COMO OURO? A RESILIÊNCIA E SEU PAPEL NA SAÚDE MENTAL

Gostaria de começar contando brevemente a história do prisioneiro n. 119104 do III Reich, o regime que estabeleceu e manteve o chamado nacional-socialismo ou simplesmente nazismo. A pessoa que veio em determinado momento da sua vida a se tornar esse prisioneiro nasceu na Áustria em 1905, de uma família amorosa, teve uma infância feliz e, desde muito jovem, interessava-se por uma pergunta que talvez todos façamos em algum momento, embora nem sempre nessas mesmas palavras: o que faz uma vida valer a pena? Ainda adolescente, participava de grupos de discussão com intelectuais já renomados e até falava publicamente sobre o sentido da vida.

Mais tarde, formou-se em Medicina. Especializando-se em psiquiatria e neurologia, trabalhou com pessoas que apresentavam risco de suicídio e, nesse meio-tempo, casou-se com Tilly, uma mulher especial que amou muito, e foi tocando seu trabalho numa instituição de saúde mental com pessoas com risco de suicídio. Quando os nazistas anexaram seu país, o futuro prisioneiro n. 119104 passou a trabalhar no Hospital Rothschild, uma  das poucas instituições que ainda podiam atender pacientes judeus em Viena. Ali, arriscando a própria segurança, passou a alterar diagnósticos para evitar que pacientes psiquiátricos fossem enviados ao programa de extermínio de pessoas consideradas “incuráveis”. Como tinha origem judaica, não demorou muito a ser informado que em breve seria convocado para um “campo de trabalho”. Chegou a obter um visto para emigrar para os Estados Unidos. Poderia ter partido, mas decidiu permanecer para não abandonar os pais idosos.

Em setembro de 1942, ele, Tilly e seus pais foram deportados para o gueto de Theresienstadt. A separação da família iria acontecer aos poucos. Seu pai morreu ali mesmo. Em 1944, Frankl, sua mulher e sua mãe foram enviados para Auschwitz-Birkenau. Sua mãe foi assassinada; Tilly foi posteriormente transferida para Bergen-Belsen, onde também morreu. Antes da deportação, o casal já havia sofrido outra violência irreparável: Tilly engravidara, mas ambos haviam sido obrigados pelo regime nazista a interromper a gestação. Seu irmão Walter também foi assassinado, enquanto sua irmã Stella conseguira escapar para a Austrália.

Ele passaria por Theresienstadt, Auschwitz, Kaufering e Türkheim, estes dois últimos integrantes do complexo de campos de Dachau, até ser libertado por tropas estadunidenses em 27 de abril de 1945. Ao recuperar a liberdade, viu a antiga vida reduzida praticamente a cinzas. Mas, de volta a Viena, retomou e aprofundou uma construção teórica que havia começado anos antes da prisão: uma abordagem psicoterapêutica que reconhece na busca de sentido uma das principais forças motivadoras do ser humano. A experiência dos campos não criou sua teoria, mas a submeteu a uma prova extrema e modificou para sempre a maneira como ele a apresentaria ao mundo.

O nome do prisioneiro era Viktor Frankl. Além de tornar-se o fundador de toda uma abordagem teórica e prática psicoterapêutica, foi o autor da obra Em busca de sentido, um dos livros mais conhecidos do século XX sobre sofrimento, liberdade interior e responsabilidade diante da vida.

Esta é uma história sobre aquilo que pode ou não sobreviver em nós quando a vida que conhecíamos deixa de existir. Embora não utilizasse a palavra “resiliência” no sentido psicológico que ela adquiriria posteriormente, Frankl antecipou e explorou questões que hoje dialogam diretamente com esse conceito, sobretudo o papel do sentido, dos vínculos e da atitude possível diante de circunstâncias que não podemos modificar.

Como algumas pessoas conseguem superar o passado e se reerguer?

Essa pergunta aparece no meu consultório de muitas maneiras. “Por que minha irmã passou pela mesma infância terrível que eu e parece ter ficado bem, e eu não?”; “Como essa pessoa conseguiu reconstruir a vida depois de perder tudo?”; “Será que sou apenas um fraco que nunca conseguiu virar a página da vida miserável que sempre teve?”.

Vamos pensar um pouco a respeito? As pessoas nunca passam exatamente pela mesma experiência, ainda que tenham estado na mesma casa, na mesma família ou no mesmo acidente. Cada acontecimento encontra uma combinação diferente de histórias pessoais, temperamento, vínculos, condições materiais, oportunidades, saúde física, experiências anteriores e recursos emocionais. E o que chamamos de “superar” pode significar coisas bastante distintas.

Para uma pessoa, superar pode ser conseguir retomar o trabalho. Para outra, voltar a confiar em alguém. Para uma terceira, aprender a viver com uma ausência que nunca deixará de doer completamente. Às vezes, superar não é esquecer, deixar para trás nem voltar a ser como antes. É conseguir incorporar o que aconteceu à própria história sem permitir que aquilo se torne a narrativa inteira. É nesse território que nos deparamos com a questão da resiliência.

Da física para a saúde mental, mas com reservas

A palavra “resiliência” foi inicialmente utilizada na Física para descrever a capacidade de determinados materiais de suportar uma deformação e recuperar sua forma, como o ouro, por exemplo, metal que é derretido, resfriado, martelado, mudado de forma e depois de tudo isso continua sendo ouro. Mais adiante voltamos a essa definição porque é um pouco mais complexa.

A metáfora é útil, mas no que toca à vida humana pode ser um tanto limitada, principalmente da forma com que é compreendida hoje. Após passarmos por determinadas experiências, talvez não exista um “estado original” ao qual retornemos: uma perda pode modificar a maneira como percebemos o mundo; um trauma pode colocar em xeque tudo o que imaginávamos ser a sensação de  segurança; uma doença pode mudar nosso corpo, planos e até a identidade que havíamos construído.

Por isso, resiliência não deve ser entendida, assim como o ouro, simplesmente como a capacidade de voltar ao que se era antes. Ela pode ser definida como o processo e o resultado de uma adaptação suficientemente bem-sucedida diante de experiências difíceis, especialmente por meio da flexibilidade mental, emocional e comportamental. Não significa atravessar a adversidade sem sentir dor, mas encontrar maneiras de continuar funcionando, reconstruir alguma estabilidade e preservar possibilidades de desenvolvimento.

Em outras palavras, o que se sabe hoje é que resiliência não é meramente voltar a ser quem você era. É descobrir quem ainda é possível ser depois, e talvez melhor do que jamais foi.

O mito das pessoas invulneráveis

Em diferentes estudos, níveis mais altos de resiliência ou trajetórias mais adaptativas aparecem associados a menor sofrimento psicológico e a menor intensidade de sintomas depressivos, ansiosos e pós-traumáticos. Isso não significa, porém, que a resiliência funcione como uma espécie de vacina contra o adoecimento, nem que adoecer demonstre ausência de resiliência.

Estratégias de enfrentamento adaptativas — como buscar apoio, manter rotinas, praticar gratidão — são associadas a maior bem-estar. Essa visão está correta, mas sempre suscitou muitas perguntas: a resiliência é inata, ou seja, a pessoa ou nasce com ela ou nasce sem ela? Os resilientes são pessoas que desenvolveram uma personalidade especial que lhes facilitasse “estar no mundo”, lidar extremamente bem com as outras pessoas e safar-se do sofrimento quando esse tentava se instalar? Quem sofre é fraco? Ser resiliente é não sentir dor?

Vou responder à pergunta acima de cara, claro que meramente do meu prórpio ponto de vista e, por isso, admitindo e respeitando outras interpretações. Leve em conta isso. Resiliência não pode ser reduzida a um traço fixo e recebido pronto no nascimento. Características individuais participam dela, mas sua expressão depende da interação entre a pessoa, a adversidade enfrentada, seus vínculos, sua história e os recursos disponíveis naquele momento. Muitos dos processos que favorecem a resiliência podem ser aprendidos, fortalecidos e sustentados. Pessoas resilientes também sofrem — elas apenas conseguem reorganizar esse sofrimento de forma construtiva. E não existe um "super-herói emocional": todos nós temos vulnerabilidades. A beleza da resiliência está justamente na nossa capacidade de cair ...e levantar. É a tal adaptação bem-sucedida.

Quando os primeiros pesquisadores começaram a estudar crianças que haviam crescido em condições extremamente adversas, algumas pareciam desenvolver-se muito melhor do que o esperado. Eram crianças expostas a pobreza, violência, negligência, doença mental na família ou outras situações potencialmente devastadoras. Ainda assim, parte delas chegava à vida adulta sem apresentar os mesmos prejuízos observados em outras pessoas submetidas a riscos parecidos.

Hoje, ao explorar o tema, perguntando quais forças uma determinada pessoa tem, precisamos antes de tudo investigar também quem está de fato ao lado dela, se ela tem onde morar, um ambiente em que possa “baixar a guarda”, acesso a tratamentos, alguém significativo na vida, um ambiente que reconhece suas necessidades e se ela tem oportunidades reais de mudança?

A resiliência “individual”, portanto, não elimina nossa responsabilidade coletiva. Pelo contrário: mostra que vínculos, instituições e comunidades podem funcionar como fatores de proteção. Ou, desastrosamente, como fontes adicionais de adoecimento.

O que se descobriu até aqui

O próprio Viktor Frankl, que concluiu pelo sentido de vida como fator de sobrevivência psíquica, assim como Carl Rogers e Maslow, que enxergaram no ser humano um potencial inato de crescimento e autorrealização, não foram os únicos pesquisadores que se ocuparam do assunto. O conceito foi se desenvolvendo e continua em franca expansão até os dias de hoje.

A investigação da resiliência ganhou corpo quando pesquisadores deixaram de olhar apenas para as crianças que adoeciam diante da adversidade e passaram a perguntar por que outras, expostas a riscos semelhantes, apresentavam trajetórias surpreendentemente adaptativas. Norman Garmezy foi um dos pioneiros desse movimento. Na ilha havaiana de Kaua'i, Emmy Werner e Ruth Smith acompanharam por décadas uma geração inteira nascida em 1955 e observaram que parte das crianças submetidas a múltiplos fatores de risco desenvolveu-se de maneira melhor do que se poderia prever, amparada por características pessoais, vínculos confiáveis e oportunidades oferecidas pela família ou pela comunidade. Entre as décadas de 1950 e 1970, o psiquiatra infantil britânico Sir Michael Rutter ajudou a deslocar o olhar de uma suposta “invulnerabilidade” individual para os mecanismos de proteção que reduzem o impacto do risco, interrompem cadeias de consequências negativas, fortalecem a autoeficácia e abrem novas possibilidades em momentos decisivos. Mais contemporaneamente, Luthar, Cicchetti e Becker contribuíram para delimitar o construto, ressaltando que só podemos falar em resiliência quando coexistem duas condições: uma adversidade significativa e algum tipo de adaptação positiva. Escalas como a CD-RISC permitiram mensurar aspectos associados ao fenômeno, enquanto autores como Os psiquiatras estadunidenses Steven Southwick e Dennis Charney aproximaram a investigação clínica das contribuições da neurociência, do suporte social, da flexibilidade cognitiva e da construção de sentido. Martin Seligman, um dos principais nomes da psicologia positiva, popularizou a ideia de “otimismo aprendido”: a maneira como explicamos derrotas e contratempos pode favorecer esperança e persistência ou, ao contrário, ampliar desamparo e desistência. O otimismo relevante aqui não é a expectativa ingênua de que tudo dará certo, mas a capacidade de não transformar um acontecimento ruim numa sentença permanente sobre toda a vida.

A psicóloga e pesquisadora do desenvolvimento Ann Masten usou uma expressão especialmente bonita para descrever o que as pesquisas começavam a revelar: ordinary magic, a “magia do cotidiano”. A resiliência costuma nascer menos de qualidades extraordinárias do que do funcionamento de sistemas humanos comuns de cuidado, pertencimento, aprendizagem e proteção.

Talvez a verdadeira magia esteja justamente aí, uma professora que percebe uma criança "esquecida" no fundo da sala, um amigo que não desaparece quando a situação se complica, uma avó que oferece a primeira experiência de afeto seguro ou um profissional que enxerga uma pessoa inteira onde outros veem apenas um diagnóstico.

O filme A vida é bela, dirigido por Roberto Benigni, oferece uma representação artística de como uma relação pode mediar a maneira pela qual uma criança entra em contato com uma realidade potencialmente traumatizante. Ao transformar fragmentos do horror numa espécie de jogo, o pai não elimina o perigo e tampouco garante que o filho sairá ileso; tenta preservar, durante algum tempo, uma área psíquica na qual ainda existam vínculo, imaginação e esperança. A obra nos lembra que, diante de uma realidade que não conseguimos remover, a presença de alguém pode redirecionar o olhar com que ela é vivenciada.

Nada disso, é claro, produz cenas cinematográficas, daquelas com uma trilha sonora começando a tocar ao fundo. Ainda assim, esses encontros podem alterar a trajetória de uma vida e podem até inspirar qualquer um de nós a agir diferente diante do sofrimento alheio. Mesmo que nos julguemos inábeis e sem recursos para tanto, podemos surpreender a nós mesmos sendo a única mão estendida a alguém que se afoga simbolicamente. E com isso entendermos que, de certa forma, a resiliência pode ser encontrada também naquele que não sofre, mas que se compadece.

Mas e quem não teve a sorte de ser acolhido por um outro significativo durante a experiência difícil? Essa pessoa nunca poderá encontrar resiliência em si mesma?

O que acontece com quem não encontrou um adulto confiável, uma família protetora ou alguém capaz de permanecer ao seu lado durante a experiência difícil? Essa ausência aumenta o peso da travessia, mas não determina para sempre o desfecho. Recursos internos também podem ser descobertos num momento de emergência psicológica, ainda que ajuda externa chegue só mais tarde.

Em alguns momentos, o movimento possível será muito pequeno: levantar da cama, enviar uma mensagem, reconhecer sozinho a necessidade de tratamento ou permitir-se a procurar sentido mesmo quando ainda não pareça haver sentido algum para procurar. A pessoa pode também começar a reconstruir uma relação menos hostil consigo mesma, recolhendo com delicadeza, entre os cacos, alguma capacidade de autocuidado. Não precisamos idealizar a solidão nem transformar autossuficiência em virtude. Cuidar de si quando ninguém cuidou pode exigir um esforço imenso e reconhecer que precisamos dos outros pode se mostrar como uma forma de força, e não de fraqueza.

Uma pessoa que, ao final, demonstra ter se tornado resiliente, pode ter sentido medo, raiva, desespero, tristeza, abandono e impotência. Mesmo que só tenha a ela mesma, pode conseguir parar e observar(-se), aceitar o sofrimento como parte de uma vida que assim mesmo vale a pena ser vivida, ter autocompaixão e, em termos ideais, sair sozinha do buraco em que se encontra, ou escalá-lo por dentro até o ponto de conseguir que sua voz seja ouvida por alguém que esteja passando por lá.

O que a resiliência não é

Alguns recursos podem ser úteis mas, nenhuma técnica de respiração elimina o racismo; nenhum diário de gratidão substitui segurança alimentar; nenhuma sessão de mindfulness apaga por completo uma jornada de trabalho abusiva e nenhum pensamento positivo transforma violência doméstica em ambiente seguro.

O que define a resiliência não é a ausência de sofrimento, mas a possibilidade de encontrar caminhos de adaptação em meio a ele ("adaptação" não como conformismo ou subserviência, mas ruptura e transformação). Também é importante não confundir resiliência e crescimento pós-traumático. Algumas pessoas relatam que, depois de uma crise, passaram a valorizar mais os relacionamentos, modificaram prioridades ou descobriram capacidades que desconheciam. Isso pode acontecer, mas não é uma exigência. Resiliência refere-se à adaptação diante da adversidade, suscitando novos aprendizados; crescimento pós-traumático envolve transformações positivas objetivas percebidas a partir da luta com a experiência. São fenômenos relacionados, mas não idênticos.

No meu entender, ninguém precisa ser grato por ter sofrido. Ninguém precisa dizer que o câncer, o luto, a violência ou o abandono foram “as melhores coisas que lhe aconteceram”. Enquanto algumas dores podem ensinar, outras apenas doem. E muitas fazem as duas coisas em momentos diferentes. Às vezes, o resultado extraordinário não é sair de uma tragédia mais forte, mais sábio e cheio de gratidão. É simplesmente continuar vivo. Voltar a dormir. Conseguir tomar banho. Permitir-se amar novamente. Pode não parecer, mas isso também é resiliência.

Aqui vale a pena voltar a Viktor Frankl com bastante cuidado. Seria tentador transformar sua história numa espécie de parábola motivacional: um homem perdeu quase tudo, encontrou sentido e se tornou um dos pensadores mais influentes de seu tempo. Logo, bastaria que cada pessoa descobrisse seu propósito para superar qualquer adversidade.

A vida real não funciona assim. Frankl não sobreviveu porque era moralmente superior aos que morreram. Não possuía uma força interior que tornasse os demais prisioneiros responsáveis pelo próprio destino. Não podemos saber quantas pessoas igualmente corajosas, amorosas e cheias de sentido foram assassinadas naqueles campos.

Sua história também não nos autoriza a perguntar por que outra pessoa “não conseguiu reagir da mesma forma”. A sobrevivência em situações extremas depende de circunstâncias numerosas, muitas delas completamente fora do controle individual. Transformar resiliência em mérito pode significar, por consequência, transformar o adoecimento ou a morte em fracasso, uma conclusão não apenas equivocada, mas cruel. A experiência nos campos de concentração também não foi o estopim para desenvolver sua teoria, embora tenha lhe proporcionado submeter suas ideias a uma realidade extrema e influenciado profundamente a maneira como ele as comunicaria ao mundo. O que sua história nos oferece não é uma fórmula, mas uma pergunta:

Então a resiliência pode ser desenvolvida?

Esta talvez seja a parte mais importante da nossa conversa de hoje. Resumindo o que falamos até agora, resiliência não é uma quantidade de força recebida no nascimento e destinada a permanecer igual durante toda a vida. Ela é dinâmica: pode variar conforme o momento, o tipo de adversidade, o estado de saúde, os vínculos disponíveis e as condições do ambiente.

Uma pessoa pode mostrar grande capacidade de adaptação no trabalho e sentir-se completamente desorganizada diante de uma separação. Pode atravessar uma doença grave com surpreendente equilíbrio e, anos depois, experimentar intenso sofrimento diante de uma perda aparentemente menor. Isso não é incoerência. É condição humana.

E a resposta promissora é que sim, processos associados à promoção da resiliência podem ser desenvolvidos. Podemos aprender a reconhecer e regular melhor nossas emoções, em vez de tentar suprimi-las até que explodam, ampliar a flexibilidade para abandonar uma estratégia que deixou de funcionar e desenvolver habilidades de resolução de problemas, comunicação e busca de ajuda.

Hoje, a resiliência psicológica é compreendida menos como a simples capacidade de “superar” uma experiência e mais como um processo dinâmico de adaptação diante de adversidades significativas. Ela pode se manifestar pela manutenção possível da saúde mental e do funcionamento durante a crise, pela recuperação gradual depois de uma desorganização ou pela construção de uma nova forma de viver quando o retorno ao estado anterior já não é possível. Essa adaptação envolve recursos internos e externos e não exige necessariamente crescimento pessoal: algumas pessoas amadurecem ou descobrem novos sentidos depois do sofrimento, mas outras apenas recuperam um equilíbrio suficiente para continuar vivendo, e isso já pode representar por si só um resultado profundamente valioso.

Também podemos, como dito há pouco, desenvolver autocompaixão, que não é passar a mão na própria cabeça, mas abandonar a fantasia de que o rigor contra nós mesmos nos torna mais fortes. Outras intervenções que já citei aqui e que podem ser valiosas, podem ajudar a alguns e não a outros. Mas a ciência permite afirmar que a resiliência pode ser favorecida. Não prometer um treinamento capaz de tornar qualquer pessoa imune ao sofrimento ou fabricar super-heróis emocionais, mas ampliar possibilidades.

Que bela palavra essa, “possibilidades”. Por trás dela, vejo movimento, dinâmica, renovação, criação, escolhas, esperança, vida. Pense em “possibilidades” quando se perceber rígido, sem horizontes, sem saída. Não quero ser o entusiasta da palavra, mas, honestamente, vejo-a aplicável mesmo às situações mais difíceis da vida.

E nem sempre desenvolver resiliência significa aprender a suportar ainda mais. Ao contrário, pode significar apenas aprender a hora de pausar o que e como vem fazendo, a dizer não, a pedir ajuda antes do colapso, abandonar uma relação destrutiva, deixarmos de ser a pessoa que decidimos não nos tornar, cuidar bem de alguém porque sabemos o que foi não ter sido cuidado, cessar em nós alguma forma de violência que atravessou gerações, aceitar que determinada perda ainda dói e que essa é uma condição humana que devemos aceitar em nós em vez de lutar contra.

Enfim, o sentido não precisa ser grandioso

Frankl colocou a busca de sentido no centro de sua obra. Mas “sentido” não precisa ser compreendido como uma missão extraordinária, uma grande revelação espiritual ou uma resposta definitiva para a existência. 

Manter esse blog, por exemplo, é uma forma simples e pequena que escolhi de dar mais sentido à minha vida. Pode ser que ninguém realmente vá ler ou levá-lo em conta, mas o sentido principal é registrar coisas que me proponho a pensar junto com os meus pacientes, sem o compromisso de chegar a qualquer verdade absoluta. Se, porém, ele tiver a sorte de tocar o coração de alguém no momento em que precisava, aí sim o sentido se tornará grande (para mim).

E dessa mesma forma grandes sentidos podem ser encontrados em coisas igualmente pequenas, como concluir um trabalho, cuidar de alguém, permitir-se ser cuidado, criar uma solução para algum problema, conseguir manter uma promessa, acompanhar o crescimento de um filho, voltar a olhar com a perplexidade encantada de uma criança maravilhas que o mundo nos oferece de graça, como a visão do mar, o céu esplendoroso, a planta em nosso pátio carregando o mistério da vida em sua seiva. Ou simplesmente em permanecer vivo tempo suficiente para que a dor de hoje não seja a única versão conhecida da vida.

E finalmente, mesmo quando aparentemente nada mais puder ser feito naqueles últimos minutos ao leito do hospital, há ainda construção de sentido de vida ao perdoar ou pedir perdão a alguém, ao dizer eu te amo a quem nunca ouviu essas palavras da sua boca, desejar felicidade a quem nos cerca e então partir, sabendo que suas últimas ações proporcionaram a quem ficou um sentido totalmente novo sobre quem você foi, além de preencher as lacunas de sentido que ainda precisavam ser preenchidas por e para você mesmo antes do apagar final das luzes.

Melhores que ouro

A palavra “resiliência”, como vimos, migrou das ciências dos materiais e da engenharia para a Psicologia Agora, em termos mais técnicos, a resiliência dos materiais, refere-se à capacidade de absorver energia durante uma deformação elástica e recuperar a forma quando a pressão cessa. O ouro pode não ser exatamente o melhor exemplo de resiliência: quando martelado, estirado ou fundido, ele se transforma e não volta sozinho à forma anterior, embora continue sendo ouro. Sua propriedade mais conhecida é a maleabilidade.

Ainda assim, talvez seja justamente aí que ele nos ofereça outra metáfora. O ouro pode ser submetido ao fogo, receber marcas e assumir novas formas sem deixar de ser ouro. É provavelmente por essas características que a resiliência psicológica tenha sido comparada ao ouro. O ouro não é valioso por ser rígido. 

Conosco, acontece algo semelhante: as experiências deixam marcas, algumas serão visíveis e outras, não. Podemos sair delas mudados, às vezes profundamente, mas podemos ir além. Aprender com o processo que percorremos, entender que temos recursos que sequer imaginávamos ter dentro de nós e, dessa forma, nos vermos mais prontos para os próximos passos.  A resiliência não nasce pronta. Pode ser cultivada, apoiada, aprendida e fortalecida.

Pessoas não retornam necessariamente ao estado anterior à adversidade; podem reorganizar-se, transformar-se e preservar alguma continuidade entre aquilo que eram e aquilo que ainda podem se tornar. E isso nos torna ainda melhores que o ouro.

***

Depois da libertação, Viktor Frankl, como vimos, voltou para Viena e soube da morte da esposa, da mãe e do irmão. Com o apoio de amigos, retomou o manuscrito de uma obra teórica que lhe havia sido confiscado em Auschwitz e, em 1946, publicou Ärztliche Seelsorge ("Psicoterapia e sentido da vida"). Naquele mesmo período, ditou em poucos dias o relato de sua experiência nos campos, publicado inicialmente como Ein Psychologe erlebt das Konzentrationslager e mais tarde conhecido em todo o mundo como "Em busca de sentido". Posteriormente, casou-se novamente, teve uma filha e dirigiu durante 25 anos a Policlínica Neurológica de Viena.

Nada disso desfez o que havia acontecido. Sua nova família não substituiu a anterior. Os livros não ressuscitaram os mortos. O reconhecimento internacional não transformou o horror em algo bom.

Uma de suas formulações mais conhecidas, apresentada com pequenas variações conforme a tradução,  afirma que, quando já não somos capazes de modificar uma situação, somos desafiados a modificar a nós mesmos.

A reconstrução não apagou as ruínas. Ela demonstrou, porém, que as ruínas não eram o mundo inteiro. Ele foi, como qualquer um de nós pode ser, muito mais que o prisioneiro n. 119104.








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Crédito da imagem: Viktor Frankl, 1965. Foto: Prof. Dr. Franz Vesely / Viktor-Frankl-Archiv. License CC BY-SA 3.0 DE, via Wikimedia Commons. 


 

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