DOUTOR, ACORDEI BEM MAS LOGO DEPOIS JÁ TAVA VIRADO. SERÁ QUE SOU BIPOLAR?
Essa é uma pergunta que escuto com bastante frequência no consultório. Às vezes vem com um olhar meio constrangido, como quem confessa algo embaraçoso, já quase se arrependendo de ter trazido o assunto ao seu médico. Outras, vem com medo de verdade.
É comum ser feita
quando o paciente passou por um episódio recente que, por sua vez, o remete à
lembrança de outras passagens semelhantes: começou a manhã animado, cheio de
energia, mas pouco depois veio uma raiva, uma irritação ou até mesmo um
desânimo que parecem ter surgido do nada. E então, na consulta de rotina, solta
a pergunta: “sou bipolar?”
A cena parece mesmo muito comum. Você sai de casa feliz para ir ao cinema com o namorado, mas já enquanto ele tenta parar o carro no estacionamento do shopping, você percebe que já ficou emburrada ou emburrado, com a cara fechada e respondendo de uma maneira meio seca, que ele percebe sem sequer precisar olhar para você. E aí, quando atina para isso, você se pergunta se é porque na verdade você queria fazer outro programa, porque teve uma semana ruim e agora que relaxou o cansaço “bateu”, se está revivendo de maneira inconsciente várias coisas do passado que não têm nada a ver com a situação presente, ou – então – a suspeita “diagnóstica”: será que é bipolaridade?
Bem, vamos começar
com uma verdade simples: oscilar emocionalmente, com uma certa
imprevisibilidade de quando isso vai acontecer, faz parte da condição humana.
Não fosse assim, seríamos como robôs, fazendo tudo sempre no mesmo tom e com respostas
programadas. E mesmo os chatbots que hoje simulam reações “emocionais” que,
até onde a gente saiba, na verdade são só parte do roteiro.
Estar no mundo, por
definição, nos afeta. Projetos empolgam. Frustrações irritam. Cansaço pesa.
Separações doem. Hormônios oscilam. Sonhos acendem esperança. E até um
estacionamento de shopping conseguiria, sim, apagar a alegria que havia saído de casa
preservada.
Boa parte das vezes,
o humor está simplesmente respondendo ao que acontece ao seu redor. Isso se chama “vida
real”. Essas variações existem, são normais (para quem gosta da palavra
“normal”) e não definem, por si só, uma doença mental. São parte da
existência.
Por essa razão, vale a pena conversarmos sobre o assunto com calma, em vez de sair imediatamente em busca de um nome técnico que defina cada mudança de humor. Até porque o que costuma estar por trás dessas oscilações cotidianas é muito mais variado — e muito mais comum — do que o transtorno bipolar. Não que ele não exista, mas antes é de bom-tom pensar em outras possibilidades mais corriqueiras. Compreendeu a minha proposta? :)
Boa parte das vezes,
o humor está simplesmente respondendo ao que acontece ao redor. Naquele
momento, você funciona como uma espécie de esponja emocional: absorve o metrô lotado,
o tom pouco amigável de quem o atendeu mal, a fila que não anda e aquela
mensagem atravessada no WhatsApp. Não é necessariamente o seu “termostato
interno” que quebrou; pode ser apenas o ambiente externo dando uma forçada. A
emoção, isso é fato, tende a perder força quando a situação passa ou quando
você consegue se reorganizar.
Há também quem sinta
tudo em alta intensidade e disponha de poucos recursos para se tranquilizar
depois que a emoção chega forte. Não se trata de um defeito moral, mas de um
modo de funcionamento que pode ser compreendido e trabalhado. Em terapia, a
pessoa pode aprender a reconhecer a mudança enquanto ela acontece (ou até um
pouco antes) e ampliar seu repertório para lidar com ela sem necessariamente
agir segundo o calor da emoção.
Outras vezes, não é
exatamente o presente que mudou: foi o passado que reapareceu. Uma frase
aparentemente inocente, um silêncio ou um tom de voz parecido com o de alguém
que machucou você antes podem despertar uma reação muito maior do que a
situação atual pareceria justificar. Sem perceber, emocionalmente você acabou
de viajar para o passado e reviver no agora o que sentiu lá e o ou a machucou.
Há ainda quem viva
em estado de alerta quase permanente: trabalho instável, relação tensa,
finanças no fio da navalha, noites mal dormidas. Nesse caso, o humor oscila
porque a própria vida não para de oscilar. Não é estranho que o corpo responda
a uma sucessão de pequenos incêndios com irritação, ansiedade ou exaustão
súbita.
Por fim, existe
aquela insatisfação de fundo, mais difícil de nomear, que algumas pessoas
carregam durante meses ou anos: um trabalho sem sentido, uma relação estagnada,
a sensação de estar vivendo “no automático”. Quando a vida como um todo parece
fora do lugar, qualquer grão de poeira pode parecer uma nuvem de areia, aquelas
de tempestade no deserto. Nesse caso, a irritação repentina talvez não seja o
problema central, mas o sinal de algo mais profundo que ainda não teve a
atenção que merecia.
Disfunção
tireoidiana, ciclo menstrual, perimenopausa, alterações da glândula suprarrenal ou no sistema nervoso central, doença autoimune, determinadas medicações, uso de substâncias e privação de
sono também podem interferir no humor. Cada uma dessas situações merece
investigação própria, sem que seja necessário — nem correto — já ir pulando diretamente
para hipótese de transtorno do humor bipolar.
Por outro lado, é
necessário ter bom senso: também não convém minimizar tudo dizendo que “é só a
vida”. Momentos de fúria, impulsividade ou descontrole podem ter muitas
origens, e nem todas são tão simples quanto irritar-se na ida ao cinema. Além das
causas já informadas acima, outras como estresse intenso e prolongado,
conflitos interpessoais recorrentes, dificuldade de adaptação a uma situação
nova, dificuldade de regulação emocional, TDAH, ansiedade, quadros depressivos e
determinados padrões de personalidade também podem produzir oscilações que, à
primeira vista, parecem bipolaridade e não são.
A psiquiatria é, em boa parte, uma ciência que requer – como posso dizer isso? – uma espécie de ajuste fino, buscado com paciência e ao mesmo tempo atenção a detalhes, precisão. É justamente por isso que o autodiagnóstico costuma errar o alvo: ele reconhece um sintoma, mas não consegue pesar, com distância e método, todas as explicações possíveis.
Quando o transtorno
bipolar de fato existe, também é importante falar dele com clareza, porque se
trata de uma condição séria, mas tratável.
O que costuma
diferenciá-lo das oscilações comuns não é a velocidade com que o
humor muda dentro do mesmo dia. Aliás, isoladamente, isso raramente é o elemento
principal. O transtorno bipolar envolve episódios mais sustentados, geralmente
de dias ou semanas, acompanhados por mudanças perceptíveis não apenas no humor,
mas também no nível de energia, na necessidade de sono, na velocidade da fala e
do pensamento, na autoestima, no grau de atividade e até mudanças importantes
no comportamento. Não se trata apenas de estar feliz, produtivo ou
particularmente animado numa terça-feira. Existe uma mudança mais ampla e
persistente em relação ao funcionamento habitual da pessoa.
Sem querer transformar essa conversa informal num tratado psiquiátrico:
o transtorno bipolar afeta hoje algo entre 0,5% e 1,5% da população, faixa
parecida no Brasil e no resto do mundo segundo as revisões mais recentes. O
diagnóstico, pelo DSM-5, separa o quadro entre Bipolar tipo I, exigindo episódios de
mania plena, e tipo II, requerendo hipomania e depressão. O tratamento de primeira
linha envolve estabilizadores de humor, muitas vezes somados a acompanhamento
psicoterapêutico, e costuma ser pensado como manejo contínuo, de longo prazo,
mais do que como uma cura pontual.
Como você pode perceber, isso não significa
necessariamente mudar de alegre para triste várias vezes ao dia, mas
experimentar sintomas aparentemente opostos se revezando em episódios de
duração razoável ao longo da vida (ou em alguns casos, até mesmo sendo
experimentados ao mesmo tempo), neste último caso chamados episódios com
características mistas. A própria expressão “ciclagem rápida”, diferentemente
do que sugere o senso comum, não significa mudar de humor a cada meia hora. Em
psiquiatria, refere-se à ocorrência de um número determinado de episódios de
humor alterado ao longo de um ano.
Desde o fator
chamado “vida” até um transtorno mental com características e critérios
diagnósticos bem estabelecidos, para tudo há possibilidade de tratamento. Às
vezes começa-se até mesmo a tratar os sintomas antes de se ter uma definição do
nome do transtorno. Pode levar tempo para o ou a psiquiatra “bater o martelo”
num diagnóstico, o que não significa que ele ou ela não possa intervir com medicamentos
e/ou outras medidas não farmacológicas. Na verdade, deve. O principal é
evitar sofrimento mental e prejuízos vida afora por causa dos sintomas que
atrapalham e incomodam.
Faço questão de
enfatizar: se você suspeita que existe algo além das oscilações comuns da vida,
procure uma avaliação profissional. Não para ganhar um rótulo, mas para
compreender o que está, de fato, acontecendo – e também o que não está.
Esse esclarecimento exige escuta clínica, coleta detalhada da história da pessoa e, muitas
vezes, observação ao longo do tempo. Nenhuma lista de sintomas lida às
pressas consegue substituir essa fórmula básica.
No fim, “sou
bipolar?” talvez não seja a pergunta mais importante. A pergunta mais útil pode
ser: eu estou vivendo com equilíbrio, funcionalidade e saúde?
Se a resposta for
não, isso já é motivo suficiente para procurar ajuda — com ou sem um nome que
explique tudo.
Crédito da imagem: gerada por IA a partir de prompt do autor.


Adorei!
ResponderExcluirObrigado amore!
ExcluirMARAVILHOSO! E de fácil compreensão!!! Amei!!!!!
ResponderExcluirAh Dedeia, obrigado pelo comentário.
ExcluirMuito bom. É sobre conseguirmos identificar os gatilhos e tornar consciente os sentimentos para vivermos melhor.
ResponderExcluirPor isso os psicólogos e psiquiatras são tão importantes na nossa vida 🥳
Obrigado, minha cardiologista preferida!
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