EU MELHOREI DE VERDADE OU FOI SÓ A MEDICAÇÃO? O QUE LEVAR EM CONTA NA RESPOSTA AO TRATAMENTO
A pergunta se o paciente melhorou "de verdade" ou
se o bem-estar sentido é apenas efeito do remédio costuma surgir no consultório
quando a névoa começa a se dissipar. Os sintomas perdem força, a respiração
encontra novamente o próprio ritmo, o mundo recupera contornos e, justamente
quando a pessoa poderia apenas comemorar, brota a dúvida incômoda, talvez
temerosa do futuro: “O que dessa melhora é meu e o que é do remédio que você me
prescreveu?”
É uma dúvida, e por trás dela uma angústia, compreensíveis.
Afinal, quando falamos de saúde mental, não estamos tratando apenas de
sintomas: estamos falando de identidade, personalidade, escolhas, relações e da
maneira como alguém reconhece a si mesmo. Depois de meses sem conseguir
levantar da cama, dormir direito, concentrar-se ou sentir prazer, a melhora
pode até parecer estranha. Às vezes, a pessoa desconfia do próprio alívio, como
se o bem-estar precisasse apresentar uma cédula de identidade para provar que é
legítimo e que veio para ficar.
Costumo responder a essa pergunta recorrendo a uma imagem
simples: a do carro e do motorista.
Alguns carros são excelentes, até mesmo especiais. Têm um
motor para lá de eficiente e confiável, direção suave e precisa, estabilidade
espetacular, freios que parecem prever que serão solicitados, câmbio impecável
e que entregam tudo e mais um pouco numa pista em condições ideais. Algumas
vezes são os mais rápidos do mundo, o top da tecnologia automotiva.
Agora imagine um condutor terrível, daqueles que só Deus
sabe como conseguiram a carteira de habilitação, sentado ao volante de um carro
maravilhoso como aquele. Além de subutilizar todos os recursos que a máquina
oferece, ele chega a comprometer até as suas melhores características de tão
mal que dirige. Pode deixar o motor apagar ainda no arranque, errar feio a
passagem de marcha, subir no meio-fio na primeira manobra e até fazer o carro
“enguiçar” por causa de um erro básico durante a pilotagem.
Agora imagine o contrário, um motorista excelente,
experiente, atento, profundo conhecedor de motor, câmbio e parte elétrica.
Aquele que percebe o mais inaudível dos ruídos que não deveria estar lá, tira
proveito máximo de tudo o que a mais poderosa das tecnologias oferece e poderia
ser perfeitamente um pilote de testes. Mas lhe entregam uma ximbica velha, com
o motor pedindo arrego, os pneus praticamente sem borracha, o câmbio que não
engata nem sob tortura, o carburador (sim, eu e o carro somos daquele tempo)
mais entupido que bueiro em dia de enchente. O super motorista, a despeito de
tantas habilidades, mal vai conseguir tirá-lo do lugar.
Nesse raciocínio, carro e motorista em condições minimamente
adequadas seriam a combinação ideal para uma viagem segura e realizada dentro
do tempo adequado. Às vezes, um bom carro até favorece o aprendizado do piloto,
que aperfeiçoa suas habilidades com o que a máquina que lhe oferece a mais.
Outras vezes, o bom piloto compensa a potência mais baixa e consegue dele um
Entendeu a ideia? Quem está funcionando direito é o carro ou o motorista, o remédio ou o paciente? Ou o sucesso está na combinação entre os dois?
Do lado do carro-remédio, ele precisa ser eficaz, adequado às necessidades do percurso, ajustado para oferecer o rendimento desejado, usado com a regularidade e a disciplina que o manual do veículo orienta, passar pelas revisões periódicas sem pular nenhuma, ser protegido da luz, do calor e das condições que podem deteriorá-lo, ter motor e acessórios de fábrica e boa procedência. Do lado do motorista-paciente, tomar o remédio como orientado, cuidar de si, tentar fazer melhor o que agora percebe que vinha fazendo mal, procurar psicoterapia complementar, gerir o tempo, diversificar as atividades, fazer exercícios, procurar pessoas e situações que o inspirem positivamente, orientar-se por uma ética de vida nova em folha e, se for o seu caso, recorrer à sua espiritualidade.
Todo tratamento psiquiátrico requer um “trabalho em equipe”.
No mínimo, essa dupla carro e motorista atuando em sinergia pelo tempo
necessário para que possamos avaliar se a combinação funciona bem assim ou se
poderia ser melhorada. O resultado dos eventuais progressos só em casos muito
específicos poderá ser atribuído somente ao remédio ou somente ao motorista. É
verdade que requer que esse último tenha minimamente uma boa adesão ao
medicamento, utilizando-o na dose e nos horários prescritos, com todas as precauções
que lhe foram orientadas.
Se houve melhora consistente, como no caso do paciente
hipotético que formula a pergunta título desse post, é porque as partes estão
trabalhando bem juntas. O remédio fez a parte dele e o paciente fez a sua.
Ponto para os dois.
Não se trata, então, de escolher entre duas explicações
concorrentes: “ou fui eu” ou “foi o remédio”. Todos os recursos, dos
farmacológicos aos não farmacológicos, incluindo a vontade de melhorar do
próprio indivíduo em tratamento, ajudaram na recuperação das condições para
voltar ao controle eficiente da própria vida.
O remédio não substitui você
Os psicofármacos podem diminuir o ruído produzido por
determinados sintomas e aumentar a estabilidade do sistema nervoso. É como sair
com o carro revisado: a partida deixa de exigir tanto esforço, as retomadas
ficam mais seguras e manter uma velocidade razoável já não consome toda a
energia disponível.
Dependendo do quadro, a medicação pode ajudar a reduzir
ansiedade, tristeza persistente, irritabilidade, impulsividade, pensamentos
repetitivos, alterações do sono ou oscilações intensas do humor. Ou seja, pode
ampliar a margem entre aquilo que acontece com você e a sua capacidade de
responder ao que aconteceu.
Mas o remédio não escolhe o destino, não decide quais
relações merecem ser preservadas, quais limites precisam ser estabelecidos,
qual trabalho combina com você ou que tipo de pessoa você deseja ser. Também
não é capaz de determinar o que realmente importa para você.
A medicação pode tornar a direção novamente possível, mas
quem segura o volante continua sendo você. Por isso, talvez seja mais justo
pensar assim: o remédio não cria uma versão artificial sua. Quando funciona
bem, ele pode diminuir obstáculos que estavam impedindo que partes importantes
de você se manifestassem. Não é “o remédio falando por mim”. É o remédio agindo
para que eu consiga ser uma versão melhor de mim.
O condutor também precisa se aprimorar
É aqui que entra a autoria. Você decide, dentro das
possibilidades reais de cada momento, para onde seguir e como conduzir. Isso
envolve escolhas, valores, limites, vínculos, trabalho, descanso, lazer,
projetos de vida e um sentido maior para tudo que está aí.
A psicoterapia pode funcionar como uma espécie de
autoescola. Felizmente, sem examinador mal-humorado segurando uma prancheta no
banco ao lado. Ela ajuda a desenvolver autoconhecimento, regulação emocional,
habilidades de comunicação e recursos para enfrentar curvas, congestionamentos
e mudanças inesperadas de percurso.
Boa condução não significa nunca errar, nunca se
desorganizar ou nunca sair um pouco da rota. Significa perceber mais cedo o que
está acontecendo, equilibrar a rotação do volante com a pressão sobre o pedal
do acelerador e evitar que cada vacilo seja transformado em uma sentença
definitiva sobre o seu próprio valor.
Há pessoas que acreditam que, para a melhora ser
“verdadeiramente delas”, deveriam conseguir tudo apenas pela força de vontade.
Como se resistir ao sofrimento sem qualquer ajuda fosse prova de caráter. Não
é. Dirigir com o freio de mão puxado não demonstra maior habilidade ao volante.
Apenas desgasta o carro e torna a viagem desnecessariamente difícil.
Ninguém dirige no vácuo
Se quisermos ampliar a metáfora, podemos lembrar que também
existe a estrada. A estrada é o contexto: família, trabalho, condições
financeiras, relações afetivas, perdas, violência, preconceito, desigualdade,
doenças, notícias e todas as circunstâncias que atravessam uma vida.
Às vezes, a estrada está bem pavimentada. Em outros
momentos, há buracos, obras, neblina, desvios e uma placa dizendo “rota
alternativa” justamente quando você já estava atrasado. Parte de uma condução
saudável é considerar o terreno real. Não adianta culpar exclusivamente o motor
ou questionar as suas próprias capacidades quando a estrada está em péssimas
condições. Da mesma forma, reconhecer as dificuldades externas não significa
desistir da própria capacidade de fazer escolhas. Mesmo que envolva escolher
outra rota mais segura.
A propósito, o que está entrando no tanque?
O combustível representa fatores como sono, alimentação,
movimento corporal, exposição à luz natural, uso de álcool e outras
substâncias, tempo de tela, pausas, lazer e convivência com pessoas que fazem
bem.
Esses elementos não curam todos os transtornos mentais, e
seria injusto sugerir que alguém continua deprimido ou ansioso apenas porque
não se exercitou o suficiente ou não organizou corretamente a rotina. Saúde
mental é mais complexa do que uma lista de hábitos saudáveis.
Ainda assim, hábitos podem potencializar ou dificultar
qualquer tratamento. É diferente querer que o carro que suba a serra com o
tanque abastecido ou já funcionando na reserva. Um sono minimamente regular,
uma alimentação possível, algum movimento e relações de apoio não resolvem
tudo, mas ajudam o organismo a utilizar melhor os recursos disponíveis.
O objetivo não é criar uma rotina perfeita. Rotinas
perfeitas costumam durar só até a próxima terça-feira. O objetivo é construir
condições suficientemente boas para que a vida não dependa apenas de esforço
heroico.
Manutenção não é fracasso
Todo carro precisa de revisão, alinhamento e calibragem. Na
prática clínica, isso significa consultas, acompanhamento dos sintomas,
monitoramento de efeitos adversos, ajustes de doses e estratégias para prevenir
recaídas.
Manutenção não é fracasso, e muito menos é dispensável. É
cuidado com aquilo que está funcionando. Também é importante não alterar ou
interromper a medicação por conta própria apenas porque houve melhora. Em
muitos tratamentos, a melhora é justamente um sinal de que a estratégia está
funcionando e não de que ela se tornou desnecessária.
Qualquer mudança deve ser discutida com o profissional que
acompanha o caso, levando em conta o diagnóstico, o tempo de estabilidade, o
histórico de recaídas, os efeitos colaterais e as circunstâncias atuais da
vida.
Afinal, o que é do remédio e o que é meu?
Acredito que não é possível separar essas duas coisas com a
precisão de quem divide uma conta de restaurante. A melhora, como vimos, vem de
uma parceria harmoniosa e bem programada.
O remédio pode tirar parte do peso da mochila. Mas é você
quem escolhe a trilha, dá os passos, percebe os limites e decide quando é
necessário parar para respirar.
Alguns sinais de que a melhora está “com a sua cara” pode
ser que suas escolhas começam a se aproximar novamente dos seus valores;
tarefas básicas deixam de exigir um esforço descomunal; emoções diferentes
conseguem aparecer de maneira coerente com as situações; relações se tornam
mais claras, com maior capacidade de proximidade e de estabelecimento de
limites; interesses antigos e saudáveis reaparecem ou novos interesses,
igualmente saudáveis, começam a surgir; mesmo nos dias difíceis, permanece
alguma capacidade de autocuidar-se e de corrigir a rota; a vida volta a
apresentar possibilidades e não apenas obstáculos e despenhadeiros.
Melhorar não significa sentir-se feliz o tempo inteiro. Uma
pessoa saudável continua sentindo tristeza diante de perdas, ansiedade diante
de ameaças e irritação quando seus limites são desrespeitados. O objetivo não é
anestesiar as emoções. É conseguir senti-las sem ser completamente sequestrado
por elas. É, tal como o bom motorista, estar no controle na situação e não
rendido a ela.
Por outro lado, alguns sinais merecem uma conversa franca na
consulta: euforia desproporcional ao contexto, redução importante da
necessidade de dormir, agitação, impulsividade nova, sensação de estar
acelerado demais, sedação excessiva, apatia, perda de interesse ou embotamento
emocional — aquela impressão de que “nada mais me toca”. Se a melhora substitui
um sofrimento por outro, talvez seja necessário recalibrar.
Pequenos testes de autoria
Durante as primeiras semanas ou meses de tratamento, alguns
exercícios simples podem ajudar a perceber como a sua participação aparece no
quadro geral de melhora. Ao final do dia, escreva apenas três linhas: o que
mais influenciou meu emocional hoje, vindo tanto do ambiente externo quanto de
dentro de mim? Que escolha feita esteve de acordo com aquilo que considero
importante? Qual é a menor meta possível para amanhã?
Outro exercício são os “dois espelhos”: pergunte a duas
pessoas de confiança o que elas perceberam que voltou a ficar “mais parecido
com você” nas últimas semanas. Às vezes, os outros enxergam mudanças que ainda
não conseguimos reconhecer.
Por fim, registre o seu nível de energia de zero a dez ao
acordar e antes de dormir. Não busque notas perfeitas e sim tendências. É muito
útil levar esses registros ser na próxima consulta. Eles contam uma história
mais completa do que a fotografia isolada de um único dia.
Melhorar não é virar outra pessoa
Melhorar é voltar a caber em si, talvez não exatamente na
versão anterior à crise, mas em uma versão com mais recursos, consciência e
liberdade de escolha.
Oscilações continuarão existindo. Haverá dias de sol e de
chuva, estradas livres e congestionamentos inesperados. O objetivo do
tratamento não é uma felicidade constante, impossível (e até meio suspeita). O
objetivo é aumentar a capacidade de atravessar diferentes condições sem perder
completamente a direção.
No final das contas, a síntese continua sendo simples: a
medicação não o ou a reinventa, não escolhe o seu destino nem reescreve escreve
a sua história.
Com o tempo, a pergunta pode mudar.
Em vez de “foi o remédio ou eu?”, talvez ela se transforme
em “com o que tenho agora, o que se tornou possível construir?”
Crédito da imagem:
gerada por IA a partir de prompt do autor.



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