CANSADO DE PARECER NATURAL: AUTISMO, MASCARAMENTO E ADAPTAÇÃO SOCIAL
Existe algo que vez por outra escuto no consultório, claro que sempre expressado com palavras diferentes, mas inevitavelmente com o peso da exaustão: “Doutor, eu me esforço tanto para parecer bem na frente das pessoas, mas quando chego em casa, simplesmente desabo”.
E quem diz isso algo assim geralmente não transparece ao seu
interlocutor o quanto sustentar aquela interação lhe está sendo particularmente
penoso. A pessoa neurodivergente que trabalha, estuda, procura manter
relacionamentos, comparece a compromissos, conversa, sorri, arrisca uma piada,
às vezes, parece sociável o suficiente. Sem levantar muitas suspeitas, acaba passando
apenas como tímida, reservada ou “um pouquinho esquisita”. No entanto permanece,
em linhas gerais, alguém que funciona bem.
É justamente aí que mora o problema. Aquilo que parece
espontâneo para o outro pode estar exigindo um esforço mental permanente por
parte de quem vive a situação internamente: um trabalho invisível, incessante e
incrivelmente exaustivo.
Essa é a ideia de mascaramento, ou, num sentido mais amplo,
de camuflagem social. O termo é usado para descrever estratégias pelas
quais uma pessoa procura esconder, controlar ou compensar características que
poderiam fazer com que ela fosse percebida como diferente do padrão esperado.
No autismo, isso pode significar obrigar-se a olhar nos olhos das pessoas mesmo quando o contato visual é extremamente desconfortável; observar como as outras pessoas gesticulam e tentar imitá-las sem que percebam; ensaiar mentalmente o que dizer antes de uma conversa; controlar o tom da voz; conter aqueles movimentos repetitivos que ajudariam na autorregulação emocional mas que não podem ser usados durante uma interação social qualquer porque denunciariam que existe algo ali que não é muito certo; memorizar expressões adequadas para utilizar em diferentes situações; ou fingir que compreendeu uma ironia, uma indireta ou uma regra social que todos parecem conhecer, menos ela.
Por fora, a conversa flui. Por dentro, cada detalhe está
sendo calculado, monitorado e corrigido em tempo real. É quase como atuar em
uma peça de teatro que não termina nunca. Todos nós acabamos tendo de desempenhar
um papel ocasionalmente, ser formal naquela solenidade para a qual nos
convidaram, parecer interessado na conversa de um estranho a quem acabamos de
ser apresentados numa festa. Tente lembrar como isso cansa. Imagine ter de sustentar
isso todas as horas do dia, todos os dias, a vida toda.
Uma questão de sobrevivência social
O mascaramento não nasce de uma disposição fria e calculada de
enganar os outros. Na absoluta maioria das vezes, surge da necessidade de
pertencer, evitar rejeição, diminuir conflitos e ser o menos notado possível.
Em outras palavras, é uma questão de sobreviver. Sobreviver socialmente.
Muitas crianças com autismo aprendem cedo, ainda que ninguém
lhes explique isso explicitamente, que algumas de suas formas espontâneas de ser
podem incomodar os outros. Aprendem que falar longamente sobre um mesmo assunto
de grande interesse para ela pode cansar e afastar os colegas. Que balançar o
corpo, mexer as mãos ou repetir determinados movimentos pode provocar olhares e
comentários. Que não responder rapidamente a uma pergunta pode ser interpretado
como desinteresse. Que corrigir literalmente uma informação pode soar como
arrogância. Que não demonstrar entusiasmo da maneira esperada pode ser
confundido com frieza ou falta de educação.
Também aprendem que determinadas reações sensoriais não são
levadas a sério ou são até mesmo desprezadas, não importa o quanto a estejam
fazendo sofrer. O barulho que realmente dói é tratado como frescura absurda, a
luz que incomoda é considerada exagero, a repugnância ao sabor, cor ou textura
de alguns alimentos é a maior prova de se tratar de uma criança mimada e a
necessidade de ficar sozinho depois de uma situação social prolongada ou
intensa é traduzida como antipatia.
Diante disso, a criança procura se adaptar: observa, testa,
imita, erra, corrige e até cria regras comportamentais: “Quando alguém disser
isso, sorria”; “Não fique falando tanto tempo sobre esse assunto”, “Olhe para o
rosto da pessoa, mas não fixamente nem por tempo demais”, “Pare de mexer as
mãos desse jeito”, “Faça perguntas sobre a pessoa com quem está conversando, e
que sejam perguntas adequadas à situação!”, “Aguente firme esse barulho
senão vão dizer que você é esquisito”.
A criança com
autismo já pode perfeitamente sentir o peso de seus sintomas e criar estratégias,
nem sempre seguras, de alívio ou autorregulação. Podem desenvolver o
comportamento conhecido como elopement, pelo qual a criança se afasta
inesperadamente de um ambiente protegido, sem conseguir avaliar adequadamente
os riscos envolvidos. Assim, desde muito cedo, pessoas com condição de neurodivergência
precisam escapar de situações que se tornaram difíceis demais para suportar,
como sobrecarga sensorial ou emocional. Nem toda fuga tem a mesma causa, mas é
preciso compreender o que aquela criança estava tentando buscar, evitar ou
comunicar e oferecer-lhe maneiras seguras de pedir uma pausa, afastar-se e
recuperar o equilíbrio.
Aos poucos, pode construir uma máscara “mais sociável” ou “mais
normalzinha” de si mesma que cause menos estranhamento, exposição, atrito e permita
que seja mais facilmente aceita por, aparentemente, estar quite com as
convenções sociais. Aquela versão dela mesma que consiga “passar” pelo mundo
sem chamar tanta atenção.
Essa estratégia pode até funcionar diminuir mesmo o abismo
entre a pessoa e o mundo, o que fica provado com aquela frase típica dita por
quem jura que está fazendo um elogio: “Nossa, nem parece que é autista”. A
máscara mantém a pessoa “socialmente viva”, mas não sem cobrar um preço bastante
alto para isso.
Sucesso na frente, sofrimento por trás da máscara
Pessoas que camuflam suas dificuldades com eficiência podem
atravessar boa parte da vida sem que ninguém perceba o esforço enorme realizado
nos bastidores. Algumas recebem diagnóstico apenas na idade adulta, depois de
anos tentando entender por que atividades aparentemente simples sempre exigiram
tanta energia.
Durante muito tempo, o autismo foi reconhecido a partir de
modelos construídos principalmente com base em apresentações mais evidentes e
frequentemente associadas a comportamentos masculinos. Historicamente, portanto,
muitas mulheres e meninas autistas, foram imensamente afetadas por esse problema
de parecerem simplesmente (e talvez deliberadamente) “esquisitas” e não de possuírem
algum nível de neurodivergência que as explicasse e absolvesse. Pessoas mais
quietas, imitativas, verbalmente habilidosas ou socialmente obedientes podiam
não corresponder à imagem clássica que familiares, professores e até
profissionais tinham do autismo.
A camuflagem é uma das razões possíveis para o diagnóstico
tardio, mas não é a única. Também pesam a qualidade da avaliação, os
estereótipos sobre o transtorno, o contexto cultural, as oportunidades de
suporte e a presença de outras condições que podem confundir o quadro. Enquanto
isso, a pessoa segue funcionando de algum modo.
O que não é a mesma coisa que estar bem. O custo emocional
pode ser cobrado sob a forma de ansiedade persistente, irritabilidade, crises
depois de interações sociais, necessidade de isolamento prolongado,
dificuldades para reconhecer as próprias necessidades e uma sensação dolorosa
de estar sempre tendo que interpretar pessoas, tentando compreendê-las mais que
se fazer compreendido por elas. Não soa um tanto cruel?
Algumas pessoas descrevem o temor de serem descobertas como
uma fraude, não porque tenham mentido sobre suas competências, mas porque
acreditam que ninguém conhece quem elas realmente são. Os outros conhecem a
versão treinada, educada, sorridente e socialmente satisfatória. A pessoa que
existe por baixo dessa performance permanece escondida, às vezes até de si
mesma. E, anos depois, a pergunta deixa de ser “como devo agir?” e passa a ser:
“Quem sou eu quando não estou tentando corresponder ao que esperam de mim?”
Quando o corpo manda a conta
Nos últimos anos, tornou-se mais conhecido o conceito de
esgotamento autista, ou autistic burnout. Ele não corresponde,
atualmente, a um diagnóstico independente, mas descreve uma experiência
relatada por muitas pessoas com autismo e cada vez mais estudada. Trata-se de
um estado de exaustão profunda e intensa, frequentemente associado a sobrecarga
sensorial, exigências sociais contínuas, necessidade de mascaramento e falta de
oportunidades suficientes de recuperação.
A pessoa pode perceber que já não consegue realizar tarefas habituais.
Pode ficar ainda mais sensível a alimentos, sons, luzes e movimentos, ter maior
dificuldade para falar, organizar-se, decidir ou para tolerar ambientes
sociais. Algumas atividades cotidianas se tornam quase impossíveis. Surge a
necessidade de retirar-se do mundo, não como escolha tranquila, mas como se o
organismo tivesse quebrado o vidro e puxado a alavanca de emergência.
Aqui, não é suficiente, e muito menos justo, concluir que a
pessoa “desanimou”, “regrediu” ou “deixou de tentar”. É preciso compreender o
que aconteceu antes do colapso: por quanto tempo ela vinha excedendo seus
limites, quantos estímulos precisava suportar, quanto de sua energia psíquica era
mobilizada apenas para aparentar estar confortável quando, na verdade, não
estava. E promover estratégias para que situações extremas como esta sejam
evitadas – para a própria pessoa em exaustão e para outras que, da mesma forma,
estejam correndo esse risco.
Além do autismo
Embora a camuflagem social tenha recebido atenção especial
no estudo do autismo, o esforço de esconder dificuldades não é exclusivo das
pessoas com essa condição.
Alguém com TDAH pode empregar enorme energia para controlar
a inquietação, camuflar esquecimentos, chegar cedo demais aos compromissos por
medo de se atrasar ou revisar repetidamente o próprio comportamento para não
parecer impulsivo. Uma pessoa com ansiedade social pode ensaiar conversas,
monitorar cada gesto e passar horas analisando o que disse ou o que vai dizer e,
nesse movimento de espera e de preparação, já antecipar todo o sofrimento e desgaste
que a situação lhe causa. Quem viveu experiências de rejeição, violência ou
humilhação pode aprender a observar o ambiente permanentemente e moldar-se ao
que parece mais seguro. Pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo,
dificuldades de aprendizagem, doenças crônicas diversas ou outras condições
também podem esconder sintomas para evitar julgamento, discriminação ou perda
de oportunidades.
Os comportamentos podem parecer semelhantes, mas as razões,
os mecanismos e as necessidades de cada pessoa precisam ser compreendidos
individualmente. Nem toda bateria social baixa define autismo, assim como nem
toda capacidade de conversar ou trabalhar sem qualquer tipo de dificuldade
afasta aquela possibilidade. Reconhecer o mascaramento não deve transformar todo
e qualquer desconforto social em diagnóstico, mas nos alertar que desempenho
visível e sofrimento interno podem ocorrer com a mesma pessoa, a um só tempo,
numa mesma situação.
Diagnóstico tardio: alívio e luto
Quando o diagnóstico de autismo chega no final da
adolescência, aos vinte, trinta ou até mais tarde, tem um potencial ainda maior
para provocar ambivalência de sentimentos.
Por um lado, pode vir um certo alívio porque finalmente
existe uma explicação para algo que esteve lá por toda uma vida e que não tinha
uma causa conhecida, um nome, um protocolo a seguir. Certas lembranças se
reorganizam. As dificuldades sociais deixam de ser interpretadas como
inabilidade, a sensibilidade a estímulos ganha justificativa e contexto, a
necessidade de rotina, os interesses rígidos, os colapsos depois de períodos de
grande exigência e a sensação de estar sempre tentando decifrar um manual que os
outros já conhecem de cor passam a formar uma história mais coerente.
Por outro, pode também haver luto. Luto pela esperança perdida
num ideal de “normalidade” psíquica, na expectativa de que em algum momento os
conflitos se resolveriam e que, a partir daí, a pessoa pudesse passar a se reconhecer
e a ser reconhecida como um ou uma igual a todo mundo. Luto pela perda da
possibilidade de efetivamente passar a ver, entender e interagir com o mundo de
uma forma plena de intensidade e sentido – ao menos daquela forma socialmente
compartilhada – ou de viver de maneira completamente livre de cuidados específicos
ou tratamentos, farmacológicos ou não. Luto pela ideia de ter de continuar
sustentando uma máscara de normalidade, que agora tenha talvez se tornado mais
pesada, e ainda pela impossibilidade de ser para o resto da vida, uma pessoa “normal”,
sem qualquer estigma ou rótulo.
O diagnóstico não apaga os efeitos pessoais, sociais e
emocionais da condição vividos no passado e, menos ainda, resolve
automaticamente todas as dificuldades presentes e futuras. Mas pode permitir
que a história pessoal seja reinterpretada com menos culpa e mais (auto)compaixão.
Para alguns, receber o diagnóstico não se reduz a descobrir que são pessoas com
autismo. É ter também que enfrentar o fato de que passaram a vida oprimidas, tentando
resolver, como defeito de caráter, ou como algo muito errado em sua essência como
pessoas, uma outra coisa que nunca foi uma falha moral ou um comportamento inadequado
mantido por vontade própria.
Adaptar-se ou apagar-se
Todos nós ajustamos nosso comportamento conforme o ambiente.
Não conversamos com um amigo íntimo exatamente da mesma maneira que falamos
durante uma entrevista de emprego. Esperamos nossa vez, procuramos não
interromper, aprendemos a perceber limites e fazemos concessões para viver em
comunidade, de acordo com as convenções sociais que, no melhor dos mundos, não
temos lá muita dificuldade para entender. Isso não é necessariamente
mascaramento, mas parte da convivência humana. Afinal, vivemos em sociedade e,
para que a convivência seja possível, algumas regras e limites precisam ser observados.
Mas existe uma diferença entre fazer concessões e
abandonar-se, entre adaptar-se a uma nova situação de vida e desaparecer como
pessoa, e é esse é o principal ponto de atenção pós-diagnóstico. Ninguém é
obrigado a demonstrar autenticidade o tempo inteiro nem passar a dividir sua vida
íntima em qualquer situação. A possibilidade de reduzir o mascaramento depende
da existência de segurança, autonomia, do contexto e de fazer escolhas livremente.
Nessa visão, o importante é perceber quando e por que a máscara ainda precisa
ser usada e quanto ela continua custando emocionalmente àquele que a carrega.
Enfim, um lugar para descansar
Parte do trabalho realizado em psicoterapia, no
autoconhecimento e no contato com pessoas que viveram experiências semelhantes
consiste em reconstruir essa relação consigo mesmo da maneira o mais autêntica
possível.
Isso poderá implicar aprender a reconhecer sinais de
sobrecarga antes do colapso; respeitar necessidades sensoriais; planejar
períodos de recuperação depois de situações exigentes; rever ambientes e
relações que cobram uma performance impossível; e experimentar maneiras mais reasseguradoras
de comunicar limites.
Também significará descobrir que determinados gestos,
interesses ou necessidades não precisam ser corrigidos apenas porque parecem
incomuns. Nem tudo o que é diferente precisa ser tratado para ficar conforme a
norma. Nem toda característica que incomoda o ambiente está causando sofrimento
à pessoa que a apresenta. O mundo ao redor também precisa se adaptar à
realidade de quem é divergente, não o contrário (ou não somente o contrário). E sobre isso, todos nós, neurodivergentes ou
não, temos uma enorme responsabilidade. Não basta “aceitar” a pessoa com
autismo; é necessário revermos nossos próprios hábitos e conclusões automáticas
sobre aquela pessoa e, mais ainda, advogar pela aceitação e não-exclusão de
todas as pessoas iguais a ela perante toda a sociedade.
Se o que você acabou de ler provocou um certo incômodo pelo
fato de o mundo continuar perpetuando o sofrimento de quem é diferente, talvez
seja hora de engajar-se e agir. Aceitar algo passivamente e nada oferecer para
melhorar a situação talvez seja realmente apenas indiferença disfarçada de
empatia.
Mas se algo nesse texto ressoou de maneira ainda mais
profunda, inesperada, e que fale diretamente o com o que há de mais íntimo em
você, talvez valha a pena conversar com um profissional que conheça o tema. Não
para buscar um rótulo, nem para encontrar uma explicação única para toda a
vida, mas para compreender o que está acontecendo. Porque talvez você não
esteja cansado de conviver com as pessoas. Talvez esteja cansado de nunca poder
conviver com elas sendo você mesmo.
É plenamente possível encontrar lugares, relações e formas
de estar no mundo pelas quais parecer natural deixe de ser um esforço. Mas que sejam
sinônimos de viver a singularidade sem medos, vergonha, vigilância ou reservas.
O que, afinal, é um direito de todos nós.
Imagem gerada por IA a partir de prompt do autor.



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