AQUELE SEGUNDINHO QUE FALTOU ENTRE O SENTIR E O AGIR: UMA REFLEXÃO SOBRE A IMPULSIVIDADE
Há decisões que levam dois segundos ou menos para serem
tomadas e anos para serem consertadas, se é que um dia serão: uma mensagem
enviada no auge da raiva, uma compra feita no impulso do momento, uma resposta imediata
(e atravessada) ao chefe, um pedido de demissão escrito antes que o café
esfriasse, uma briga iniciada por algo que, no dia seguinte, já nem lembramos
direito; um copo a mais, uma aposta a mais, uma promessa feita “no embalo” que
não tínhamos a mínima condição ou mesmo intensão de cumprir.
Muitas vezes, não é que a pessoa desconhecesse as
consequências de seus atos impulsivos; só não conseguiu impedir que a emoção
cega as levasse em consideração naquele instante. A ideia do que poderia
acontecer depois até já estava lá, mas foi encoberta pela necessidade de agir
sem deliberar, porque o desejo, a raiva, a certeza momentânea de estar agindo
de forma coerente com a situação e a necessidade de aliviar de imediato o
desconforto emocional gritaram mais alto. E sim, é geralmente o que uma emoção
presente costuma fazer: gritar tão mais alto que chega a ensurdecer a razão.
Já falei aqui anteriormente sobre reatividade emocional —
sobre a sensação de estar numa montanha-russa sem ter comprado o
ingresso e sobre algumas ferramentas que podem nos ajudar a recuperar algum
protagonismo durante o percurso. Também já falei sobre explosões súbitas e
incontroláveis de irritação ou raiva e como dominar a comunicação não
violenta pode ser extremamente útil nesses momentos.
Mas há algo que ficou por dizer. O que acontece — ou, melhor
dizendo, o que deixa de acontecer — naquele intervalo mínimo entre o sentir e o
agir? Há um pequeno momento ali, quase imperceptível, uma fresta praticamente
invisíviel naquela janela de tempo que, quando lembramos que existe, pode
permitir que a pessoa reconheça o que está sentindo antes de decidir qual a
melhor maneira, ou maneira menos destruidora, de lidar com a situação?
O oposto disso já conhecemos: agir e sentir colapsam naquele instante como se fossem inseparáveis; a emoção chega e, antes mesmo que a pessoa consiga reconhecê-la dentro de si, a pior palavra possível já foi proferida, a mensagem já foi enviada, a porta já bateu, o cartão já foi passado, o copo já foi engolido ou alguma ação impactante, e por vezes irreversível, já foi executada.
Depois que tudo passa, surge uma frase que escuto com certa
frequência no consultório: “não sei onde eu estava com a cabeça naquele
momento; se tivesse conseguido parar só um pouquinho para pensar antes de
agir...”. A cabeça provavelmente estava ali sim, mas, naquele momento, a emoção
estava no comando completo da cena e ignorou a existência daquele “segundinho”
a mais do qual a razão precisava para reassumir o comando.
Podia não ser necessariamente um segundo no sentido literal,
mas cinco segundos, cinco minutos ou o tempo necessário para nos recompormos antes
de reagir adequadamente. Uma retirada estratégica para “ir ao banheiro”, uma
caminhada, um banho, um choro de alívio fora da cena, uma conversa com alguém que
nos acalme ou simplesmente aquela boa e velha oportunidade de ter uma noite de
sono só para confirmar, no dia seguinte, que a reação emocional, feroz e
intensa que evitamos precisava mesmo ter sido freada.
Assim, o “segundinho” a que me refiro no título desse post é
o nome que estou dando à diminuta distância psíquica entre sentir uma vontade ou
necessidade imediata de agir, mesmo que de maneira inconsequente, e realmente transformá-la
numa ação. Dentro dessa fração de tempo cabe uma quantidade surpreendente de ações
mentais: colocar em dúvida a própria compreensão da situação, explorar a memória
em busca de episódios semelhantes, convocar o exército da prudência, cavar do
fundo da alma alguma consideração pelo outro (por mais errado que ele esteja), reassegurar
o respeito pelos próprios princípios e valores pessoais de conduta e calcular a
simples possibilidade de mudarmos de ideia.
Em outras palavras, dentro do segundinho é possível fazer
uma escolha, mesmo que parcial, até ter condições de tomar decisões mais
definitivas.
Não é apenas sobre falta de controle
A impulsividade tem má fama, e entende-se por quê. Ela
aparece em diagnósticos difíceis, em histórias dolorosas e em alguns dos erros
que mais custam para serem reparados.
Mas reduzir a “falta de autocontrole” é como reduzir a febre
a “temperatura alta demais”. É uma descrição tecnicamente correta, porém
insuficiente para explicar o que está acontecendo — e menos ainda para indicar
o que fazer a respeito. Costumamos falar da impulsividade como se fosse uma
característica única: algumas pessoas “são impulsivas”, outras não.
Na prática, porém, ela pode aparecer de maneiras bastante
diferentes. Há quem se torne impulsivo principalmente quando está com raiva,
angustiado, frustrado ou se sentindo rejeitado: a emoção chega com tamanha
intensidade que ocupa praticamente todo o campo de visão que, quando a
capacidade de refletir retorna, o estrago já foi feito. Esse foi o exemplo “clássico”
do qual me ocupei nos parágrafos anteriores.
Mas há a impulsividade como recurso evolutivo de
sobrevivência da espécie: na selva, lutar ou fugir precisa ser uma decisão imediata,
baseada nos dados sensoriais que o cérebro recebe. Há momentos em que agir
rapidamente é necessário, ou mesmo exercer a capacidade de improvisar de experimentar
algo novo; uma certa espontaneidade pode abrir portas. Porém, na vida contemporânea, ações impulsivas
viscerais podem se tornar um problema, como reagir a um assalto a mão armada, executar
uma manobra perigosa na estrada quando irritado pela má condução do motorista à
frente ou perder uma excelente oportunidade na vida que só lhe pedia um pouquinho
mais de deliberação.
Há também a impulsividade de pessoas que agem
precipitadamente porque a ansiedade que as domina desde sempre não permite que tolerem
a espera. Há quem se torne momentaneamente ou ocasionalmente impulsivo quando
está com o emocional excessivamente diferente do habitual, mais irritadiço, eufórico,
empolgado ou confiante de si.
Outros usam o impulso como uma espécie de hobby: a sensação
de novidade, de um desfecho “feliz” e geralmente dependente da sorte ou do
acaso, em resposta a uma ação arriscada, confere prazer e uma noção bem
esquisita de “sentido” para a vida.
O que todas as formas de impulsividade compartilham é
justamente a ausência — ou a estreiteza — daquele segundinho do título. Por
isso, dizer a alguém para apenas pensar antes de agir costuma ser tão útil
quanto recomendar uma boa noite de sono a alguém com insônia. Então vamos
entender melhor como as coisas acontecem.
Impulsos não são comandos mentais
Sentir um impulso significa perceber uma inclinação forte e
imediata para fazer alguma coisa. O impulso diz “faça isso já!”, mas não
costuma apresentar um relatório detalhado sobre tudo o que poderá acontecer
depois. Podemos ter bons motivos para estar com raiva, querer terminar uma
relação, abandonar um projeto ou comprar algo que nos dê prazer; então problema
não está necessariamente na vontade.
Assim, é importante lembrar que o impulso é uma informação confrontável,
não uma ordem incondicional. Ele pode nos dizer que estamos cansados,
frustrados, entediados, humilhados, carentes, ameaçados, eufóricos ou
desesperados por alguma mudança mas o fato de uma emoção pedir passagem não
significa que devamos entregar a ela a direção do veículo. Portanto, podemos
escutá-la sem obedecê-la imediatamente.
Obedecê-la é como acreditar que o amanhã, quando as
consequências da ação impulsiva surgirão, pertence a outra pessoa e não você.
Como se o “você do momento” quer
descarregar a raiva, recuperar o orgulho, provocar uma resposta ou fazer o
outro experimentar um pouco da dor que lhe causou e depois é uma outra pessoa
que deverá lidar das consequências. Ou, mesmo que tenha convicção de que quem
vai realmente “se ferrar” depois (desculpe pelo meu latim) é você mesmo, se
estabelece uma espécie de financiamento emocional: recebemos o alívio no
presente e deixamos as parcelas para o nosso eu do futuro pagar, com juros e
multa. É por isso que algumas decisões parecem tão evidentemente ruins cinco
minutos depois, embora tenham parecido indispensáveis cinco minutos antes.
Não foi necessariamente a inteligência da pessoa que mudou
nesse intervalo. Mudou o ângulo de visão a partir do qual ela estava avaliando
a situação. Enquanto o presente faz barulho, o futuro só manda um memorando que
deixamos para ler depois.
Algumas vezes, um padrão de impulsividade recorrente tem por
trás um componente de temperamento, de um traço genético herdado, o que não é
um defeito em si, mas uma característica nata que merece atenção e cuidados,
como quem nasce com tendência à hipersensibilidade a determinados componentes
precisa evitar contato estes para evitar crises alérgicas.
Em outros casos, a impulsividade pode ter sido aprendida. Crescer
em ambientes imprevisíveis, nos quais era necessário responder rapidamente para
proteger-se emocionalmente, pode ensinar uma pessoa a não esperar para ver o
que acontece. Para quem viveu durante muito tempo em alerta, a pausa não parece
ser um lugar seguro para se estar e o cérebro aprende, então, que é preciso
agir antes, qualquer resposta parece melhor que se colocar em “modo espera”.
Há também situações em que a impulsividade faz parte de um
quadro clínico mais amplo. Ela pode aparecer, de maneiras diferentes, no TDAH,
em episódios de mania ou hipomania, em alguns transtornos de personalidade, nos
transtornos relacionados ao uso de substâncias, nos transtornos alimentares, no
jogo problemático e em outras condições.
Diferenciar as várias causas da impulsividade é importante
porque uma das coisas que mais me aflige é ver pessoas sofrendo silenciosamente
por algo que tem explicação e possibilidade de tratamento, enquanto acreditam
que o problema é simplesmente fraqueza de caráter. Pensando assim, imaginam que
o problema se resolve apensar se “tentarem mais”. E a vergonha que vai se
acumulando nunca ajudará em nada.
Então, como lidar com a minha impulsividade?
A diferença entre o agir correto e o agir com base apenas na
emoção nem sempre está na velocidade da decisão, mas na relação que temos com
ela. Uma escolha espontânea pode ser rápida e coerente com o que sabemos sobre
nós mesmos, com os riscos que somos capazes de assumir e com o que desejamos
preservar. Já a ação impulsiva tende a diminuir nossa liberdade. Não sentimos
que o que fizemos foi realmente uma escolha, sentimos que fomos levados, o que absolutamente
não nos isenta de responsabilidade pelo que fizemos. Responsabilidade jurídica
em alguns casos talvez, depois de uma batalha imensa do seu advogado;
responsabilidade interna, consigo mesmo, jamais.
Aprendemos com a experiência. Por isso, em primeiro lugar, é
útil nos fazermos algumas perguntas: “eu poderia ter feito diferente naquele
momento?”; “me permiti considerar as consequências?”; “essa passagem se
aproxima da vida que desejo construir ou apenas resolve, durante alguns
minutos, aquilo que eu não queria estar sentindo?”; “estou assumindo um risco
consciente ou simplesmente entregando o problema ao meu eu de amanhã, como se
este fosse outra pessoa e não eu mesmo?”.
Seguindo essa linha de raciocínio, o que torna aquele
intervalo de tempo tão valioso não é o tempo em si, mas o que ele possibilita:
uma breve consulta interna: “o que está acontecendo comigo nesse exato momento?”;
“o que eu estou realmente sentindo?”; “esse sentimento é original, nascido
completamente da situação presente, ou é algo que não resolvi em circunstâncias
passadas, de tal modo que, descarregar tudo o que está acumulado sobre alguém
que apenas nos lembra outra pessoa vai me aliviar de tudo o que não foi
resolvido?”; “qual o nome da emoção que estou sentindo; medo, raiva, frustração,
nojo... cada uma tem um jeito específico de ser administrada”; “vou conseguir reparar
depois os danos que eu causar agora?”. Às vezes, essa consulta interna dura
literalmente um segundo.
Mas muda tudo porque introduz, entre o estímulo e a
resposta, alguém que até então estava de fora: a própria pessoa que (re)age.
Assim, a impulsividade, nesse sentido, pode ser compreendida também como uma
forma momentânea de ausência de si. O que age é o reflexo, o padrão antigo, a
urgência ou o sistema de alarme, não o sujeito capaz de perceber o que sente e
decidir o que fará com aquilo. Criar o segundinho adicional significa começar a
se apropria desse espaço onde a bola estava quicando sem ninguém para recuperar
a estratégia do jogo.
E “apropriar-se de si” e das motivações internas para uma
determinada resposta impulsiva lembra o quê? Aprender com os acontecimentos,
desejar mudar, milhagem em leituras, inclusive de si mesmo, autoconhecimento,
psicoterapia, técnicas de autorregulação emocional, compaixão e autocompaixão,
aceitar que o mundo é mesmo cheio de obstáculos para todo mundo indistintamente
e não um cenário com ciladas armadas apenas para você – e, nesse sentido, ficar
com raiva por acreditar que é injusto que “só os outros se deem bem, menos eu”.
O “segundinho”, na verdade, precisa começar a ser construído
antes. Quando pensamos em autocontrole, imaginamos um cabo-de-guerra
acontecendo no auge da tentação: de um lado, a vontade; do outro, uma força
moral poderosa dizendo “não”. É fácil prever quem ganhará essa partida quando a
solução tem de ser criada no momento em que ela se coloca, pois a adrenalina
está a favor de apenas um dos lados da competição, desequilibrando-a.
É sempre melhor preparar com antecedência o espaço entre
sentir e agir, quando ainda estamos calmos o suficiente para reconhecer nossos
padrões. Não estou afirmando que toda e qualquer situação inesperada seja
previsível. Mas entender os nossos padrões de resposta, seja alguns dias antes
daquela reunião de condomínio, seja preferencialmente em qualquer outro momento
da vida, mesmo sem previsão de um acontecimento potencialmente ruim, ajuda a
nos prepararmos para quando esse acontecimento eclodir e para nos conhecermos
melhor e pautarmos nossas ações, seja sob uma tempestade emocional, seja num
dia ameno e tranquilo da primavera da alma.
Há pessoas que ficam mais vulneráveis quando estão privadas
de sono, depois de beber, durante discussões intensas, ao receber críticas,
quando estão sozinhas à noite, depois de uma frustração profissional, quando
subtraídas de qualquer coisa, quando se sentem rejeitadas, entediadas, não
notadas ou notadas em excesso. Reconhecer os contextos em que a emoção cega
pode querer assumir o controle sozinha é tratar a própria vulnerabilidade com inteligência
e investir na estima por si mesmo. Estabelecer as regras antes do jogo começar
é uma maneira de preservar-se e também de se autoafirmar de modo positivo. Tempo
empregado em saber que se é é investimento para toda uma vida.
Por fim, se com a prática contínua conseguires aperfeiçoar o
suficiente a capacidade de perguntar para o “eu de amanhã” se, depois do calor do
momento, ele vai querer que eu tivesse feito aquilo, essa poderá ser uma
estratégia de grande valor, e talvez cada vez mais fácil de executar.
Sendo coerente com o que disse até aqui, a proposta é trazer
para o momento atual alguém que costuma chegar atrasado às nossas decisões.
Questionar tudo isso não garante escolhas perfeitas, mas diminui a chance de
confundirmos o que apenas parece uma urgência com algo que realmente tenha
importância.
Desarmar as armadilhas
Algumas situações, podemos prever facilmente, favorecem
respostas impulsivas e potencialmente danosas porque tornam curta demais a
ponte entre a vontade e a ação. De fato, nunca foi tão fácil comprar, apostar,
publicar, responder, pedir comida, iniciar uma discussão ou procurar algum
estímulo que nos distraia até de nós mesmos. A tecnologia retirou diversos
obstáculos do caminho e chamou isso, corretamente, de conveniência. Mas nem
toda conveniência trabalha a nosso favor. E quando o acesso fácil a algo
costuma nos causar problemas depois, pode ser útil colocar propositalmente alguns
obstáculos no caminho, como retirar os dados do cartão dos aplicativos, estabelecer
limites diários de gastos ou de resgate de investimentos financeiros, não
manter em casa aquilo que dificilmente conseguimos consumir com moderação, bloquear
temporariamente determinados sites, escrever aquela mensagem acalorada sem colocar
o destinatário, não manter nas redes sociais acesso ao perfil daquela pessoa
que é alvo de pensamentos obsessivos nossos, deixar o carro em casa se for a um
evento com disponibilidade de álcool mesmo que esteja determinado a não beber,
não tomar decisões durante a madrugada, marcar com o chefe, com antecedência
razoável, uma conversa para expor alguns problemas que o têm chateado no dia a
dia, ou, caso você seja uma pessoa de fé, parar para rezar ou orar e pedir “ao
alto” inspiração e proteção naquele momento-limite. E da mesma forma, estabelecer
quaisquer outras precauções que só quem vive o problema de lidar com o
resultado dos seus impulsos é capaz de identificar.
No limite, se perceber algo como “seu dedo” estar com uma vontade
incontrolável de apertar a tecla de enviar para aquela mensagem ousada, ou
seja, quando por um milissegundo você sentir como se quem está tentando agir é
uma outra pessoa dentro de você, e não você por inteiro, quebre o vidro imaginário
e acione o botão de emergência localizado bem dentro de você. É possível que
você tenha acabado de perceber que só uma parte sua estava querendo assumir o
controle. E esse lampejo de consciência pode ser o bote salva-vidas da
situação.
Comportamentos isolados não estabelecem um diagnóstico e não
deveriam transformar espontaneidade, ousadia ou intensidade em doenças. Entretanto,
vale procurar uma avaliação profissional quando as ações impulsivas têm
provocado prejuízos repetidos nas relações, nas finanças, no trabalho, na saúde
ou na segurança. Seja quando se percebe um funcionamento diferente do habitual,
seja no instante em que a pessoa atina que talvez, na maior parte da sua vida, não
foi o mundo que estava sempre errado e sim que ela tenha mantido um padrão disfuncional
de lidar consigo mesma e com os problemas que se repetem.
Procurar ajuda médica e/ou psicológica também merece consideração
quando a pessoa sente que perdeu a capacidade de interromper determinados
comportamentos; quando a impulsividade surgiu repentinamente e de maneira muito
diferente do seu funcionamento habitual; ou quando vem acompanhada de
alterações importantes no sono, na energia, no humor, no uso de substâncias ou
na percepção de risco.
Mas e quando não consegui evitar, faço o quê depois?
A emoção diminui, o campo de visão se amplia e a pessoa
começa a enxergar aquilo que, poucos instantes antes, parecia invisível. A
recuperação súbita da lucidez pode ser dolorosa, e aí é comum a autocrítica
contumaz ter de conviver com o desprezo, fúria ou perda de confiança das
pessoas que foram atingidas pelo terremoto que você causou.
É preciso lembrar que transformar um comportamento
inadequado numa identidade definitiva não ajuda ninguém a compreender o que
aconteceu. “Fiz algo que causou danos a mim e a outras pessoas” é diferente de
“sou um problema sem solução”. Por igual, a tendência a generalizar o caráter
das outras pessoas a partir de um momento visivelmente ruim ou fragilidade
desta é algo cruel e que revela igual inadmissibilidade em relação aos próprios
erros
Claro que quem foi ferido continuará tendo o direito de
estar ferido, quem perdeu a confiança talvez precise de tempo para recuperá-la
e que alguns danos não desaparecem só porque nos arrependemos de tê-los causado.
Mas a comunicação sincera e a coragem de chamar para si e para suas próprias fraquezas
a responsabilidade por ações mal calculadas pode ser um começo.
Reparar na medida do possível o que aconteceu e demonstrar o
desejo de não repeti-lo, desde que não sejam promessas vazias mas tentativas
visíveis de autoaperfeiçoar-se, sinalizam aos outros que não somos
necessariamente aquilo que ações pareceram insinuar. Que erramos como muitos,
mas que nos apropriamos dos nossos erros para melhorarmos, como poucos realmente
fazem.
Um pedido de desculpas pode fazer parte disso, desde que não
sirva apenas para aliviar rapidamente a culpa de quem agiu e isso exige o
desconforto de ouvir o outro, aceitar críticas, devolver dinheiro, procurar
tratamento, afastar-se temporariamente de determinada pessoa ou situação ou investir
em mudanças internas por um período muito mais longo do que gostaríamos. O
arrependimento é uma emoção e a reparação é um comportamento.
Sugiro fortemente que você leve em conta sua capacidade de corrigir
ou reduzir os danos que causou.
***
Para resumir, talvez o objetivo não seja nos transformarmos
em pessoas perfeitamente controladas, calculando cada gesto até perder qualquer
espontaneidade. Uma vida sem impulsos provavelmente seria uma vida sem
movimento.
O que precisamos é de espaço suficiente para que o impulso
não seja a única voz presente quando uma decisão estiver sendo tomada. Raiva,
desejo, medo, frustração, euforia e necessidade de alívio podem falar. Mas nossos
critérios pessoais (valores que fomos construindo ao longo do tempo), experiências
anteriores, respeito pelo outro e por si mesmo e a pessoa que seremos amanhã
precisam ser convidados a participar da conversa.
E esse convite, rápido como um segundo, talvez possa alterar
até mesmo o rumo de uma vida inteira.
Imagem gerada pelo
autor a partir de foto de perfil e de conversa fictícias.
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