ESTIGMA
O
estigmatizado encontra-se em uma arena que dita o que ele deve pensar de si
mesmo (tradução livre)
Erving Goffman
Imagine você exatamente do jeito que você é, com seu corpo tal como ele é, a aparência de sempre, o seu cabelo e o seu estilo de se vestir, o seu gênero aparente, a sua idade aparente, a região do país em que nasceu, suas preferências políticas, o linguajar e o jeito de gesticular que aprendeu com a sua família ou na comunidade onde se criou.
E aí um dia você se dirige a um lugar específico onde haja muitas
pessoas, ou pelo menos um número suficiente delas. Pode ser a entrada da
empresa onde você foi se candidatar a uma vaga de emprego, a recepção da
clínica onde foi fazer uma consulta, a portaria do condomínio onde foi visitar
um amigo ou procurar um apartamento para morar, o aeroporto, um restaurante,
uma sala de aula, o corredor de um shopping, literalmente qualquer
lugar.
De relance, você nota que a maioria das pessoas que estão por
lá não são muito parecidas com você em relação a algum aspecto específico seu que,
naquele lugar, “destoe” do resto. Os que estão ali parecem semelhantes entre si
sob algum critério, por exemplo são da mesma etnia, da mesma classe social, usam
roupas, sapatos e acessórios mais ou menos do mesmo estilo, talvez mais caros
que os seus, não aparentam algum tipo evidente de deficiência física ou mental,
são todas cis, têm diploma universitário, vêm de famílias suspostamente
estruturadas e dão a impressão de se sentirem à vontade umas com as outras. Elas
“mandam” ali.
No instante em que sua presença no local “delas” se fez
notar, percebe que algo relacionado a você chama imediatamente a atenção de
todas elas. Pode ser que parem por alguns segundos o que estão falando ou fazendo
e dirijam o olhar em sua direção. Mas por mais instantâneo que seja, esse olhar
delas causa em você a sensação desconfortável de que alguma coisa “errada”
parece ter sido detectada por eles. É como se você estivesse sendo avaliado,
sabendo ou não em relação a quê, por pessoas que parecem ter se investido numa
certa autoridade para isso. Você se pergunta se seria algo com a sua aparência,
o tom da sua pele, a textura do seu cabelo, a forma ou as funcionalidades visíveis
do seu corpo, o preço provável que você pagou pelas roupas que está vestindo, seu
sotaque ou seu jeito de falar, gesticular, mover-se? A única certeza que você
tem é que tudo isso foi analisado e processado num estalar de dedos por aquelas
pessoas “legitimadas” a fazê-lo. E a sentença já foi proferida, sem direito a
recurso. Seu lugar — lugar esse que certamente não parece ser ali — foi
determinado por um exame breve, mas implacável. E que sequer se interessou em
saber a história que você carrega, sua origem, seus hábitos, desejos, saberes, os
vínculos que possui e nem tampouco os sonhos que você possui. Soa familiar?
Se sim, você aprendeu na própria carne o conceito de
estigma.
Talvez o estigma tenha a ver exatamente com esse tipo de situação: a pressa cruel com que algum sinal que emitimos é o suficiente para nos colocarem numa caixinha, geralmente desagradável, ou para colarem em nós uma espécie de rótulo, mais embaraçoso ainda.
Dando nome às coisas
De fato, estigma vem do grego stígma: marca,
sinal gravado, ferida inscrita sobre o corpo. No mundo antigo, designava uma
marca visível, impressa em alguém para indicar desonra, punição, vergonha, inferioridade,
status de escravo ou de bandido. Só que não se limitava, assim como não se
limita até hoje, a um sinal exterior. É uma inscrição social. O corpo
passa a carregar, diante de todos, uma mensagem sobre o valor atribuído àquela
pessoa. Uma marca que o olhar coletivo imprime sobre alguém, reduzindo a uma
única característica, muitas vezes superficial, uma percepção que deveria ser
complexa e detalhada.
Mas vale colocar alguma ordem nessa família de palavras,
porque elas andam tão misturadas que, às vezes, terminam escondendo o próprio
mecanismo que deveriam revelar.
O estereótipo é uma crença generalizante atribuída
aos integrantes de determinado grupo: “pessoas assim são perigosas”, “não são
confiáveis”, “não querem trabalhar”, “são emocionalmente instáveis”. É uma
espécie de atalho mental que substitui o conhecimento da pessoa por uma ideia
pronta sobre a categoria à qual imaginamos que ela pertença.
O preconceito começa quando esse estereótipo recebe
uma carga negativa e se transforma em julgamento, medo, repulsa, desprezo ou
reprovação. Já a discriminação é o momento em que a crença e o
sentimento se convertem em ação — ou em omissão. É não contratar, não promover,
não convidar, não escutar, atender pior, afastar, vigiar mais, impedir o acesso
ou fingir que existe uma justificativa neutra para uma desigualdade que já
estava decidida de antemão.
O isolamento social, por sua vez, não é necessariamente
sinônimo de estigma, mas pode ser uma de suas consequências. Às vezes, a pessoa
é diretamente excluída; em outras, antecipa a rejeição e se afasta por conta
própria antes que alguém tenha a oportunidade de feri-la outra vez. Há ainda o
isolamento produzido pelas próprias instituições, quando escolas, empresas,
serviços de saúde, bairros e espaços de convivência são organizados de modo que
certos sujeitos permaneçam sempre do lado de fora, real ou simbolicamente.
O estigma reúne todas essas peças num processo mais amplo:
alguém é marcado, associado a estereótipos, separado entre “nós” e “eles”,
rebaixado em sua posição social e exposto à discriminação. E há um detalhe
decisivo: para que isso ultrapasse uma antipatia pessoal e se torne estigma,
alguém precisa ter poder suficiente para fazer com que o rótulo produza
consequências reais. Poder para negar uma vaga, fechar uma porta, retirar
credibilidade, definir quem é “normal”, decidir quem merece proteção e quem pode
ser abandonado sem causar grande comoção.
Um modo peculiar de ser; uma característica genética; um
diagnóstico; uma limitação; um corpo que “destoa” do “belo” ou do “normal”; uma
história de vida que deixou marcas; uma não correspondência a modelos tidos
como regra do que é masculino ou feminino, adequado ou inadequado, honrado ou
vulgar; um determinado status socioeconômico; uma religião que pode, como
qualquer sistema de ideias, ser debatida ou criticada, mas que jamais deveria
servir de justificativa para que seu adepto fosse humilhado, perseguido ou inferiorizado;
ser mulher; ser uma pessoa idosa; ser imigrante e pobre; carregar uma
vulnerabilidade qualquer — de repente, aquilo deixa de ser apenas um aspecto da
pessoa e passa a corresponder à sua identidade inteira. Não à identidade adotada
pelo próprio sujeito como maneira de apropriar-se de quem ele é ou escolheu ser,
mas a imposta pelo outro, a despeito de qualquer contra-argumento ou defesa
possível. O ser humano desaparece atrás da etiqueta que é pregada nele contra
sua vontade. Já não enxergamos ali alguém que sofre, luta, tenta, teme, ama ou vive.
Vemos apenas um substantivo adjetivado de maneira rasa, incompleta e
provavelmente mentirosa.
Não se trata de uma prática somente dos brutos, ignorantes ou
preconceituosos assumidos. Estigmatizar, em alguma medida, é uma forma compartilhada
de controle social. Todos nós corremos o risco de simplificar o outro para não
precisar lidar com a complexidade que entendê-lo requer. Rotular é mais fácil
que compreender. Classificar é menos trabalhoso que escutar. Reduzir alguém a
uma fórmula nos protege da aporrinhação que é admitir que ele, como nós, é
contraditório, vulnerável, imprevisível e que, principalmente, tem, como
qualquer um de nós, algum aspecto destoante da norma.
Por sinal, não seria daí que vem o ódio? Nem todo tipo de
ódio, mas aquele que estigmatiza sem qualquer ponderação prévia? Faço essa
pergunta incômoda a mim mesmo, no consultório e fora dele. O que me ocorre como
uma explicação minimamente plausível, entre outras existentes, é exatamente o
que afirmei no final do parágrafo anterior. Como podemos amar ou odiar algo ou alguém
que, na verdade, não conhecemos? Não é logicamente possível, certo? Então, um
desconhecido alvo do nosso ódio gratuito só pode simbolizar algo que conhecemos
sim, e que se não é no outro é em nós mesmos, nos causando medo, revolta,
repugnância, certeza de reprovação social e precisando permanecer escondido. Daí
desviamos o olhar dos nossos semelhantes para esse outro, que é “falho”,
evitando assim que sejamos nós os observados. O ódio pode revelar mais sobre
aquele que odeia do que sobre aquele que é o odiado.
Pode-se então
afirmar com boa margem de acerto que o estigmatizado nunca foi realmente olhado
por quem o classifica, para não dizer por quem o odeia. Essas pessoas foram
vistas, nomeadas e enquadradas com base em características superficiais, mas
olhadas de fato, não. Entre ver e olhar existe um abismo. Ver é registrar uma
forma; olhar é suportar uma presença. O estigma nasce justamente quando
deixamos de suportar a presença do outro em sua humana complexidade e o reduzimos
àquela parte que mais incomoda em nós mesmos.
Estigmas invisíveis, estigmatizados invisibilizados
Nem sempre o estigma e o preconceito são tão explícitos quanto
naquele exemplo mais acima, em que “você” é o diferente que entra num lugar
cheio de pessoas que não fazem a mínima questão de esconder que o rejeitam. Há
práticas que ultrapassam ainda mais o limite da crueldade que antes imaginávamos
insuperável. Há quem (e são muitos) estigmatize intimamente o outro e nada
expresse. Sorri para você com os lábios e reconhece sua “inferioridade” com
olhos que nada mais precisam dizer. Comentam talvez entre seus iguais, mas é na
ação e na omissão, e não nas palavras, que colocam em marcha, com força máxima,
toda a exclusão que o estigma é capaz de realizar: afastando-o sutilmente do
ciclo a que você “não pertence”, na faculdade, no trabalho, nas festas, nas excursões,
na vida; ridicularizando-o ou o diminuindo de maneira passivo-agressiva, através
de um elogio recheado de crítica e de pré-suposições; não declarando
expressamente que aquela promoção, aquela vaga, aquele reconhecimento não foi
dado a você exatamente por você ser o melhor, mas porque, contrariando todas as
evidências, alguém do clube do qual você está de fora mereceu mais que você, exatamente
por ser do clube e não por uma qualidade concreta. Na vida real, o estigma faz
subirmos rapidamente o vidro do carro na sinaleira quando alguém faminto e
indisfarçavelmente indefeso se aproxima para pedir ajuda. É o trabalhador
braçal, o gari, a pessoa em situação de rua, embora sejam as que mais carecem
de acolhimento e apoio. Não fique aí pensando que, por falar assim, eu seja o
guardião da verdade suprema ou exemplo de conduta perfeita. Sou,
desconfortavelmente, outro invisibilizador de tudo o que dá trabalho ou que
toma tempo demais tentar resolver, e isso só aumenta o já imenso débito social que
eu deveria pagar como compensação a determinados privilégios que ganhei pelo
mero fato de ter nascido. Nossa ilusão de sermos “pessoas do bem” não nos
redime de qualquer responsabilidade.
Machucando ainda mais: o autoestigma
E nada pode
ser tão ruim que não possa ficar pior. Após ingressar no local onde acabou de
chegar e sentiu que seu lugar não era ali, “você” perde por completo a sua
naturalidade e espontaneidade e a partir desse ponto só pensa em abreviar ao
máximo seu tempo ali e ir embora o mais rápido possível. Ninguém mais precisa
explicar isso, você entendeu o recado sozinho.
O estigma quer exatamente isso: que a pessoa nem precise
mais ser atacada por fora, por ter ela própria aprendido a fazer esse trabalho contra
ela mesma, por dentro. De tanto ter reforçada sua condição de “diferente”, o
próprio estigmatizado a reconhece como uma verdade inquestionável. Esse é o sujeito
que chega ao meu consultório ou a qualquer lugar no mundo já pedindo desculpas
por ser quem ele é.
Esse movimento, que denominamos autoestigma, implica
aprender a julgar-se com as palavras do mundo. O indivíduo incorpora
estereótipos — e é devastador lembrar que isso pode acontecer até mesmo muito
cedo, no instante em que ele se conhece por gente. Sem a intervenção oportuna e
correta, cresce desconhecendo absolutamente o que é autoestima, confiança na
sua capacidade de autorrealizar-se, construir(-se), ser digno e manter um
projeto de vida de valor. Em seu mundo interior vai ecoando aquela voz que diz:
“você não é como os outros”, “você não consegue”, “não adianta lutar, não há
chance alguma para você”, “você é esquisito”, “você não tem valor nem nunca
terá” “você não é digno de amor”.
Uma questão de saúde mental (e muito mais)
Caberia ainda
mencionar que ao segregar um indivíduo por representar ele um grupo, eu segrego
o grupo inteiro. Ao atribuir-lhe qualidades que o diminuem, eu diminuo automaticamente
todos que sejam iguais a ele e, é claro, diferentes de mim. Há uma via de mão dupla
no movimento impassível do estigma: o grupo “contamina” o indivíduo que dele se
originou e o indivíduo que é diferente do padrão contamina de volta o seu próprio
grupo. Não existe escapatória nessa lógica circular, perversa, porque a
intenção é subjugar e condenar a qualquer custo. Não há redenção.
Mas não posso
terminar esse post sem deixar extremamente claro que o problema do estigma é
sim, um determinante de saúde mental e mencionar algumas ações que podem ser
feitas para mitigar a questão, sem desconhecer que, infelizmente, estamos a
anos-luz de arrebatá-la por completo.
Velhas tentações autoritárias, segregacionistas e cheias de
medo de que um dia venhamos a ser, nós próprios, receptários de um diagnóstico
psiquiátrico, estão sempre à baila: depressão é falta de força, ansiedade é
exagero, bipolaridade é mero descontrole, psicose é sinônimo de perigo social,
dependência química é falha de caráter, hiperatividade e déficit de atenção são
falta de repreensão parental. Como se o sofrimento psíquico ainda precisasse
provar sua autenticidade para merecer cuidado.
Possibilidades concretas de intervenções psicossociais
Não é só a psicofobia que transforma o estigma em objeto de
intervenções em saúde mental. No campo da saúde mental, enfrentar o estigma
exige muito mais do que corrigir algumas palavras ofensivas ou divulgar listas
de sintomas. A chamada alfabetização em saúde mental — ensinar o que são os
transtornos, como se manifestam e de que maneira podem ser tratados — é
importante. Informação pode corrigir mitos, facilitar a busca por ajuda e
impedir que sofrimento seja confundido com fraqueza moral. Mas informação,
sozinha, não é suficiente. Conhecer a causa de uma “anormalidade” não torna ninguém
automaticamente mais capaz de respeitar quem convive com alguém que a possua.
Uma das estratégias é o contato social verdadeiro: pessoas
com experiências vividas de transtorno mental encontrando outras pessoas não
como exemplos clínicos a serem examinados, nem como testemunhos trágicos
expostos para causar pena, mas como interlocutores em condições de igualdade.
Quando alguém conta sua história inteira — incluindo sofrimento, tratamento,
recaídas, conquistas, vínculos, trabalho e recuperação — torna-se mais difícil
continuar enxergando apenas o diagnóstico. O contato tende a ser especialmente
transformador quando envolve cooperação, objetivos comuns e apoio claro da
instituição onde acontece. Não me refiro às sala de aula onde, em vez de
melhorar a situação, o diferente passa a ocupar uma espécie de gaiola que só
reforça a percepção dos colegas e, pasme, até de determinados educadores, de se
tratar de uma “aberração”.
Nos serviços de saúde, isso significa oferecer um cuidado
orientado não apenas para a redução de sintomas, mas para a recuperação da
vida: autonomia, participação nas decisões, apoio entre pares, fortalecimento
dos vínculos, reinserção no estudo e no trabalho, suporte às famílias e ajuda
para que a pessoa construa uma identidade que não seja devorada pelo
diagnóstico. Psicoterapias e intervenções específicas também podem questionar o
autoestigma, reconstruir a autoestima e enfrentar aquele pensamento paralisante
que diz: “por que tentar, se pessoas como eu nunca conseguem?”.
Nenhum tipo de profissional pode ser dispensado dessa
revisão. Conhecimento técnico não vacina ninguém contra o preconceito. Médicos,
psicólogos, enfermeiros, professores, policiais e assistentes sociais também
precisam examinar a linguagem que utilizam, as expectativas mais baixas que às
vezes depositam sobre certos indivíduos e as decisões que tomam em nome de uma
suposta proteção. Há cuidado que trata. E há cuidado que, embora se apresente
como cuidado, infantiliza, silencia e retira da pessoa o direito de dirigir a
própria vida.
A mídia também ocupa um lugar decisivo. Sempre que associa
automaticamente transtorno mental a violência, transforma um diagnóstico em
insulto ou só mostra alguém em momentos de crise, contribui para fabricar o
personagem social que depois será temido nas ruas. Uma representação
responsável não precisa romantizar o sofrimento. Precisa apenas mostrar que
existe uma pessoa antes, durante e depois dele.
Um problema social
De modo semelhante, não é só a saúde mental que deva dar
conta do problema. Ele é tão abrangente quanto a própria sociedade.
Comportamentos, classificações, movimentos que nascem com a sociedade
precisando ser revistos e repensados. Isso significa rever não apenas o que
pensamos individualmente, mas também os mecanismos sociais que decidem quais
diferenças terão importância e quais serão ignoradas.
Existem incontáveis características que distinguem um ser
humano de outro. A sociedade, porém, escolhe algumas delas, atribui-lhes um
significado negativo e usa esse mesmo significado para estabelecer hierarquias.
É esse o ponto sublinhado pelos sociólogos Bruce Link e Jo Phelan: o estigma
não está simplesmente na característica nem reside apenas na cabeça de quem
julga. Ele se completa quando a diferença é nomeada, associada a estereótipos,
utilizada para separar “nós” e “eles” e convertida em perda de status e
discriminação — tudo isso dentro de uma relação que permite a alguém impor ao
outro a sua definição de normalidade.
Assim, o estigma pode estar numa piada claramente sem graça,
mas também num processo seletivo. Pode aparecer num comentário familiar e
igualmente num protocolo médico, num algoritmo de contratação, numa abordagem
policial, numa regra escolar, no cálculo dos juros cobrados por um empréstimo bancário,
num contrato de locação, numa decisão judicial ou na maneira como o orçamento
público distribui recursos. Como já vimos um pouco mais acima nesse texto, há o
estigma explícito de quem diz “não quero gente assim aqui”. E há o estigma
estrutural, mais polido e difícil de flagrar, que jamais pronuncia essa frase,
mas organiza tudo para que “gente assim” nunca se aproxime.
Também é preciso reconhecer que as marcas não vivem
separadas. Cor da pele, gênero, orientação sexual, pobreza, idade, deficiência,
região onde nasceu e diagnóstico podem se cruzar na mesma pessoa. Não se trata
apenas de somar preconceitos como quem soma números numa conta. Uma mulher
negra lésbica, por exemplo, pode ser percebida e tratada de uma maneira que não
corresponde isoladamente à experiência de ser mulher, de ser negra ou de ser
homoafetiva. As formas de exclusão se misturam, reforçam-se e produzem
experiências particulares. É isso que a ideia de interseccionalidade procura
tornar visível.
E nem todo encontro entre grupos é automaticamente capaz de
diminuir o preconceito. Colocar pessoas diferentes no mesmo espaço, mas
preservar entre elas a desigualdade, a competição e a humilhação, pode até
reforçar a distância. O contato transforma quando existe possibilidade real de
reconhecimento: algum grau de igualdade, objetivos compartilhados, cooperação e
apoio claro da escola, da empresa, do serviço ou da autoridade responsável. Não
basta permitir que o outro entre. É preciso parar de lembrá-lo, a cada gesto,
de que ele continua sendo apenas um visitante tolerado.
Políticas públicas, fiscalização e ações afirmativas
Por fim, as políticas públicas ocupam um papel central nisso
porque não basta pedir às pessoas estigmatizadas que sejam resilientes,
desenvolvam autoestima e aprendam a suportar melhor um mundo que permanece
organizado para excluí-las. Seria o equivalente a conservar intacta uma
escadaria e oferecer aulas de escalada a quem precisava de uma rampa.
Enfrentar o estigma estrutural exige leis
antidiscriminatórias, canais acessíveis de denúncia, investigação efetiva,
reparação dos danos e responsabilização de quem viola direitos. Exige também
fiscalização sobre práticas menos visíveis: quem é contratado, promovido ou
demitido; quem recebe os piores atendimentos; quem abandona a escola; quem é
mais abordado, contido, internado, encarcerado ou até assassinado; quem aparece
nas campanhas institucionais e quem continua ausente até mesmo das
estatísticas.
As ações afirmativas fazem parte desse trabalho quando
desigualdades históricas não seriam corrigidas apenas com a declaração abstrata
de que “agora todos são iguais”. Também entram aqui as adaptações razoáveis no
trabalho e no ensino, os programas de emprego e educação apoiados, a proteção à
confidencialidade, os serviços comunitários de saúde mental, o acesso à
moradia, à renda e à assistência jurídica, a capacitação contínua dos
profissionais e a participação das próprias pessoas afetadas na elaboração, execução
e avaliação das políticas que dizem respeito às suas vidas. Quando isso tudo
deixará de ser utopia não sei; mas até mesmo as maiores realizações da humanidade
começaram com uma ideia.
Criminalizar condutas discriminatórias graves pode ter seu
lugar, mas nenhuma lei, sozinha, desfaz uma cultura. A lei pode nomear a
violência, estabelecer limites, punir e reparar. Não consegue, porém, obrigar
alguém a olhar verdadeiramente para o outro. Por isso, legislação, educação,
contato social, representação responsável na mídia, proteção social e
transformação institucional precisam avançar juntas.
Instituições deveriam ainda perguntar periodicamente se suas
regras aparentemente neutras produzem resultados desiguais. Não basta afirmar
que uma porta está aberta quando a estrada que leva até ela foi interditada
para alguns. Tampouco basta convidar pessoas estigmatizadas a ocupar a mesa
depois de todas as decisões terem sido tomadas. Participação não é estar
presente na fotografia; é possuir voz, voto, recursos e poder real para intervir
sobre o resultado.
Promover justiça não é sobre tratar os desiguais com
igualdade. É sobre dar tratamento dar tratamento diferenciado aos que mais
precisam para que a igualdade possa ser, enfim, alcançada. Então, antes de
proferir aquela crítica feroz aos “benefícios” dados em ações afirmativas, a
exemplo das famigeradas cotas raciais, sejamos sinceros com nós mesmos: quantas
famílias brancas “padrão” não fazem valer seu direito de receber gratuitamente determinados
medicamentos pelo SUS? Quais não declaram gastos em saúde e educação para abatimento
do Imposto de Renda? Que empresa não se vale das isenções previstas em lei para
reduzir sua carga tributária e aumentar seus lucros?
E caso algumas pessoas identificadas como “padrão social”
possam representar uma exceção, abrindo mão de um certo benefício público para
que aquele recurso seja utilizado por alguém que precise mais que elas, é
necessário lembrar que, da mesma forma, os menos privilegiados também podem
fazê-lo, por convicção íntima. E muitos o fazem, acredite. Já vi vários casos.
Absolutamente ninguém está do lado certo quando a realidade é muito mais
complexa e multifacetada do que aquelas duas únicas caixinhas nas quais
costumamos encaixar as coisas, na ilusão de que deem conta de explicar o mundo.
***
Em resumo, o estigma começa no instante em que a
singularidade deixa de ser recebida com curiosidade e passa a ser tratada como
suspeita.
E, se olharmos bem, quase tudo o que há de mais humano em
nós escapa aos moldes. A dor escapa. O desejo escapa. A sensibilidade escapa. A
maneira de pensar escapa. A forma de amar escapa. A mente humana, com sua
delicadeza e sua desordem, escapa. Talvez o problema nunca tenha sido a
diferença. Talvez o problema tenha sido a dificuldade que temos de conviver com
ela sem convertê-la em defeito moral, em ameaça ou em inferioridade.
Na realidade, não há nada de banal em acordar todos os dias
com a sensação de que o mundo exige de você uma forma de existir que você não
consegue oferecer, não por ser incapaz, mas por ferir a sua natureza.
Por isso, penso que o contrário do estigma não é exatamente uma
coisa chamada tolerância. Tolerar ainda é, em certa medida, suportar de longe. Mas
esse tema exige mais. Pede uma espécie mais profunda de reconhecimento, que nos
tornemos capazes de ver uma pessoa sem resumi-la ao que nela nos inquieta, que
resistamos à tentação de transformar dor em juízo, diferença em sentença,
diagnóstico em destino.
Pede também algo incômodo: que cada um de nós se pergunte
não apenas “em que momentos fui estigmatizado?”, mas também “em que momentos
estigmatizei?”. Em que momentos deixei de enxergar alguém e passei a enxergar
apenas uma categoria? Em que momentos preferi um rótulo à presença viva de um
ser humano? Em que momentos usei a linguagem para me defender do outro, em vez
de me aproximar dele?
No fundo, estigmatizar é uma forma de não relação. É
desistir cedo demais do trabalho de compreender. É congelar a pessoa numa
versão estreita, para não ter de suportar a vastidão de quem cada um de nós efetivamente
é.
Nesse ponto, vou até um pouco mais além. Nossa aceitação passiva
e silenciosa do outro “como um igual”, mesmo que envolva um gesto particular de
afeto, uma atitude de suporte individual a quem é alvo de um estigma e a
simples convivência que deixa as diferenças de lado a cada encontro não basta.
Não nos redime. Aqui cito Djamila Ribeiro, que afirma que não basta não ter
preconceitos; é preciso combatê-los pública e ostensivamente. Tratar pessoas que
não respondem por completo aos padrões sociais é exatamente um problema social,
de modo que nós, que somos parte dessa mesma sociedade, precisamos lutar por
extirpá-lo, primeiro para não sermos, em algum momento, todos indistintamente,
engolidos pelo problema; segundo em ordem de exposição mas não de importância, pela
necessidade de priorizar o sentido da palavra “humano”: tudo o que diz respeito
à humanidade diz respeito a mim e manter esse conceito digno é tarefa de cada
um de nós.
Talvez, no fim das contas, seja isso que todos desejamos:
não ser absolvidos, nem admirados, nem encaixados à força. Apenas vistos com
verdade suficiente para sermos simplesmente humanos.
***
Autores que pesquisei (não fiz as citações no formato
acadêmico)
Anthony Jorm: criador do conceito de alfabetização em
saúde mental (1997)
Antonio Nardi, Antônio Geraldo da Silva e João Quevedo:
Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (Artmed, 2022)
Bruce Link e Jo Phelan: Conceptualizing Stigma,
artigo publicado na Annual Review of Sociology (2001)
Djamila Ribeiro: Pequeno Manual Antirracista
(Companhia das Letras, 2019)
Erving Goffman: Estigma: notas sobre a manipulação
da identidade deteriorada (4.ª edição brasileira, LTC, 1988)
Gordon Allport: A Natureza do Preconceito
(1954), sobre as condições para o contato entre grupos reduzir o preconceito
Kimberlé Crenshaw: criadora do conceito de
interseccionalidade (1989)
Mark Hatzenbuehler: pesquisas sobre estigma
estrutural (2014 e 2016)
Patrick Corrigan: pesquisas sobre autoestigma e o
efeito "por que tentar?" (2006 a 2012)
Imagem criada por IA
a partir de prompt do autor.



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