UMA VIDA GUIADA POR VALORES: PEQUENA INTRODUÇÃO À TERAPIA DA ACEITAÇÃO E COMPROMISSO
Hoje, peço licença para falar mais especificamente sobre uma
abordagem denominada Terapia de Aceitação e Compromisso, muito conhecida por
sua sugestiva sigla em inglês "ACT" e inserida entre as chamadas
Terapias Contextuais ou de "terceira geração", desenvolvidas a partir
da tradição da Terapia Cognitivo-Comportamental. O propósito não é advogar em
favor dessa abordagem em si, mas explora um entre seus vários instrumentos
conceituais, o qual pode nos ajudar com o traçado de um projeto de vida
pessoal, de preferência dentro de uma psicoterapia estruturada, mas não
necessariamente no decurso dela.
Minha preocupação nesse post é com a coerência entre uma
dada construção teórica e sua utilidade real para a a qualidade de vida e a
saúde mental das pessoas. Teorias são mapas; algumas representam muito bem o
terreno humano, mas nenhuma delas deveria ser confundida com o território
inteiro. Claro que, quando no papel de psicoterapeuta, me valho de protocolos e
de todos os recursos de uma determinada linha psicoterapêutica de maneira fiel
à sua técnica, mas esse espaço aqui, ao contrário, é de reflexão livre e, por
isso, vou apenas apresentar de forma breve o conceito de “valores”, que não é
exatamente o mesmo da linguagem comum, para pensarmos no quanto eles podem ser
centrais para guiar a nós mesmos, nossas escolhas e nossa vida.
A abordagem em questão foi desenvolvida a partir dos anos
1980 pelo psicólogo estadunidense Steven Hayes e seus colaboradores. A ACT
organiza-se em torno de uma capacidade denominada flexibilidade psicológica:
a possibilidade de entrar em contato com o momento presente e, diante do que
ele oferece, persistir ou mudar o nosso comportamento a partir de “valores” pessoais
previamente escolhidos. A premissa pode parecer simples, mas toca em um dos
principais causadores do sofrimento humano: muitas vezes, não é apenas a
presença em si da ansiedade, da tristeza ou do medo que nos paralisa, mas sim a
luta permanente para que essas experiências desapareçam antes que possamos tocar
a vida adiante. Em vez de concentrar todos os esforços na eliminação do que é
difícil, a ACT propõe algo mais radical e, curiosamente, mais gentil: aprender
a permanecer em contato com isso sem entregar a essas experiências o controle da
nossa vida.
Vale abrir um parêntese sobre a palavra
"aceitação", que aparece no próprio nome da abordagem e costuma gerar
mal-entendidos. Na ACT, aceitar não significa conformar-se com uma situação
injusta ou desistir de mudar o que pode ser mudado. Significa parar de travar
uma guerra interna contra experiências que já estão acontecendo — a ansiedade
que chegou, o pensamento que insiste em voltar, a tristeza que não pede
licença. Essa luta, quando se torna o centro da vida, costuma custar mais
energia do que a própria experiência que se tenta eliminar. Aceitar é
reconhecer que determinada emoção está presente neste momento, sem precisar aprová-la
e, principalmente, sem precisar que ela desapareça para que possamos continuar
agindo de acordo com o que importa.
E por “de acordo com o que importa” estou me referindo exatamente
ao conceito de valores: referências que guiam as nossas escolhas vida afora,
sem se confundirem com o conteúdo dessas escolhas, como veremos mais adiante. Mas antes, fique com uma imagem que vale mais que um parágrafo inteiro de palavras e conceitos:
Antes de avançarmos, vai um aviso necessário: se você está pensando em "valores" como equivalentes a sistemas de referência ideológicos ou religiosos ("valores judaico-cristãos", "valores de direita", "valores de esquerda"), volte uma casinha no tabuleiro, pois não é sobre isso que estou escrevendo. Refiro-me a valores de conduta pessoais, aqueles que podem variar mesmo entre pessoas que compartilhem a mesma religião ou o mesmo partido político.
Também vale diferenciar “valores” de setores da vida.
Família, trabalho e saúde não são exatamente valores, mas campos nos quais os
valores adotados pela pessoa podem se manifestar. No trabalho, posso valorizar
a honestidade ou o aprendizado em todas as situações que precisar fazer escolhas.
Nos relacionamentos, posso escolher agir sempre com respeito e sinceridade. Os
valores se expressam nas referências que adotamos para lidar com cada uma
dessas áreas.
Valores não são metas
Uma meta é algo que pode ser alcançado e, em algum momento,
concluído: terminar a faculdade, perder dez quilos, conseguir um novo emprego.
Um valor, por sua vez, é a diretriz que orienta as coisas que buscamos na vida.
"Ser um pai presente" não é uma tarefa que possa ser feita em um só dia
e depois riscada do checklist. Ela é uma orientação para todas as escolhas que
você fizer enquanto pai. Da mesma forma, "agir com integridade" não é
algo que se esgota em uma única ação. É um critério, escolhidos por nós mesmos,
para decidirmos se uma conduta nossa está correta sempre que ela gerar alguma
dúvida.
Essa distinção importantíssima tem uma consequência prática igualmente
relevante: metas podem não ser alcançadas ou gerar sensação de fracasso por não
terem sido cumpridas exatamente como queríamos. Já os valores, por serem diretrizes
de comportamento e não os alvos diretos das nossas ações, mostram-se mais
resistentes às dificuldades que a vida pode impor ao cumprimento dos nossos objetivos.
Posso não conseguir determinado emprego e ainda assim continuar agindo sempre com
dedicação e responsabilidade profissional. O valor sobrevive ao desmoronamento
de uma meta porque ele não depende do resultado concreto. Ele tem muito mais a
ver com a forma como tentamos chegar àquele resultado.
Valores declarados e valores praticados
Todos temos valores declarados, dizendo aos quatro ventos que
a família é importante, que valorizamos a honestidade, o conhecimento, a
liberdade. Em contrapartida, os valores efetivamente praticados são aqueles que
podem ser percebidos nas escolhas que fazemos no final das contas. Nem sempre o
que se diz é o que se pratica.
Uma pergunta que costuma produzir um silêncio bastante
fértil: imagine que as pessoas que você ama e respeita pudessem observar a sua
vida inteira, não apenas os momentos que você escolheria mostrar, mas também
todos os outros. O que gostaria que vissem? Que tipo de pessoa você desejaria
ter sido aos olhos delas? Não é uma pergunta sobre perfeição. É uma pergunta
sobre direção. Uma vida profundamente significativa pode ser composta
por atitudes, grandes ou pequenas, coerentes com o conjunto que queremos chamar
de “eu”.
Quando valores se tornam um peso
Também é possível transformar um discurso sobre determinados
valores nossos em mais uma forma de autocobrança. Alguém identifica que deseja
ser um filho cuidadoso ou um amigo confiável e, pouco depois, converte essas
direções em exigências absolutas: presença passa a significar jamais se
irritar; valorizar a amizade passa ser nunca dizer “não”... Nessa hora, o que
era para ser uma bússola se transformou num chicote. Valores não são padrões de
pureza, mas direções para as quais podemos retornar. Uma pessoa amorosa pode
perder a paciência; alguém comprometido pode falhar. A diferença está no que
fazemos depois: reconhecer o afastamento, reparar o dano quando possível, e retomar
as referências que continuarão guiando a nossa vida .
Mesmo com clareza sobre o que valorizamos, as decisões nem
sempre se tornam simples porque valores importantes podem implicar em várias
escolhas válidas, mas diferentes entre si. Podemos desejar segurança e
aventura, autonomia e pertencimento, dedicação ao trabalho e presença na vida
familiar. Algumas escolhas são difíceis justamente porque há algo importante
dos dois lados, e não existe vida sem renúncia. Os valores não oferecem
respostas automáticas e sim ajudam a formular perguntas melhores. Como também a
identificar quais consequências estamos mais dispostos a sustentar.
Valores em ação, um projeto que sempre pode ser revisto
Os valores ganham corpo quando inspiram comportamentos
concretos. A ACT denomina esse movimento de ação comprometida: comportamentos
escolhidos com base nos valores, adaptados às possibilidades reais de cada
momento. Não se trata de esperar a coragem perfeita ou a certeza completa, mas
de reconhecer o próximo passo possível dentro das condições existentes. Quando
a distância entre a vida atual e aquela que gostaríamos de construir parece
grande demais, a pergunta mais útil não é "como me transformarei tudo aquilo
que estabeleci ser?", mas "qual é o menor gesto que posso realizar
hoje na direção do que considero importante?" Esse gesto pode ser um
pedido de desculpas, um limite estabelecido, uma consulta médica marcada, ou
simplesmente a decisão de não abandonar novamente a si mesmo.
Uma das ideias mais generosas da ACT é a de que essas diretrizes
podem ser construídas e revisadas ao longo do tempo. O que ocupava o centro da
vida aos vinte anos talvez não tenha a mesma importância aos cinquenta — e isso
não significa que estávamos errados. Revisar valores não é abandoná-los diante
de qualquer dificuldade; é manter aberta a possibilidade de perguntar, com
honestidade, se a direção escolhida continua representando quem desejamos ser.
Talvez a ideia por trás dos valores não seja a manutenção de uma coerência
imóvel, mas a possibilidade de nos reorientarmos com flexibilidade.
Nem o valores pessoais, nem a ACT, prometem uma existência
sem sofrimento — e talvez nenhuma abordagem terapêutica honesta faça isso. Os
valores não eliminam a dor, mas podem ajudar a distinguir o sofrimento
inevitável de estar vivo daquele produzido por uma vida permanentemente adiada.
E uma vida guiada por valores talvez não seja aquela em que sabemos exatamente
para onde estamos indo o tempo todo. Pode ser simplesmente aquela em que, mesmo
depois de nos perdermos por algum tempo, ainda conseguimos reconhecer a direção
para a qual desejamos voltar.
E, a partir disso, escolhemos o próximo passo possível, não necessariamente perfeito, mas coerente com
a pessoa que, apesar de todas as nossas limitações, continuamos tentando ser.
Imagem de macrovector no Magnific no Creative Commons.



Comentários
Postar um comentário