RELACIONAMENTOS ABUSIVOS, GASLIGHTING, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E OUTRAS COISAS QUE NOS REBAIXAM


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O assunto de hoje é pesado. Mesmo assim, preciso introduzi-lo a partir da imagem de uma brincadeira muito comum em gincanas e festas: o limbo, que muita gente da minha geração passou a chamar de Dança da Cordinha depois do sucesso da música do É o Tchan, em 1996.

Uma barra ou corda é mantida na horizontal e vai sendo baixada a cada rodada. O desafio é inclinar o corpo para trás e passar por baixo dela sem cair. A música toca, a turma ri, e a barra continua descendo.

Essa metáfora me veio à cabeça porque se parece muito com algo que escuto no consultório com uma frequência que nunca deixa de me afligir: a experiência de viver dentro de um relacionamento (amoroso, familiar, profissional ou qualquer outro) que vai rebaixando, pouco a pouco, o limite do que você aceita, do tratamento que acredita merecer e, por fim, da própria imagem que passa a fazer de si mesmo.

A cada rodada, você se curva um pouco mais. A nova posição vai se transformando no “novo normal”. Até que, no sentido figura, você já se abaixou tanto que mal consegue se lembrar de como era ficar de pé.

Não estou usando essa metáfora de forma leviana. O que ela descreve é algo extremamente sombrio: um processo gradual, muitas vezes difícil de perceber por quem está dentro dele, por meio do qual uma pessoa pode ir sendo psicologicamente desmontada sem necessariamente carregar qualquer marca visível no corpo.

Raramente começa já com um tombo

Uma das ideias equivocadas mais persistentes sobre os relacionamentos abusivos é a de que eles sempre começam com uma crueldade evidente. Em geral, não é assim. Ao contrário, o que costuma aparecer primeiro é algo facilmente confundido com intensidade: um parceiro que quer passar todos os minutos possíveis ao seu lado, que te liga sem parar, precisa saber onde você está e justifica e tudo isso como amor, dedicação ou prova de que ninguém no mundo é mais importante para ele do que você.

O controle se apresenta como cuidado e a possessividade entra fantasiada de paixão.  Isso importa muito porque envolver-se numa relação assim não são pessoas que possam ser identificadas como tolas, ingênuas ou desprovidas de autoconhecimento. Elas podem simplesmente estar respondendo a algo que, no início, parece genuinamente como amor.

Os comportamentos que mais tarde se tornarão sufocantes podem, no começo, parecer carinho. “Ele era tão atencioso comigo”, “ela me fazia sentir a pessoa mais importante do mundo”.

E talvez isso possa ter se mantido como verdade por algum tempo. Até que o afeto começasse a vir acompanhado de uma lista crescente de exigências, até a atenção virar vigilância, o cuidado se transtornar em controle e o carinho dependente de uma demonstração de obediência.

No jogo, a barra sempre começa numa altura confortável. Quase ninguém entraria na brincadeira se ela exigisse arrastar-se no chão já na primeira rodada.

Como alguém vai sendo diminuído

O abuso — e estou usando a palavra em sentido amplo, porque o dano vai muito além da violência física — costuma se construir por pequenos pontos que vão se acumulando: um dia, vem aquele primeiro comentário sobre a maneira como a pessoa se veste. Então se segue uma piada sobre a pessoa na frente de todo mundo, um olhar de certo desprezo quando ela expressa uma opinião própria, um silêncio que comunica desaprovação sem explicar o motivo na hora. Gesto após gesto, decisões que competiam apenas à pessoa que já está sendo diminuída começam a ser tomadas no lugar delas. E as suas antigas amizades, é claro, passam a ser alvo de críticas ou consideradas ameaça. E a lista continua.

Vistos separadamente, alguns desses pontos poderiam ser relativizados, racionalizados ou simplesmente deixados para lá. Quando se repetem e começam a se combinar, porém, tornam nítido algo mais estrutural: eles passaram a mudar a forma como a pessoa se enxerga.

É disso que estou falando quando digo a um paciente que determinado relacionamento foi, aos poucos, fazendo com que ele se sentisse menor. Nem sempre por um episódio óbvio ou escancarado, mas por pequenas intervenções que foram sendo acrescentadas umas às outras no dia a dia até culminar no autoquestionamento do espaço que a pessoa se sente autorizada a ocupar dentro da relação, na dúvida se vale a pena externar uma opinião e na sensação de que suas necessidades próprias talvez sejam mesmo ilegítimas.

A pessoa começa a duvidar se o desconforto que sente é um sinal realmente importante ou apenas “mimimi”; se não está sendo sentimental demais, exigente demais, difícil demais, ingrata demais. Ou, pior, se ela é realmente alguém tão autossuficiente quanto imaginava..

Uma expressão aplicável a esse contexto é a erosão do eu. Aos poucos, vai se desgastando a confiança da pessoa em seu próprio valor, em sua capacidade de julgamento, em suas percepções e até no direito de existir como alguém independente do outro.

Isso pode acontecer em relações amorosas, mas também entre pais e filhos, irmãos, amigos, sócios, líderes religiosos e fiéis, vizinhos de condomínio, empregadores e empregados.. O fio condutor não é um tipo específico de relacionamento, e sim uma dinâmica: a ideia que a pessoa tem de si mesma vai sendo sistematicamente enfraquecida pela outra.

Por que as pessoas permanecem na relação — e por que essa pergunta apenas bate na trave

Uma das perguntas mais inadequadas que se pode fazer a alguém envolvido num relacionamento abusivo é “por que você ainda não saiu dessa relação?”. Pode até soar como uma preocupação sincera, mas pode funcionar também como uma forma de culpabilizar a pessoa pelo seu próprio sofrimento. Revela também que quem pergunta talvez não compreenda muito bem o que um processo sistemático e prolongado de diminuição do outro pode provocar.

Na faculdade, tive a oportunidade de cursar uma disciplina com uma professora que realizava na época uma pesquisa sobre um problema ao mesmo tempo instigante e perturbador: como a violência doméstica conseguia se instalar e se manter até mesmo na vida de mulheres financeiramente independentes, inteligentes e com formação universitária ou pós-graduação? Eu até intuía que isso não fosse algo tão raro de acontecer. Ainda assim, o tamanho estimado da população pesquisada e, principalmente, a gravidade da violência que muitas delas haviam sofrido eram alarmantes.

Quando um relacionamento se torna claramente prejudicial, a pessoa que vive dentro dele talvez já não disponha dos mesmos recursos internos de antes para enxergar com clareza a situação em que se encontra. Sua autoestima pode ter sido rebaixada de forma tão lenta e eficaz que abandonar a relação passa a soar quase como um atrevimento em vez de um resgate de si mesma, e, quando houver, dos seus filhos: “quem eu penso que sou para achar que mereço coisa melhor?”.

Suas percepções podem ter sido atacadas tantas vezes e por tanto tempo que ela já não confia completamente no que vê, ouve ou sente. Também pode ter sido afastada, pouco a pouco, de amigos, parentes ou colegas que pudessem lembrá-la quem ela era antes de começar a se curvar.

E ainda existem dificuldades bem concretas a considerar: dependência financeira, filhos, moradia, por vezes uma situação migratória, sensação psicológica de incapacidade, pressão social, expectativas religiosas, medo de retaliação e vergonha ou tristeza em ter de admitir que o relacionamento que um dia pareceu ser outra coisa, na verdade não existe.

Na minha experiência clínica, homens também procuram ajuda por estarem vivendo situações abusivas, tanto em relacionamentos heterossexuais quanto homoafetivos. Porém, entre os pacientes que me relatam esse tipo de experiência, as mulheres costumam ser maioria. Faço questão de esclarecer que essa é uma observação baseada na minha prática, e não uma conclusão que possa ser automaticamente generalizada.

O que me chama particularmente a atenção é que muitas pacientes que falam com bastante abertura sobre aspectos extremamente íntimos da própria vida podem levar semanas, às vezes meses, para mencionar a violência doméstica. Em tais casos, esse assunto costuma vir à tona de forma muito mais lenta e cautelosa do que o assédio no trabalho ou outras questões dolorosas.

Não sei em que medida isso corresponde a um padrão mais amplo ou reflete apenas as características das pessoas que chegaram até mim. Eu confesso que ficaria aliviado se estivesse enganado; mas caso exista qualquer fundamento nessa percepção, talvez ela reforce algo que já tememos que aconteça na narrativa feminina: por terem enfrentado historicamente desvantagens estruturais gravíssimas (desigualdade econômica, expectativas rígidas de gênero, maior responsabilidade pelos filhos e maior vulnerabilidade a qualquer tipo de vingança), muitas podem ter ainda mais razões para calcular meticulosamente o que vão contar, a quem e em qual momento o farão, mesmo diante de um profissional que, ao menos em tese, estaria habilitado a ajudá-las.

Durante um período considerável, sair do relacionamento parece simplesmente não ser uma opção viável. Existe ainda outro elemento nesse cálculo, muitas vezes difícil de alguém que está de fora enxergar: deixar a pessoa abusiva nem sempre garante sua segurança imediata. Em relações marcadas por controle, ameaças, perseguição ou violência física, a separação pode ser vivida pelo agressor como uma perda de poder e provocar retaliação ou uma escalada ainda maior da violência.

Para algumas pessoas, resumindo, a questão não é apenas se devem sair, mas como, quando e com quais condições de proteção. Isso não significa que permanecer seja mais seguro a longo prazo, muito menos que se trate de um argumento contra a separação. Significa apenas que romper com a relação pode precisar ser encarado como um processo, com planejamento, apoio de pessoas de confiança e, quando necessário, acompanhamento por serviços especializados e amparo legal.

Aquilo que, visto de fora, pode parecer indecisão ou acomodação é possível que se trate, na verdade, de uma tentativa de sobreviver a um dos momentos mais perigosos de toda a sua um trajetória. O plano para escapar quase nunca é tão simples quanto parece. As pessoas que, mesmo já tendo plena consciência da situação em que encontram, diferente daquelas sobre as quais comentei no terceiro e no quarto parágrafos dessa sessão, não permanecem em relacionamentos abusivos porque sejam fracas. Podem permanecer porque a própria dinâmica da relação tornou a ruptura parecer perigosa ou impossível.

Ou porque aquela parte delas que um dia teria exigido algo melhor para si foi, pouco a pouco, convencida a desistir.

O ciclo da violência de Lenore Walker

Outro referencial que ajuda a entender esse processo e que considero bastante útil no trabalho de psicoeducação, é o chamado ciclo da violência, descrito pela psicóloga Lenore Walker no final da década de 1970. Em sua formulação original, o modelo tinha três momentos: uma fase de tensão crescente, um episódio agudo de violência e uma fase de reconciliação, também conhecida como “lua de mel”. Algumas versões posteriores separam ainda um quarto período, de relativa calmaria, antes que a tensão voltasse a aumentar.

Na fase de acúmulo de tensão, o ambiente vai ficando cada vez mais carregado. A pessoa que sofre o abuso pode começar a pisar em ovos, escolhendo com extremo cuidado as palavras, os gestos e os comportamentos como tentativa de evitar aquilo que teme que aconteça. Em seguida, ocorre o episódio de violência, que pode ser física, sexual, verbal, psicológica ou assumir mais de uma dessas formas ao mesmo tempo. Por fim, a pessoa abusiva pode pedir desculpas, demonstrar remorso, oferecer carinho, fazer promessas, minimizar o que aconteceu ou simplesmente se comportar como se tudo tivesse voltado ao normal.

Embora lúcido e valioso, o modelo de Walker talvez não represente todas as relações abusivas, principalmente ao falar em “episódio de violência”, no singular, sem comentar aquele processo de acúmulo de pequenas agressões que vão se somando, quase imperceptíveis, no dia a dia. Ela enfatiza o momento em que essa violência se torna escancarada, num episódio “agudo” de agressão ou ameça.

E em algumas relações abusivas, pode até ser que não exista uma fase de “lua de mel” claramente reconhecível, exceto no começo de tudo, quando o abusador, arrependido, tenta disfarçar seu modus operandi com explicações de que tudo o que começa a extrapolar o bom-senso são gestos de preocupação, carinho e dedicação. Mas quando a reconciliação ocorre, entretanto, ela merece atenção especial por aquilo que produz emocionalmente: pode reacender os sentimentos (desejos e expectativas) que fizeram a pessoa entrar e permanecer na relação.

A pessoa por quem ela se apaixonou parece estar de volta, pelo menos por algum tempo. O carinho e o remorso podem parecer sinceros para quem os recebe e talvez até sejam sinceros, naquele momento, da parte de quem os demonstra. Mas a sinceridade momentânea não produz necessariamente uma mudança duradoura, nem apaga o padrão a que aquele relacionamento já havia chegado.

É também por essa razão que a pergunta “por que você simplesmente não foi embora?” falha tantas vezes. Na fase de reconciliação, sair pode significar abandonar alguém que, mais uma vez, parece ser a pessoa amada. Alguém que aparenta estar assustado com o próprio comportamento, determinado a mudar e precisando de apenas mais uma oportunidade.

Quando esse padrão está presente, a relação não se sustenta somente pelo medo. Sustenta-se também pelo apego, pelo alívio, pelo afeto renovado e pela esperança. E a esperança, sobretudo quando é repetidamente reacesa, pode se tornar uma das forças mais poderosas que mantêm alguém dentro do ciclo.

O que, afinal, chamamos de abuso?

Vale repetir isso sem rodeios: abuso não é apenas aquilo que deixa marcas visíveis no corpo. Padrões persistentes de humilhação, intimidação, manipulação, invalidação, isolamento, vigilância, restrição ou exploração financeira e controle podem ser profundamente destrutivos. Seus efeitos são mais difíceis de demonstrar, mas não menos concretos ou verdadeiros.

Quando observados isoladamente, alguns desses atos até podem parecer menos graves do que realmente são. O poder deles está no sistema que formam quando passam a funcionar em conjunto. É o que se costuma chamar, em determinados contextos, de controle coercitivo: não necessariamente um grande ato isolado, mas uma rede de restrições, ameaças, vigilância e punições que vai reduzindo a autonomia da pessoa e estreitando cada vez mais o espaço em que ela pode existir.

Talvez ela nunca tenha sido agredida fisicamente. Ainda assim, pode ter passado anos ouvindo que seus sentimentos são irracionais, suas lembranças não são confiáveis, suas percepções estão erradas, suas necessidades são inconvenientes e seu valor está baseado na obediência ao abusador. Isso é dano sim e precisa ser reconhecido.

Entender esses acontecimentos como formas de violência não significa ir inflando aos poucos a definição de abuso para considerar como tal qualquer situação desagradável que possa acontecer na vida de um casal ou entre as partes de qualquer outro tipo de relação. Um conflito não é necessariamente, abuso, assim como uma discordância pontual também não é. Nem toda discussão, por mais mal-conduzida que seja, pode configurar uma relação abusiva.

A diferença está no padrão: no uso persistente do poder, do medo, da degradação, da manipulação e do controle para reduzir a liberdade de outra pessoa e minar, progressivamente, a percepção que ela tem de si mesma.

Gaslighting: o roubo da própria realidade

Um mecanismo merece atenção especial por ser, ao mesmo tempo, comum e psicologicamente desorientador: o gaslighting.

O termo vem da peça Gas Light, escrita por Patrick Hamilton em 1938 e posteriormente adaptada para o cinema. Na história, um homem manipula deliberadamente o ambiente ao redor da esposa e nega aquilo que ela percebe, com o objetivo de fazê-la duvidar da própria sanidade.

Atualmente, chamamos de gaslighting um padrão repetido de desestabilização da confiança de outra pessoa em sua memória, em suas percepções, em seus sentimentos e na própria compreensão da realidade: “isso que você está dizendo nunca aconteceu”; “você só está chorando para chamar a atenção”; “você exagera em tudo”; “eu jamais te disse isso”; “você está imaginando coisas”; “você é louca”.

Cada pessoa até pode se lembrar de acontecimentos de maneiras diferentes. Algumas podem até ficar na defensiva, mentir ou se recusar a admitir aquilo que fizeram. Mas o gaslighting é mais sistemático. Nele, uma pessoa passa repetidamente a se colocar como autoridade sobre o que é ou não real, enquanto apresenta as percepções da outra como defeituosas e indignas de confiança.

Quando isso acontece vezes suficientes, principalmente quando parte de alguém cuja opinião tem grande peso, o efeito pode ser devastador. O problema vai sendo transferido da relação para a pessoa que está sofrendo o dano.

A questão deixa de ser aquilo que estão fazendo com ela e passa a ser sua suposta incapacidade de compreender corretamente o que estão fazendo. Quando essa inversão se consolida, a pessoa pode perder a confiança justamente naquela capacidade que poderia ajudá-la a reconhecer o perigo e buscar uma saída: seu próprio julgamento.

É por isso que a recuperação de uma relação abusiva frequentemente exige a reconstrução da relação com a própria realidade. É preciso reaprender a confiar no que viu, ouviu, sentiu e no que se recorda. E reconhecer que algo realmente aconteceu.

O que sobra no final

As pessoas que passaram muito tempo em relacionamentos que as diminuíram saem carregando algo que, no início, nem sempre conseguiam nomear. Não é apenas tristeza, embora ela pudesse estar presente; nem apenas raiva, ainda que a raiva muitas vezes apareça em algum momento.

É mais como uma relação delas consigo mesmas que mudou completamente. Pode ficar uma incerteza constante sobre o próprio valor, uma hesitação antes de expressar opiniões, dificuldade para reconhecer as próprias necessidades e medo de tomar decisões sem a aprovação de alguém. Depois de sair da relação abusiva, a pessoa pode se sentir desconfortável diante de uma gentileza recebida, sentir-se desconfiada quando é tratada com respeito ou acreditar que ocupar espaço, estabelecer limites e pedir consideração não sejam atitudes comuns e saudáveis, mas excessivas.

Vejo isso acontecer claramente em pacientes que relatam uma infância difícil e até traumática, com pais autoritários, ou que foram submetidas por muitos anos a situações prolongadas que consistentemente a humilhavam, calavam ou diminuíam de alguma forma, como por exemplo um emprego onde permaneceram por mais tempo que gostariam. É quando as marcas do abuso e da violência se tornaram cicatrizes profundas.

Algumas pessoas saem dessas relações com sintomas de depressão, ansiedade, vergonha ou trauma. Podem ter dificuldade para confiar novamente ou ficar altamente alertas a qualquer indício de que o antigo padrão esteja voltando.

Existe ainda uma forma particularmente dolorosa de vergonha: não a vergonha pelo que lhes fizeram, mas por terem sido “o tipo de pessoa” com quem aquilo poderia acontecer. Essa crença precisa ser confrontada porque talvez represente a sombra mais longa deixada pela relação: a voz de quem as diminuiu, agora instalada dentro da própria cabeça, e sem pagar aluguel.

Recuperar-se costuma envolver o trabalho lento e exigente de reconhecer essa voz, questionar sua autoridade, reconstruir a confiança nas próprias percepções e refazer uma ideia de si que já não esteja organizada em torno do julgamento de outra pessoa. A recuperação não depende apenas da passagem do tempo ou da distância física. A distância pode ser essencial, mas não apaga automaticamente tudo o que foi internalizado.

Pode envolver também um processo de luto: não pelo relacionamento que terminou, mas por tudo aquilo que a pessoa acreditou que ele ainda poderia vir a ser.

Uma última palavrinha sobre a barra

Há algo na metáfora do limbo a que quero voltar antes de encerrar o post de hoje. No jogo, existe sempre um momento sutil, fácil de não perceber, em que a barra deixa de ser apenas desafiadora e se torna praticamente impossível. Permanecer na brincadeira passa a exigir contorções que o corpo não foi feito para sustentar.

Na versão da vida real, o mais impressionante é quanto tempo uma pessoa pode continuar se dobrando antes de reconhecer que aquele limite já foi ultrapassado. A barra ficou tão baixa por tanto tempo que ela se esqueceu, simbolicamente, ficar em pé.

Uma das coisas que uma psicoterapia eficaz pode fazer, assim como uma relação saudável, uma amizade verdadeira ou simplesmente alguém capaz de enxergar o que está acontecendo e chamar as coisas pelo nome certo, é oferecer outro ponto de referência.

Reconhecer isso pode levar tempo. Mas é nesse reconhecimento, mesmo ainda de forma insegura, que as coisas podem começam a mudar. A pergunta “até onde a barra pode descer?” só tem poder enquanto parecer que a única opção é continuar se diminuindo.

Mas não é.


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Para saber mais:

·       Instituto Maria da Penha — Tipos de violência
·       Instituto Maria da Penha — Ciclo da violência
·       Senado Federal — Guia Prático da Lei Maria da Penha
·       Robin Stern, O efeito gaslight. Alta Life, 2023
·       Judith Herman, Trauma e recuperação. nVersos Editora, 2025







                                         Imagem gerada por IA com o ChatGPT, a partir de prompt do autor. 

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