"AH, SE PUDÉSSEMOS VER A NÓS MESMOS COMO OS OUTROS NOS VEEM!" QUANDO TENTAMOS DESCOBRIR QUEM SOMOS PELOS OLHOS DOS OUTROS

Robert Burns (1759–1796), tido como o principal poeta da Escócia e conhecido em todo o mundo como o autor de Auld Lang Syne, tinha um talento especial para transformar acontecimentos banais em descrições profundas sobre a natureza humana. Em 1786, foi exatamente isso que ele conseguiu fazer através de um poema sobre uma mulher sentada na igreja, enquanto um piolho avançava pela gaze e pelas rendas do seu pomposo chapéu da época: perfeitamente altiva, completamente alheia ao que estava acontecendo, a personificação da autoconfiança enquanto os demais presentes a observavam com um estranhamento e um certo horror mal disfarçados. "O wad some Power the giftie gie us / To see oursels as ithers see us", escreveu em um dialeto escocês que impede que a gente preserve por completo suas nuances na tradução para o português, mas mantenha intocado o seu significado: "Ah, se algum poder nos concedesse o dom de nos vermos como os outros nos veem." Burns pretendia fazer humor, esvaziar a vaidade das pessoas, lembrar que atravessamos o mundo carregando enormes pontos cegos sobre a visão que fazemos de nós mesmos e que a distância entre a autoimagem e a que projetamos costuma ser maior do que gostaríamos de admitir, mas que, de certa maneira, pode ser bem interessante.

Essa distância, porém, não é apenas cômica. Pode ser significativa clinicamente e atravessa, de uma forma ou de outra, grande parte das questões que trazem as pessoas à psicoterapia. No fim das contas, há poucos assuntos que nos fascinem mais do que nós mesmos. Quando olhamos pela primeira vez uma foto recém-tirada, é para a nossa própria imagem que dirigimos a atenção antes de qualquer outro elemento da foto. Podemos até fingir que não: falamos de trabalho, política, filmes, filosofia do dia a dia, de como o café está caro. Entretanto, no subtexto dessas conversas, existe uma pergunta silenciosa: o que as pessoas pensam de mim? Me acham inteligente? Difícil? Gentil? Entediante? Exagerado? Insuficiente? Nenhuma das anteriores?

A maioria de nós gostaria de acreditar que possui uma imagem o mais precisa possível de quem somos. Afinal, convivemos conosco mesmos há décadas. Sabemos quais são as nossas intenções, os nossos conflitos particulares, as razões das nossas escolhas e aqueles pensamentos que decidimos não falar em voz alta. Pela lógica, se alguém estiver qualificado para nos descrever, esse alguém deveria ser nós mesmos, certo?

E ainda assim somos, em alguns aspectos, justamente as pessoas menos preparadas para enxergar a nós mesmos com clareza. Vemos o mundo pelos nossos próprios olhos, mas não podemos girá-los como as lentes de uma câmera e adotar a perspectiva de quem está nos observando. Experienciamos nós mesmos de dentro para fora, onde são visíveis nossas motivações, dúvidas e até nossas boas intenções. Os outros nos observam de fora, onde apenas nossas palavras, expressões, gestos, silêncios e atitudes podem ser percebidos. Entre esses dois pontos de vista, pode existir um verdadeiro oceano psíquico.

A pessoa que eu pretendo ser e a pessoa que você vê

Imagine que eu fique repetidamente interrompendo alguém durante uma conversa. Dentro da minha própria mente, eu talvez esteja apenas me sentindo entusiasmado: que estou interessado no que a pessoa está dizendo, as ideias chegam depressa demais, que quero demonstrar que entendi. Do outro lado da mesa, porém, posso estar simplesmente parecendo grosseiro. Suponha um outro exemplo, o de que eu raramente peça qualquer ajuda aos outros: na minha narrativa interna, sou independente e não quero sobrecarregar ninguém; para quem convive comigo, posso parecer distante ou incapaz de confiar nas pessoas ao meu redor. Ou pense aí que eu seja alguém que ofereça conselhos com frequência (não que isso na verdade não aconteça, reconheço que sou desses, mas tentando sempre me corrigir): posso estar vendo a mim mesmo como alguém atencioso e prestativo; a outra pessoa pode achar que não a escuto de verdade, porque estou ocupado demais preparando uma solução para a vida dela.

Nossas intenções importam. Elas revelam algo importante a nosso respeito. Mas não contam a história inteira. O efeito que provocamos nos outros também importa, mesmo quando esse efeito é diferente daquele que pretendíamos produzir. Essa é uma das verdades mais difíceis na vida adulta: quando somos mal interpretados, a responsabilidade nem sempre pertence inteiramente à outra pessoa. Às vezes, nossa maneira habitual de nos relacionarmos transmite uma mensagem que nunca escolhemos conscientemente passar. Às vezes, a pessoa que acreditamos ser não corresponde plenamente àquela que aparece de forma repetida para o outro nos nossos relacionamentos. Isso não nos torna numa mentira. Torna-nos humanos.

Pontos cegos

Um ponto cego não precisa ser nehum segredo terrível ou um defeito oculto. Pode ser apenas algo evidente para todo mundo, exceto para a própria pessoa. A colega que se descreve como "muito direta" talvez não perceba que o restante do escritório na verdade a considera meio grossa. O homem que se orgulha por evitar entrar em discussões pode não notar que pode estar punindo as pessoas com o seu silêncio. A pessoa que acredita ser constantemente ignorada talvez não enxergue o quanto ela raramente permite que os outros sejam o foco conversa.

Os pontos cegos sobrevivem porque a mente não é uma observadora “neutra” de si mesma. Interpretamos nosso comportamento de uma tal maneira que preserve nossa identidade minimamente suportável e coerente. Quando nos atrasamos, é porque tinha muito trânsito; quando outra pessoa se atrasa, é porque ela não tem consideração pelos outros. Quando perdemos a paciência, é porque estávamos sob uma enorme pressão; quando alguém perde a paciência conosco, ela tem problema de lidar com a raiva. Quando nos afastamos, é porque precisamos de espaço; quando alguém se afasta de nós, é porque essa pessoa é fria e cruel. Esse tipo de pensamento não se reduz a hipocrisia e, em grande parte, acontece automaticamente. Temos acesso à complexidade das nossas próprias circunstâncias, mas normalmente enxergamos apenas a parte visível do comportamento dos outros. Por isso, exceto quando estamos naquele momento da vida de pura autorrecriminação, tendemos no mais das vezes a explicar nossas próprias atitudes de maneira generosa e as alheias de forma mais severa. Infelizmente, as outras pessoas talvez façam exatamente a mesma coisa, só que na direção oposta (isto é, na sua direção).

Existe, porém, algo mais estrutural por trás disso. O "eu" que carregamos na nossa mente é construído a partir de uma mistura de fatores extremamente única: coisas que nos disseram cedo e repetidas o suficiente para se transformarem em verdades para nós; conclusões que tiramos a nosso próprio respeito depois de experiências que talvez sejam representativas de quem somos, talvez não; inferências feitas a partir da maneira como fomos tratados, embora o comportamento de quem nos tratou de tal jeito também refletia a história dessas próprias pessoas, e não apenas a nossa. O resultado disso é um autorretrato em parte preciso, em parte boa idealizado e defensivo e, em parte, apenas ultrapassado, porque pintado sob condições que não existem mais, por uma pessoa que não é mais da mesma maneira que era, e que nunca foi atualizado, tal como uma fotografia que vai perdendo a cor e a definição com a passagem do tempo. Mantemos esse retrato antigo pendurado na parede e nos esquecemos de perceber que a pessoa representada nele é décadas mais jovem e foi retratada a partir de um conjunto completamente diferente de circunstâncias. Enquanto isso, os outros estão observando outra coisa — algo vivo e em constante transformação.

Os outros não são espelhos perfeitos

Ficamos tentados a concluir que, se não conseguimos nos enxergar de uma maneira completamente objetiva, deveríamos simplesmente confiar nas opiniões dos outros. Mas isso seria um grande erro. As outras pessoas não nos veem como realmente somos; elas nos enxergam de forma filtrada por suas próprias histórias, medos, expectativas, inseguranças e projeções. Uma pessoa pode descrevê-lo como confiante; outra, como arrogante. Alguém que valoriza o controle emocional pode considerá-lo dramático, enquanto outra pessoa admira sua abertura. Uma pessoa controladora pode acusá-lo de egoísmo quando você estabelece um limite.

As pessoas são espelhos, mas cada espelho tem um formato diferente. Alguns ampliam. Alguns distorcem. Alguns estão rachados. Por isso, nenhuma opinião isolada deve se transformar em um veredicto sobre sua identidade. Se uma pessoa afirma que você é egoísta, isso pode revelar algo sobre você, algo sobre ela ou algo sobre a interação específica entre vocês. Se cinco pessoas sem relação entre si, em contextos diferentes e ao longo do tempo, afirmam que você costuma desconsiderar os sentimentos delas, esse padrão merece uma atenção um pouco mais cuidadosa. A repetição de um feedback vindo de fontes que não se comunicaram previamente entre si é um dado a considerar. Pode não ser necessariamente a verdade, mas é uma informação importante.

Por que feedbacks dóem

A maioria de nós afirma valorizar a sinceridade, desde que ela seja apresentada de uma forma que confirme aquilo que aceitamos. Gostamos de ouvir que somos generosos, fortes e atentos. Ficamos menos entusiasmados quando a honestidade insinua que tendemos a monopolizar as conversas, que estamos sempre na defensiva ou que evitamos assumir responsabilidades.

Um feedback negativo pode soar ameaçador porque não o sentimos apenas como um comentário sobre determinado comportamento. Muitas vezes, ele é recebido como um ataque ao que somos por inteiro. "Você me magoou" transforma-se em "você é uma pessoa ruim." "Você me desprezou naquele dia" torna-se "tudo aquilo de bom que você via em si mesmo é falso." A crítica pode ser limitada, mas a vergonha a amplifica. Quando a vergonha assume o controle, normalmente nos defendemos de uma de duas maneiras: podemos atacar o mensageiro, procurando defeitos que desqualifiquem sua opinião; ou podemos desmoronar em autocondenação e concluir que a crítica revela o nosso caráter em sua totalidade. Nenhuma dessas respostas nos ajuda a enxergar as coisas com mais clareza.

A posição mais saudável possivelmente está em algum ponto entre a defensividade e a autodestruição: talvez exista alguma coisa aqui que eu precise entender melhor. Essa frase exige força. Receber bem um feedback não significa aceitar todas as acusações nem pedir desculpas por coisas que não fizemos. Significa tornar-se curioso antes de se tornar defensivo. O que exatamente se passou entre mim e a outra pessoa? Foi apenas um acontecimento isolado ou se trata de um padrão? Outras pessoas já disseram algo parecido? O que eu pretendia comunicar e o que o meu comportamento realmente comunicou? Uma resposta útil à crítica não é "Você tem razão sobre mim" nem "você está errado sobre mim." É: deixe eu refletir a respeito.

Viver exclusivamente pelos olhos dos outros

Existe, ainda, um outro lado nessa discussão. Algumas pessoas não estão apenas um pouco preocupadas com a maneira como são vistas. Estão aprisionadas por ela. Monitoram cada expressão, pausa e mudança no tom de voz. Repassam as conversas durante horas. Uma demora numa resposta se torna rejeição; uma expressão neutra transforma-se em desaprovação; uma mensagem curta vira evidência de que o relacionamento mudou para sempre.

Para alguém cuja vida se organiza em torno da aprovação, enxergar-se como os outros o ou a enxergam pode se transformar em uma ocupação exaustiva e de tempo integral. A pessoa deixa de perguntar "o que fiz foi justo?" ou "agi de acordo com meus valores?" e pergunta apenas "eles gostaram de mim?", o que são perguntas bem diferentes. Uma vida inteiramente governada pela reputação externa não é necessariamente uma vida ética. Pode ser apenas uma vida ansiosa.

As redes sociais oferecem um exemplo contemporâneo de até onde essa preocupação pode chegar. A pessoa fica editando deliberadamente a própria imagem, literalmente colocando filtros na própria aparência, construindo narrativas que não correspondem exatamente à vida que levam, projetando a pessoa que gostariam de ser, por mais distante que essa personagem esteja de quem ela realmente é. A distância entre o "eu" e a performance aumenta, e com o tempo a performance pode começar a parecer mais real do que a pessoa que existe por trás dela.

O que acontece é que, às vezes, fazer o que parece certo pode decepcionar os outros. Estabelecer um limite pode fazer você parecer egoísta para alguém que se beneficiava da ausência de limites. Falar com honestidade pode torná-lo menos agradável para alguém que preferia o seu silêncio. O objetivo, portanto, não deveria ser nos transformarmos naquilo que os outros desejam que a gente seja, mas compreender como os afetamos sem precisar entregar a nossa identidade à aprovação deles, ao mesmo tempo em que mantemos nossos relacionamentos estáveis o suficiente para que continuem de pé.

A terapia como um espelho diferente

No consultório, a distância entre o que o que pensamos de nós mesmos, o que pensam de nós e, ainda, o que pensamos que os outros pensam de nós é impressionante. Existe a pessoa que se apresenta como arrogante e crítica ao extremo, mas se percebe como direta e sincera e ficaria francamente abalada ao descobrir a maneira como realmente atinge quem está ao lado. Existe a pessoa que se considera completamente inadequada, que construiu contra si mesma uma “excelente” argumentação interna e conseguiu juntar as provas da sua própria incapacidade com a mesma dedicação de um promotor de justiça. Mas vista de fora, o que aparece é alguém sensível, capaz e verdadeiramente valorizada, vivendo de acordo com uma narrativa particular que as pessoas que se importam com ela sequer reconheceriam. E existe a pessoa que simplesmente já não sabe nem nunca soube muito bem quem é, que passou tanto tempo se ajustando ao que cada ambiente exigia que perdeu o fio que poderia conduzi-la de volta a algo que parecesse ser autenticamente seu. Três manifestações bastante diferentes da mesma distância fundamental a que me referi no início desse parágrafo e todas elas, cada uma à sua maneira, cobrando da pessoa um alto preço.

A psicoterapia pode oferecer uma forma de reflexão fora do senso-comum. Um terapeuta não é uma máquina objetiva. Terapeutas são humanos e levam suas próprias percepções para dentro do consultório. Mas a relação terapêutica é estruturada, em sua melhor forma, para ajudar, com as técnicas adequadas, a pessoa a examinar padrões que podem ser difíceis de reconhecer em outros lugares.

Esses padrões não são expostos para que ela seja julgada. São explorados porque aquilo que acontece entre ela e os outros também pode começar a acontecer entre ela e o terapeuta — e nesse espaço menor e cuidadosamente organizado, torna-se possível examinar o que ocorre em conjunto. O consultório transforma-se em um pequeno laboratório das relações humanas. O objetivo não é produzir uma descrição definitiva da personalidade de alguém, mas oferecer outra perspectiva, a qual possa ser examinada em vez de simplesmente obedecida.

Autorretratos, ao que parece, não são apenas um conjunto de crenças. São uma estrutura. E as estruturas moldam a maneira como novas informações são processadas, o que significa que evidências contraditórias acabam sendo reinterpretadas ou absorvidas pela imagem já existente, em vez de se sentirem à vontade para questioná-la. A pessoa que se acredita ser absolutamente impossível de ser amada não atualiza automaticamente essa crença quando alguém começa a amá-la, mas tenta, não porque queira, encontrar uma forma de tornar esse amor mais compatível com aquela estrutura anterior que lhe soa mais familiar. Mudar o retrato exige mais que informação: exige desenvolver segurança suficiente para observá-lo com honestidade, curiosidade suficiente para perguntar quando ele foi pintado e sob quais circunstâncias, e flexibilidade suficiente para considerar a possibilidade de que a pessoa retratada talvez já não seja a mesma que existe hoje.

E também não somos diferentes para cada pessoa com quem interagimos?

Sempre vão existir partes de nós que só podem ser vistas de dentro e outras que só são percebidas de fora. Somos, em parte, aquilo que sentimos, em parte aquilo que pretendemos ser, em parte o que fizemos repetidamente e, de modo significativo, também o que emerge das nossas interações com os outros. Talvez seja por isso que, consideradas individualmente, as opiniões sinceras que as pessoas têm sobre nós podem variar tanto. Podemos parecer pessoas completamente diferentes dependendo de quem está conosco, e o mesmo vale para todo mundo.

É claro que existe aquele “efeito manada”, pelo qual a opinião de alguém muito popular ou convincente demais pode moldar a forma como as demais pessoas passam a enxergar um indivíduo determinado, especialmente quando todas compartilham o mesmo ambiente ou as mesmas circunstâncias. Mas deixemos isso de lado por um momento e consideremos cada relação separadamente: de cada vínculo significativo que mantemos ao longo da vida, costuma emergir uma versão distinta de "você" e da "outra pessoa." E existe algo verdadeiro nisso. Ninguém é uma ilha, e quando duas narrativas pessoais diferentes se encontram, elas podem se transformar reciprocamente, criando uma percepção comum que antes não existia e que é exclusiva daquele encontro específico. Também somos definidos, talvez com maior frequência do que percebemos, a cada vez que interagimos com alguém, que por sua vez é (re)definido a partir dessa mesma interação.

Vale a pena termos isso em mente e, ao mesmo tempo, sermos honestos sobre uma questão: não importa o quanto tentemos nos enxergar através dos olhos dos outros, vão existir tantas versões de nós quanto forem as pessoas que conhecermos. Isso significa que alguém que fica tentando descobrir a impressão que deixa no outro deveria também perguntar: em qual espelho estou olhando? Não existe uma imagem única, fixa e universal que projetamos para os outros. Essa imagem é construída e reconstruída a cada encontro, moldada pelo tempo que investimos, pela atenção que oferecemos e pela qualidade particular de cada relacionamento que escolhemos sustentar.

Talvez o dom mais útil

O autoconhecimento exige várias fontes de informação: introspecção, comportamento, consequências, feedback de pessoas confiáveis e reconhecimento de padrões que se repetem ao longo do tempo. Também exige compaixão. Sem ela, o autoexame se transforma em acusação. Com ela, podemos reconhecer que magoamos alguém sem concluir que somos pessoas que não temos mais conserto. Podemos reconhecer uma falha sem estabelecer no final que ela representa tudo o que somos.

Enxergarmos a nós mesmos como os outros nos enxergam seria, realmente, um dom extraordinário. Mas talvez o dom maior fosse conseguir nos observar de vários ângulos ao mesmo tempo: através de nossos próprios olhos, dos olhos daqueles que nos amam, dos olhos das pessoas que magoamos e dos olhos daqueles que nos compreenderam mal. Talvez descobríssemos que somos mais gentis do que imaginávamos, embora nem sempre tão atentos. Mais fortes do que supúnhamos, mas às vezes mais difíceis de abordar. Menos estranhos do que temíamos, embora mais previsíveis do que gostaríamos de admitir.

Burns, o autor do poema que comentei no início desse post, acreditava que um dom como esse curaria toda a vaidade e pretensão das pessoas. Não estava errado. Mas talvez também pudesse acabar fazendo uma diminuição desnecessária de si mesmo. Existem pessoas caminhando por aí sem conseguir perceber o afeto que os outros lhes dirigem, a competência que reconhecem nelas e a presença que valorizam porque o retrato que utilizam como referência foi pintado por alguém que também não as enxergava com clareza. Assim, conduzem a própria vida de acordo com uma versão das opiniões alheias que talvez jamais tenha sido verdadeira.

O objetivo não é aprender a gostar de nós mesmos com maior eficiência nem representar uma versão de nós próprios que sequer conhecemos. É nos tornarmos mais livres para mudar: perceber que a pessoa que estamos tentando ser e a pessoa que os outros encontram talvez tenham se afastado um pouco uma da outra, e iniciar o trabalho silencioso de aproximá-las novamente.

Aquele piolho citado no poema não tem consciência de nada nem necessariamente diminui alguém. Mas a falta de consciência, muitas vezes, é justamente o que se interpõe entre uma pessoa e a compreensão mais honesta e mais habitável de quem ela realmente é.

E essa distância entre o retrato pendurado na parede e a pessoa que está diante dele costuma ser exatamente o lugar em que o verdadeiro trabalho se inicia.

Vamos começar?

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem gerada por IA com base na interpretação do autor do poema de Robert Burns "To a Louse, On Seeing One on a Lady's Bonnet at Church" [Ao Piolho, ao Ver Um no Chapéu de uma Senhora na Igreja] (1786).


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