"NÃO DORMIR ME TIRA O SONO": COMO O CÉREBRO PODE FAZER EXATAMENTE O CONTRÁRIO QUANDO VOCÊ SÓ QUERIA ADORMECER
Quanto mais você tenta dormir, mais acordado fica. Já passou por isso?
Às vezes a noite começa de maneira bastante inocente. Você
se deita, apaga a luz, ajeita o travesseiro e espera. E nada acontece. Muda de
posição. Vira o travesseiro para o lado frio. Fecha os olhos com um pouco mais
de convicção, como se dessa vez o sono entendesse o recado. Então olha o
relógio. Já passou da meia-noite.
Você começa a fazer contas: “Se eu dormir agora, ainda
consigo seis horas.” Alguns minutos depois, nova conferência: “Cinco horas e
quarenta.” Mais tarde: “Meu Deus, amanhã estarei acabado.” E assim, em vez de
dormir, você passa a madrugada administrando uma espécie de falência antecipada
do dia seguinte.
A insônia é um daqueles paradoxos quase literários: você
perde o sono justamente porque não consegue dormir. Aquilo que deveria ser um
dos atos mais naturais do mundo — entregar-se, soltar o corpo, deixar a
consciência ir embora por algumas horas — transforma-se numa disputa silenciosa
entre você e a sua mente. É dessa disputa que nasce a frase que dá título a
este texto: não dormir me tira o sono.
Porque é exatamente isso. Muitas vezes, o simples fato de perceber que não estamos dormindo é o que nos mantém acordados. Vale entender por que isso acontece. Não porque compreender tudo faça alguém apagar imediatamente — infelizmente o cérebro humano não vem com botão de “reiniciar” —, mas porque entender o mecanismo pode ajudar a desarmar a armadilha.
Dormir não é como acender ou apagar uma luz, num interruptor
de apenas duas posições. O sono é regulado por sistemas que trabalham em
conjunto. Um deles é a pressão de sono, que aumenta à medida que permanecemos
acordados: é como se um tanque de sonolência fosse se enchendo ao longo do dia.
Outro é o ritmo circadiano, o relógio biológico interno, organizado por sinais
como luz, escuridão, horários, atividade e alimentação.
Quando esses sistemas estão razoavelmente alinhados, o sono
costuma aparecer sem precisar ser convocado. O problema é que a insônia
introduz um terceiro personagem na história: o sistema de alerta. A pessoa não
está apenas acordada. Está acordada e observando-se acordada: “Por que
ainda não dormi?”; “Quanto tempo falta para o despertador tocar?”; “Será que
vou conseguir trabalhar?”; “E se isso acontecer de novo amanhã?”.
O cérebro interpreta essa sequência de pensamentos como
sinal de que existe algum problema urgente a ser resolvido, um perigo. Diante
desse sinal de perigo emitido pelo cérebro, o corpo fica mais vigilante, a
musculatura se tensiona, a atenção começa a procurar sinais de alarme e, em
poucos minutos, a cama, que deveria ser um dos lugares mais seguros da casa, se
transforma numa sala de comando em estado de emergência.
E aqui vale uma frase que costumo repetir bastante no
consultório: “O sono não responde ao esforço. Ele responde à confiança”.
Isso parece injusto, eu sei. Para quase tudo na vida nos
ensinaram a tentar mais. Quando algo não funciona, fazemos mais força,
insistimos, controlamos, planejamos. Só que o sono pertence a outra família de
fenômenos. É como o riso, a inspiração ou o desejo: podemos favorecer seu
aparecimento, mas não conseguimos comandá-lo da mesma forma.
Nessas horas, o cérebro se comporta um pouco como aquela
criança de dois aninhos que você tenta convencer a dormir e responde com um
sonoro “não!” apenas para te contrariar. E quanto mais você insiste, mais o
cérebro, tal qual a criança birrenta, resiste.
E parte para uma maratona mental envolvendo impostos
atrasados, traumas da infância, a possibilidade de ter uma doença rara, uma
discussão travada em 2017 e a dúvida sobre se aquela mensagem enviada às 16h42 não
teria soado um pouco antipática. Tentar adormecer fazendo força se parece com
tentar um músculo relaxar apertando-o ainda mais. O instrumento usado para
resolver o problema acaba se tornando o próprio problema.
Mas há outra camada nessa história. Em muitos casos, não é
apenas a noite ruim que assusta. É a previsão catastrófica do que ela fará
conosco no dia seguinte. “Se eu não dormir oito horas, não conseguirei fazer
nada”; “Vou passar mal”; “Meu cérebro não vai funcionar”; “Minha semana inteira
está perdida”.
Vamos olhar seriamente para isso. Uma noite mal dormida não
é agradável. Você pode realmente sentir mais cansaço, irritação ou falta de
foco no dia seguinte. Provavelmente não estará no seu melhor, e não é
recomendável ignorar sonolência importante ao dirigir ou operar equipamentos.
Mas uma noite ruim também não costuma predizer fielmente a catástrofe que a
mente anuncia nos anuncia às três da manhã. Se não houver muitos outros complicadores,
é perfeitamente possível atravessar um dia inteiro depois de uma noite mal
dormida. Talvez num ritmo mais lento, com menos brilho e mais café (embora não
seja uma boa ideia tentar compensar a madrugada inteira à base de qualquer
bebida estimulante). Ainda assim, não é o fim do mundo.
Reconhecer isso não significa normalizar a privação de sono
nem dizer que dormir bem não importa. Significa retirar da noite o peso de se
tornar uma prova de vida ou morte. Além disso, nem todo mundo precisa
exatamente de exatas oito horas de sono. A quantidade de sono necessária varia
entre as pessoas e também ao longo da vida. Transformar um número numa
obrigação rígida pode fazer com que o relógio se torne um fiscal, e não um
simples objeto sobre a mesa, e as consequências de termos um fiscal vigilante
já comentamos mais acima.
Existe, sim, ajuda prática. Manter um horário relativamente
regular para acordar costuma ser mais importante do que tentar obrigar-se a
dormir sempre no mesmo minuto. Também ajuda procurar luz natural pela manhã,
manter alguma atividade física durante o dia e evitar longos cochilos,
especialmente no fim da tarde.
A cafeína merece atenção. Ela não está apenas no café, mas
também em alguns chás, refrigerantes, energéticos, chimarrão, chocolates e
medicamentos. Para algumas pessoas, o cafezinho depois do almoço é
perfeitamente tolerável. Para outras, continua participando ativamente da
reunião cerebral às duas da manhã.
O álcool também merece uma conversa franca. Ele pode até
provocar alguma sonolência após ingerido, mas tende a fragmentar o sono conforme
a noite adentra e piorar sua qualidade. Usá-lo como “remédio para dormir”
frequentemente cobra a conta horas depois.
Quanto às telas, sabemos que luz intensa, notícias,
trabalho, vídeos curtos e discussões nas redes sociais não costumam ser o
melhor convite para que nosso sistema de alerta se desarme. Criar um período de
transição antes de dormir, com menos luz, menos cobranças e menos estímulos, só
colabora.
Outra orientação importante: procure ir para a cama quando
estiver com sono, não apenas porque chegou a hora prevista de acordo com a sua
programação. Se estiver relutando em dormir, saia da cama, se possível sente-se
confortavelmente em uma poltrona ou sofá, leia um livro calmo ou faça algo com
efeito tranquilizante até o sono chegar. Assim, você ensinará ao seu cérebro
que a cama serve só para dormir e para mais uma outra coisa bem específica ;-)
A aparente contradição nessa luta entre você e a falta de
sono é que, para dormir melhor, algumas pessoas precisam passar menos tempo esforçando-se
para dormir. Permanecer nove ou dez horas na cama esperando conseguir oito
horas de sono pode acabar produzindo um sono mais fragmentado e uma associação
cada vez mais forte entre cama e alerta. Em tratamentos específicos para
insônia, o tempo na cama pode ser ajustado de maneira estruturada para tornar o
sono mais concentrado e previsível. Isso, porém, deve ser feito com orientação
adequada, especialmente em pessoas com epilepsia, transtorno bipolar, risco de
quedas, sonolência intensa ou determinadas condições clínicas.
É importante também esclarecer que “insônia” não significa
apenas demorar para pegar no sono. Algumas pessoas adormecem rapidamente, mas
despertam várias vezes durante a noite. Outras acordam muito antes do horário
desejado e não conseguem voltar a dormir. Há ainda quem passe muitas horas na
cama e, mesmo assim, acorde com a sensação de que o sono não restaurou nada.
Quando isso acontece ocasionalmente — antes de uma
entrevista, depois de uma preocupação, durante uma viagem ou numa fase mais
estressante —, as medidas que descrevi podem ser suficientes. O organismo
frequentemente reencontra seu ritmo quando a situação passa e deixamos de
transformar cada noite numa avaliação de desempenho.
Mas existe uma linha que separa uma noite difícil de um
problema que merece investigação. Quando a dificuldade para dormir ocorre
várias vezes por semana, persiste por meses e começa a comprometer
concentração, humor, energia, relações ou trabalho, não basta apenas comprar um
travesseiro melhor e retirar o celular do quarto. E também não costuma ser
resolvida exclusivamente pela prática de higiene do sono, que são as dicas
dadas mais acima.
O tratamento mais recomendado nesses casos é a terapia
cognitivo-comportamental para insônia, conhecida como TCC-I. Ela trabalha
justamente os pensamentos, os comportamentos, os horários e as associações que
perpetuam o problema. Em algumas situações, medicamentos podem ser indicados
por determinado período ou como parte do tratamento. Mas não devem ser usados sem
critério, tomados de empréstimo de alguém ou usados indefinidamente sem
reavaliação.
Também é preciso verificar se existe outra condição
interferindo no sono. Roncos muito altos, pausas na respiração, engasgos
durante a noite, dor de cabeça ao acordar ou sonolência intensa durante o dia
podem sugerir apneia do sono. Uma sensação desagradável nas pernas, acompanhada
de necessidade quase irresistível de movimentá-las ao deitar, pode apontar para
a síndrome das pernas inquietas. Dor, refluxo, menopausa, alterações na
tireoide, trabalho em turnos, uso de estimulantes e diversos medicamentos
também podem participar do problema. Ansiedade e depressão são causas
frequentes, mas não são as únicas.
Leve em conta, ainda, que insônia não é a mesma coisa que
redução da necessidade de sono. Na insônia, a pessoa quer dormir, tenta dormir
e sofre porque não consegue. Já alguém que passa a dormir duas ou três horas,
continua cheio de energia, fala mais que o habitual, sente o pensamento
acelerado, torna-se mais impulsivo ou parece estranhamente expansivo talvez não
esteja apenas “com insônia”. Essa mudança merece avaliação profissional,
sobretudo quando representa uma ruptura em relação ao comportamento habitual.
***
Portanto, sim: algumas vezes é preciso relaxar o controle. Mas
fazer isso não significa abandonar-se. Significa parar de lutar contra uma
função que não obedece a ordens e, ao mesmo tempo, reconhecer quando o problema
já pede ajuda. O sono é como um bichinho arisco. Se você corre atrás dele pelo
quarto, ele foge. Se coloca uma câmera, uma planilha e um cronômetro para
fiscalizá-lo, talvez ele se esconda debaixo da cama.
Mas, quando encontra um ambiente relaxado e previsível, uma
mente menos ameaçada e um corpo autorizado a descansar sem a obrigação de
apresentar provas, costuma se aproximar novamente. Devagar, sem fazer anúncio,
como um gato que rodeia o quarto algumas vezes antes de finalmente escolher
onde vai se deitar.
Então, da próxima vez que você se pegar perdendo o sono
porque não consegue dormir, experimente interromper a briga. Respire. Lembre-se
que uma noite não define todas as noites, e que você provavelmente é mais capaz
de atravessar o dia seguinte do que a sua mente assustada está tentando
convencê-lo.
Às vezes, o melhor modo de voltar a dormir não é tentar
mais. É procurar entender o que está mantendo você acordado.
Crédito da imagem:
gerada por IA a partir de prompt elaborado pelo autor.



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