"E A CAUSA DA DEPRESSÃO VAI PARA...": A ORIGEM MULTIFATORIAL DESSE GRUPO DE TRANSTORNOS
Na prática clínica,
fico algumas vezes imaginando se a palavra “depressão” não seria mais bem
explicada se grafada no plural: “depressões”.
Por um lado, porque
pessoas que compartilham o mesmo diagnóstico podem apresentar quadros tão
diferentes que, à primeira vista, parece difícil colocá-los sob uma mesma
categoria. Em algumas, por assim dizer mais “clássicas”, predominam a tristeza,
a desesperança, a culpa, o vazio e a perda de energia. Em outras, chamam mais a
atenção a incapacidade de sentir prazer, a irritabilidade, a ansiedade, o sono
excessivo ou insuficiente, as alterações do apetite, a fadiga, o isolamento, as
dores no corpo ou uma espécie de névoa que torna até as decisões mais simples
um esforço desproporcional.
Existem, naturalmente,
classificações e especificadores que procuram organizar essa diversidade:
transtorno depressivo maior, transtorno depressivo persistente — antes chamado
de distimia —, episódios com características melancólicas ou atípicas e episódios
depressivos que ocorrem no contexto do transtorno bipolar, entre outras
possibilidades. Ainda assim, mesmo pessoas enquadradas numa mesma categoria
diagnóstica podem viver experiências muito diferentes. E externalizá-las de uma
maneira muito diferente também.
Embora seja importante
chamar a atenção para essa heterogeneidade dos sinais e sintomas depressivos,
não é exatamente a ela que gostaria de dedicar o post que você está me
dando a honra de ler nesse exato momento.
A palavra depressão
também parece chamar facilmente o seu plural quando pensamos em sua etiologia.
Em medicina e nas ciências da saúde, etiologia é o estudo das causas,
dos mecanismos e das condições que participam do surgimento de uma doença ou de
um transtorno. E, no caso da depressão, quase nunca encontramos uma origem
única, limpa e isolável.
Entre os fatores que
aparecem na literatura e nas histórias colhidas em consultório estão características
de temperamento congênitas, vivências ocorridas muito cedo, traumas, pessoas
com quem convivemos, tarefas extenuantes e percebidos como pouco valorizados, dor,
privação de sono, envelhecimento em meio às mais diferentes formas de carência
e uma quase infinidade de variáveis.
Honestamente, diante
de uma lista assim, fica difícil resistir a falar em “depressões”, no plural
mesmo. O que complica a escolha de qual nominado ganhará o prêmio da academia.
O prêmio compartilhado
A cerimônia funciona
assim: há vários candidatos a vencer em determinada categoria e, ao final,
apenas um deve subir ao palco. No imaginário popular, a depressão costuma ser
explicada de maneira parecida: sempre existiria uma causa principal, um
vencedor único, uma resposta capaz de “fechar” o caso. E então “a causa da
minha depressão vai para...” a genética? A infância? O casamento que terminou? O
trabalho que me consome? Os hormônios? O meu cérebro? A solidão?
Na vida real, muito
provavelmente nenhum desses indicados suba sozinho ao palco. Talvez dividam a
estatueta, espremidos diante do mesmo microfone, cada um reconhecendo uma
parcela da obra.
A realidade clínica
raramente é organizada como uma investigação policial, com um único culpado desmascarado
no final. O que encontro é uma espécie de coautoria entre fatores: uma
predisposição biológica que permaneceu silenciosa até ser despertada por uma
perda; uma infância difícil que vinha sendo razoavelmente elaborada até a ocorrência
de um trauma que consumiu os últimos recursos emocionais disponíveis; um corpo
adoecido cronicamente que começou a cobrar o que a pessoa havia tentado ignorar
até ali.
As causas, quando
conseguimos identificá-las, quase sempre chegam em bando e nem sempre portando
um crachá.
O lugar da
fogueira, a faísca e o combustível
Uma forma didática de
compreender essa multiplicidade é distinguir fatores predisponentes,
precipitantes e perpetuadores. A divisão não é perfeita, mas ajuda a organizar
a conversa.
Os fatores
predisponentes compõem o terreno sobre o qual uma depressão pode se
desenvolver. Incluem aspectos genéticos, temperamento, experiências precoces,
traumas, modos aprendidos de lidar com as emoções, condições clínicas e outros
elementos capazes de aumentar a vulnerabilidade de alguém. Vulnerabilidade,
porém, não garante o destino. A carga genética e um desenvolvimento conturbado preveem
a depressão de forma tão falha quanto um lar amoroso e poucas dificuldades da
vida a excluem. Ninguém está nem totalmente imune nem inexoravelmente condenado
ao sofrimento psíquico.
Os fatores
precipitantes seriam a faísca: acontecimentos que antecedem mais diretamente o
início ou a piora do episódio de depressaõ: perdas, separações, conflitos,
violência, adoecimento, mudanças, o nascimento de um filho, a aposentadoria,
dificuldades financeiras, sobrecarga profissional ou algo que exija um período intenso
de adaptação.
Aqui, também, uma
situação aparentemente pequena para quem olha de fora pode atingir um ponto
extremamente sensível na história de alguém, assim como, no sentido contrário, uma
pessoa pode atravessar um evento de vida devastador sem entrar em depressão. Não
que uma seja a forte e a outra, a fraca. Significa apenas que acontecimentos
semelhantes reverberam de modo diferente em pessoas com momentos, histórias de
vida, recursos internos e redes de apoio igualmente diferentes.
Por fim, há os fatores
perpetuadores: aqueles que ajudam a manter o episódio depois que ele já
começou. O combustível que parece queimar para sempre uma vez iniciada a
combustão. O isolamento, por exemplo, pode ser consequência da depressão,
porque ela implicou o afastamento de alguém do mundo das outras pessoas. Aquilo
que começou como sintoma passa a retroalimentar o próprio transtorno. É por
isso que aqueles conselhos que, cheias de vontade ajudar, algumas pessoas dão
ao deprimido (“você precisa reagir”, “é só sair de casa” ou “tente pensar
positivo”) costumam ser inúteis. Aquilo que parece simples para quem está do
lado de fora é muitas vezes justamente o que o transtorno tornou ainda mais
difícil fazer.
Em algumas depressões,
já me permitindo assumir o plural, um fator específico poderá ter peso quase
protagonista. Em outras, o processo parecerá resultar de um desgaste
progressivo e quase invisível: pequenas renúncias repetidas, frustrações
acumuladas, relações pouco nutritivas, falta de descanso, perda gradual de
propósito, envelhecimento não saudável ou a sensação de viver uma vida que já
não parece pertencer à própria pessoa. Nem sempre haverá necessariamente uma explosão,
mas uma erosão.
E por fim pode haver
casos nos quais não se consegue apontar nenhum acontecimento evidente Depressões
não exigem uma história trágica como comprovante de legitimidade.
Alguém para culpar
Pacientes muitas vezes
vêm à consulta tentando fazer uma espécie de investigação criminal da própria
história. Ela ficou “daquele jeito” por causa da mãe, do ex-marido, do emprego
que ela detesta, do avô que passou “aquilo” para o pai que depois passou para os
filho? É legítimo perguntar(-se) na tentativa de compreender o que aconteceu,
tentando-se encontrar sentido para a experiência, diminuir a culpa e orientar o
tratamento. O problema só se dá quando acreditamos que a melhora só é possível depois
de identificar uma causa única, definitiva e irrefutável.
É que a lógica da
causa única subentende a procura de um réu — e o réu mais próximo pode acabar
sendo o próprio paciente: “fui fraco”, “deixei a coisa chegar a esse ponto.” O
olhar multifatorial pode fazer o oposto, mostrando que o sofrimento resultou de
uma confluência de forças, muitas delas fora do controle individual. Daí, o
protagonismo no processo de recuperação surge de um lugar mais honesto, não contaminado
pela fantasia inútil de que adoecer foi uma escolha pessoal.
Da mesma forma, é necessário
cuidado para não olhar para a causa das depressões da maneira oposta, nomeando
um sem-fim de culpados. Compreender que uma possível interferência do outro não
isenta a responsabilidade pessoal daquele que se vitimiza traz a discussão para
o mundo real e descortina um horizonte de possibilidades cuja realização não
dependem mais de quem causou o sofrimento, mas de quem assume a batalha contra
ele.
A culpa é da
química?
Essa é uma pergunta
que, não fosse o sofrimento real provocado pelas depressões, eu até me
divertiria bastante em responder. Em algum momento popularizou-se a tese de que
a depressão (no singular) seria causada por um “desequilíbrio bioquímico” no
cérebro, traduzido como pouca disponibilidade de um neurotransmissor chamado
serotonina. Essa ideia teve algum valor ao afastar a depressão do campo da
fraqueza de espírito: se havia uma dimensão biológica, o paciente não estava
simplesmente escolhendo sentir-se daquele modo. Menos ainda fingindo.
Mas hoje se sabe que o
sistema nervoso não funciona de uma maneira tão linear assim.
Neurotransmissores participam, de fato, de processos relacionados ao humor, ao
sono, à motivação, ao apetite, à ansiedade e a muitas outras funções. Mas as depressões
não são redutíveis à deficiência isolada de uma única molécula. Os
antidepressivos funcionam sim, sejam monoaminérgicos (melhoram a disponibilidade
de um neurotransmissor específico) ou duais, multimodais etc. A biologia está
presente, mas ela própria é influenciada pela experiência. E, em resposta, a
experiência pode “mudar” a biologia, fazendo com que elas se retroalimentem. Se
você pensou agora em multifatorialidade, acertou. Psicoterapia, aprendizagem e mudanças pessoais
e ambientais também elicitam transformações biológicas, porque tudo o que
vivemos é processado por um só organismo vivo, em que o biológico e o
psicológico não são dimensões separadas. São partes indissociáveis de um só ser.
A mesma palavra,
soluções diferentes
Se existem depressões e
combinações causais diferentes, parece lógico que o tratamento não seja o mesmo
para todos. Para alguns, intervenções farmacológicas terão papel central. Para
outras, conflitos relacionais, traumas, luto, isolamento, sobrecarga ou
determinados padrões psicológicos exigirão especial atenção. Isso quando não
for necessária uma combinação de estratégias.
Reconhecer a
complexidade das causas permite construir um tratamento mais coerente com a consequência
sentida.
Os antidepressivos, que
podem ser tão diferenciáveis uns dos outros quanto as próprias causas das
depressões, podem ajudar a recuperar energia e flexibilidade para reorganizar a
rotina e aproveitar melhor a psicoterapia. A psicoterapia pode ajudar a reexaminar
experiências dolorosas vividas, reconhecer padrões que favorecem recaídas e
construir outras formas de se relacionar consigo e com os demais, até mesmo de
se convencer a aderir à medicação.
Não podemos apagar
nossas histórias e reescrevê-las do zero, voltar ao passado, como nos filmes de
ficção científica, para impedir a ocorrência de uma perda que acabou mudando o
nosso destino para pior, ou mesmo substituir os genes que herdamos. Mas podemos
transformar a maneira como permitimos que certas experiências continuem
presentes, ampliar recursos para enfrentar suas sequelas, tratar doenças
associadas, construir vínculos mais seguros e reduzir condicionante que só
fazem perpetuar o sofrimento.
Quem então leva a
estatueta?
Ao final dessa cerimônia
um tanto cansativa, talvez o apresentador abra o envelope, faça mistério por
alguns segundos e anuncie:
“E a causa da depressão vai
para... uma combinação singular de fatores biológicos, psicológicos, sociais e
circunstanciais, cuja importância varia de pessoa para pessoa e até entre
diferentes episódios vividos pela mesma pessoa.”
Não é uma frase que caberia
facilmente em um envelope dourado a ser aberto numa noite de gala, mas é
provavelmente a resposta mais próxima da realidade que consigo oferecer.
Sejam poucos, sejam
muitos os protagonistas, isso não impede o tratamento. Não precisamos
compreender perfeitamente a origem de um incêndio antes de começar a apagá-lo.
Mas conhecer o que alimenta as chamas certamente ajuda a escolher as próximas
estratégias para extingui-las por completo.
Pensarmos em
“depressões”, no plural, pode ajudar a não fragmentarmos ainda mais quem já
está sofrendo e a evitarmos que histórias profundamente diferentes sejam
comprimidas dentro de uma explicação única. O diagnóstico pode até ser o mesmo,
mas cada pessoa que o recebe, o que a trouxe até ele e qual o caminho de volta jamais
serão.
Imagem gerada por IA a partir de prompt do
autor.



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