir ajuda ou simplesmente imaginar que, mesmo que tenham se mudado para longe, elas continuam existindo de uma maneira concreta. Representam um afeto vivo, que está em nós e sendo compartilhado com ela enquanto somos parte um da vida do outro.

No caso do falecimento de uma pessoa próxima, a informação chega rapidamente à nossa razão. Entendemos imediatamente o que aconteceu, tomamos as providências para o sepultamento e recebemos as condolências. Mas num nível mais profundo — aquela parte do cérebro onde foi desenhado o “mapa” completo da relação, o registro do dia a dia e o repositório dos sentimentos recíprocos entre nós e aquele que partiu —demora mais tempo para se encontrar dentro de uma nova realidade. É comum uma pessoa enlutada, por um instante, enxergar  na multidão o rosto de quem morreu, esperar ela entrar em casa a qualquer momento ou pensar, por um milissegundo, antes do retorno à realidade, que precisam falar sobre um assunto qualquer .

O cérebro aparentemente perdido está tentando conciliar duas informações incompatíveis: uma pessoa morreu, mas continua profundamente viva dentro de mim. Durante algum tempo, o enlutado habita esses dois mundos: o que sabe e o que sente. O cérebro então se encarrega de tentar redesenhar o mapa funcional o mais rápido que conseguir, e esse é o trabalho do luto: colocar em ordem as emoções que ficaram viradas de cabeça para baixo.

Morte concreta ou simbólica, dor real

Não é somente no aspecto que falamos nos parágrafos anteriores — da morte física de uma pessoa próxima — que um vínculo significativo pode ser rompido, inaugurando o luto. Embora quase sempre seja extremamente impactante e devastadora, a morte concreta de alguém não é a única perda que enfrentamos na vida. Também existe a morte simbólica: o fim de um casamento, a perda de um corpo antes saudável em relação ao qual foi diagnosticada uma doença, a perda de um emprego, de uma casa, de uma oportunidade, de uma “juventude” ideal que entendemos não ter mais. O adolescente pode enlutar pela perda da infância, o imigrante pela perda de suas raízes e o falido pela sua antiga identidade de pessoa bem-sucedida financeiramente.

Não tenho como esquecer também de pacientes meus que se enlutaram profundamente, e até gravemente (não sem razão, é claro) pela morte de um animalzinho de estimação, sofrendo, inclusive, em dobro: pela ausência de seu companheiro fiel e por quase ninguém ao redor reconhecer a legitimidade da sua dor (“ah, aquele cachorro era muito velho”; “por favor né gente, que loucura é essa, era só um gato!”).

As possibilidades de morte simbólica são infinitas, e eu ainda complementaria que elas talvez só possam ser definidas como tais pela própria pessoa que vivencia a perda.

Não é possível “medir” o grau de luto

Seguindo esse raciocínio, cada perda nos atinge de maneira diferente porque cada vínculo tinha uma história própria. A intensidade da dor pode dizer alguma coisa sobre a importância daquela relação, mas não funciona como uma régua do amor. O modo como alguém sofre também depende de como era o vínculo, de como a perda aconteceu, de respostas ou explicações envolvendo a perda que não ficaram claras, das experiências anteriores e do apoio que se encontra, ou não, para enfrentar esse período.

Há quem chore todos os dias e há quem passe semanas resolvendo questões práticas antes de conseguir chorar; há quem fale repetidamente sobre o que aconteceu e quem se recolha; há quem sinta raiva, alívio, culpa e saudade quase ao mesmo tempo. Não há critério que dê conta de traduzir o quanto alguém amou, ou se apegou, ou que fez de alguém ou de algo sua própria razão de viver.

E na verdade o luto também não sobe nem desce degraus

Quase todo mundo já ouviu falar nas chamadas cinco fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Elas surgiram a partir do trabalho pioneiro de Elisabeth Kübler-Ross com pessoas que estavam diante da própria morte. Numa época em que grande parte da medicina preferia evitar essas conversas, ela teve a coragem de se sentar ao lado de pacientes que sabiam que estavam morrendo e ouvi-los.

Mas o sofrimento humano costuma vir mais como ondas do mar. Algumas são um pouco mais previsíveis, bastando atentar para “a direção dos ventos”, como o primeiro aniversário de morte e o primeiro Natal ou outra data significativa sem a pessoa. Outras arrebentam sem aviso, no corredor de um supermercado ou no meio de uma tarde aparentemente comum. O luto não é a escada nem o fluxograma esquematizado por quem tentou simplificar em excesso a construção profunda de Kübler-Ross.

Já recebi pacientes angustiados não apenas pela perda, mas pela impressão de estarem “enlutando errado”: “eu já deveria ter superado a fase da raiva”; “ainda não consegui aceitar”; “até ontem eu estava bem; por que voltei a chorar?”. Ora, da mesma maneira que não existe uma régua para medir o luto, também não há um “teste do luto”: não é possível reprovar nem passar alguém com louvor.

O vai e vem faz parte do processo

Já que falamos em “ondas”, podemos pensar, então, no luto como um movimento contínuo entre a vida que se foi e a que ainda precisa ser vivida, procurando um lugar para encaixar o afeto que não desapareceu junto com a perda. Em alguns momentos, a pessoa mergulha dolorosamente na ausência e, em outros, volta para a realidade prática com uma energia mínima para lidar com ela.

Freud, em sua época, chamou esse processo de “trabalho do luto”. A expressão continua útil porque o luto realmente demanda energia. O cérebro precisa visitar, uma a uma, as situações que representavam a normalidade do dia a dia e aprender que a realidade mudou: a cadeira está vazia, a mensagem não será lida, o conselho pedido sequer será ouvido.

Cada nova ocasião atualiza a perda, enquanto o cérebro redesenha o mapa ponto por ponto. Por isso atividades simples podem exigir um esforço enorme de alguém que precisa se readaptar a um mundo que já não funciona como antes.

A dor não precisa ser “apagada”

O amor, a finitude, a passagem do tempo e o luto não são experiências que podem ser quebradas ao meio; acreditar que sim seria alterar o próprio conceito de amor, finitude, passagem do tempo e luto

Dor é a resposta direta à perda: a saudade, o choro, o vazio, o desejo impossível de que a pessoa ou a situação anterior voltem. O vínculo que terminou não pode ser simplesmente “apagado” como se nunca houvesse existido; mesmo que se trate, por exemplo, de uma separação à qual um casal mais tarde voltou atrás, o momento de ruptura existiu de fato. A dor sentida durante o distanciamento foi real. Quando a perda é irreversível então, nem se fale.

Por isso minha crítica àquelas frases bem-intencionadas de consolo: “pelo menos ele não sofreu”, “você vai esquecer de tudo isso e ser feliz novamente”, “vocês depois podem planejar outro filho”, “foi melhor assim”. Ninguém nasce sabendo dar suporte emocional a quem sofre uma perda, mas um abraço reconfortador ou um olhar compassivo podem ser mais adequados do que praticamente ofender o outro com palavras que parecem não compreender que a dor é real e que nada, por melhor que seja, vai apagar a marca que ela deixará.

Tristeza não é o mesmo que depressão

Este é o ponto em que falo mais diretamente como médico. Vivemos numa cultura que tem pressa de voltarem a ficar bem. Às vezes, essa pressa aparece na forma de oferecer um medicamento antes mesmo de se escutar a pessoa que está vivendo o luto.

Alguém perde o companheiro, chora durante algumas semanas e, durante esse tempo, dorme mal, fica sem apetite e se sente meio perdido. A família se preocupa, compreensivelmente, e aí pede ao médico que inicie logo um antidepressivo. Uma tristeza natural e esperada não deveria ser medicada automaticamente por provocar desconforto nas pessoas ao redor.

Já a tristeza reacional, adaptativa, não é o mesmo que um transtorno depressivo. O que nos médicos devemos (nos) perguntar nessas situações é se além do luto, existe também um quadro depressivo que, esse sim, precisa ser tratado?

Freud (olha ele aqui de novo, tão monumental que se torna obrigatório até mesmo na fala de um não psicanalista como eu) diferenciou uma coisa da outra assim: no luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio eu.

Ele estava dizendo que, no luto, a dor costuma girar principalmente em torno da ausência da pessoa ou daquilo que foi perdido; entre as ondas das quais falei, ainda pode haver momentos, ainda que raros, de interesse, prazer e conexão. Na depressão patológica, a negatividade tende a se espalhar por toda a vida. O trabalho, os vínculos, o futuro e o próprio valor passam a parecer vazios. Surgem sentimentos persistentes de inutilidade, desesperança ou autodepreciação.

Essas fronteiras nem sempre são claras. Uma pessoa enlutada pode desenvolver depressão, e uma pessoa deprimida pode sofrer uma perda. Por isso, é necessário avaliar com atenção a história, a intensidade dos sintomas, o funcionamento cotidiano e os riscos envolvidos. Mais abaixo, exploro a questão do Transtorno do Luto Prolongado, que é uma outra história.

O luto antecipado

Se o item anterior foi onde eu mais falei como médico, é neste aqui que mais vou expor minha humanidade tão frágil quanto a de qualquer outra pessoa nesse planeta. No início dos anos 2000, meu pai enfrentou sem sucesso, mas com bravura, um câncer de próstata que, no final, acabou fazendo metástases para vários outros órgãos, passando por várias cirurgias, hospitalizações e tratamentos paliativos até a internação que viria a ser sua última. Ela durou semanas e, durante esse tempo, intensifiquei a minha psicoterapia, pela necessidade de apoio diante daquela realidade difícil e por causa da relação ambivalente que eu tive com ele por toda uma vida. Numa das sessões, minha terapeuta interrompeu minha fala: “Luiz, você percebeu o tempo verbal que usa quando fala do seu pai? É sempre ele era, ele fazia, ele foi... Você fala como se ele já tivesse partido, mas na verdade, por mais que esteja em estado terminal, ele ainda está vivo. A tua história com ele realmente acabou?”.

Não preciso detalhar o quanto aquela intervenção me marcou, me encheu de vergonha de mim mesmo pelo desrespeito a uma pessoa que, sim, estava com a vida por um fio, mas ainda tão viva quanto eu. Inclusive lúcida, desperta e se comunicando à maneira dele, apesar da dificuldade.

A compreensão de que eu estava vivendo um luto antecipado foi, ao final, um presente para mim e para o meu pai. Nas minhas visitas seguintes, demonstrei carinho por ele de uma forma que nunca havia feito, falamos reciprocamente sobre nossas qualidades (coisa rara até então) e nos declaramos amor um ao outro, nas vezes em que passei a noite ao seu lado. Até ouvi um inédito “sinto orgulho por você” enquanto lhe dava na boca a sopa do hospital com uma colher.

Ele partiu pouco depois. A minha dor? Obviamente estava lá. Mas ao lado dela estava também o alívio que senti pelo resgate de última hora proporcionado pela observação da minha terapeuta, por quem eu não poderia ser mais grato. A doença dele, que eu preferia que nunca o tivesse levado embora, paradoxalmente representou, na reta final, uma cura para a nossa história. Claro que ainda tento entender e consertar o filho que fui para ele; mas o pai que ele foi para mim, tenho certeza que partiu em paz.

Quando procurar ajuda

No geral, as pessoas atravessam o luto com os recursos que já possuem: tempo, rituais, fé, amigos, família e, caso queiram, a possibilidade de falar sobre aquele que partiu. Isso não significa que o processo seja fácil; significa só que nem todo luto precisa de abordagem profissional.

Mas a “cura” que ilustrei mais acima com o meu próprio exemplo não teria sido possível sem ajuda. Ajuda essa que tem que acontecer quando a pessoa continua presa ao que perdeu, ou até se antecipa à perda, como eu estava fazendo. Os meses passam e a vida permanece paralisada. O anseio não diminui, o sofrimento impede o trabalho, o autocuidado e os vínculos, e qualquer flerte com a felicidade parece representar uma forma de traição à pessoa que se foi.

Quando o luto que decorre de uma morte permanece intenso, incapacitante e prolongado, pode ter se instalado o chamado Transtorno de Luto Prolongado. Em adultos, esse diagnóstico só é considerado depois de pelo menos doze meses e envolve ainda outros sintomas específicos. Essa é mais uma circunstância em que o enlutado poderá se beneficiar de ajuda especializada.

A terapia do luto não serve para ensinar alguém a esquecer, mas para ajudar a reconhecer a realidade da perda, cuidar da dor, adaptar-se ao mundo que mudou e encontrar um novo lugar para o vínculo dentro da vida que continua. Ajudar a redesenhar aquele mapa.

Durante muito tempo, acreditou-se que o trabalho de luto deveria terminar com o desligamento completo da pessoa ou situação que se perdeu. Seria necessário zerar toda a energia emocional presente e, então, ficar disponível para outros vínculos novamente. Mas hoje entendemos que as coisas não precisam acontecer assim. 

O objetivo não é apagar o vínculo que se perdeu, e sim dar a ele um sentido novo. Assim como a dor vivida não se apaga, o amor vivido também não. Ele só precisa reconhecer que o que viveu foi bom, confiar nas lembranças boas que deixou e encontrar novas maneiras de se expressar. É sobre isso que Gonzaguinha nos convida a pensar na canção “Viver, amar, valeu”.

O amor permanece

Somos feitos, em parte, das relações que tivemos. E, seja na morte real ou na morte simbólica, de uma pessoa ou de algo, o afeto que aquele vínculo envolveu esteve presente, circulou, ajudou a definir quem somos, morou dentro de nós e em nós se mantém como uma energia que não se dissipou.

Quando o vínculo se vai, o amor que o mantinha fica apenas perdido por um tempo sem entender direito para quem ou a que deverá ser direcionado daqui por diante. Com tempo, cuidado e delicadeza, acabamos descobrindo o que fazer com ele.

Luto bem que pode ser isso: o amor dando um jeito de se reorganizar. 








Imagem criada com o ChatGPT a partir de um prompt do autor.

Comentários

  1. Muito bom o texto. Passamos por vários lutos durante a vida mesmo. Fica um aperto quando pensamos nas pessoas e situações que não vivenciaremos mais, mas precisamos seguir. Tentar racionalizar as coisas me parece deixar o processo mais fácil (embora não seja tarefa fácil).

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    1. Sim Mari, nunca vai ser fácil. Acho que a saída está em se autorizar a sentir o luto sem vivenciá-lo como algo do qual é necessário "se livrar logo" mas aos poucos compreender que ele não fala apenas sobre quem se foi, mas também sobre nós e os sentimentos que ficaram. E aí, no melhor dos mundos, conseguirmos direcionar esse sentimento para outras coisas, pessoas, para as memórias e para nós mesmos. Pelo menos penso assim rsrsrs. Obrigado pela leitura amiga!

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