MONTANHAS-RUSSAS EMOCIONAIS: DE REATIVOS A PROTAGONISTAS DAS NOSSAS EMOÇÕES
Quem aí nunca se sentiu numa espécie de montanha-russa
emocional?
Há dias em que acordamos em alta, dispostos e otimistas,
mas, poucas horas depois, parecemos despencar, especialmente em períodos mais
conturbados da vida. Breves oscilações de humor, sobretudo quando relacionadas
a acontecimentos do dia, costumam falar mais de reatividade emocional (por
vezes acompanhada de alguma dificuldade de regulação) do que de algum
transtorno mental específico.
No transtorno bipolar, as mudanças fazem parte de episódios
mais sustentados, geralmente acompanhados de alterações claras de energia,
sono, pensamento e comportamento, e não apenas de uma virada rápida entre a
manhã e a tarde. Oscilações intensas e rápidas também podem aparecer no
transtorno de personalidade borderline, frequentemente ligadas a experiências
interpessoais, como sentimentos de rejeição, abandono ou incompreensão, mas
fazem parte de um padrão mais amplo e persistente de funcionamento emocional e
relacional.
Dito isso, a pergunta que interessa ao post de hoje é: como deixar de ser apenas um passageiro dessa montanha-russa e recuperar algum controle sobre o movimento?
Penso numa outra boa metáfora: a do termômetro e a do
termostato. O termômetro apenas registra: a temperatura muda fora, e ele muda
junto. O termostato também percebe o ambiente externo, mas usa essa informação
para agir, resfriando ou esquentando o ambiente interno de acordo com a
necessidade de mantê-lo o mais estável possível.
Psiquicamente, viver apenas como termômetro é permitir que
cada acontecimento externo determine, quase automaticamente, aquilo que
sentimos e fazemos. A pessoa passa a ser aquilo que lhe acontece, e suas
emoções obedecem ao clima do ambiente e das pessoas à sua volta. Já agir como
termostato não significa controlar o mundo por completo nem impedir que as
emoções aconteçam. Mas implica criar alguma margem de manobra para responder de
maneira auto protetora ao que o mundo é capaz de provocar em nós.
É nesse sentido que gosto de falar em protagonismo
emocional: alinhar-se aos próprios princípios e valores pessoais, habitar o
aqui e o agora e assumir, dentro do que está ao nosso alcance, uma posição mais
ativa diante da própria vida emocional. Não se trata de escolher tudo o que
sentimos, mas de ampliar nossa participação na maneira como cuidamos,
expressamos e respondemos às emoções que nos acometem.
Na literatura, é muito utilizado o termo “regulação
emocional”, bastante próximo do que proponho. A ideia de protagonismo, porém,
procura dar uma ênfase especial ao nosso papel ativo no lidar com o que vem de
fora e nos atinge. Relaciona-se com uma combinação de princípios e valores
pessoais, escolhas e responsabilidade. “Responsabilidade” entendida aqui como
reconhecimento da parte que nos cabe na construção do próximo passo, dentro do
que está ao nosso alcance.
Nada disso significa passarmos a viver como uma rocha ou
desprezarmos as nossas emoções. Algum nível de oscilação faz parte do
estar-no-mundo. Somos seres permeáveis, afetáveis e relacionais (ainda bem!). O
que pode mudar nossa experiência é aprender a distinguir alguns elementos que
normalmente vêm tão grudados uns nos outros que parecem formar uma coisa só.
Apenas para fins didáticos, podemos diferenciar o
acontecimento, isto é, aquilo que de fato ocorreu; a interpretação, aquilo que
nossa mente concluiu a respeito do ocorrido; a emoção, percebida no corpo, nos
pensamentos e nos impulsos; e a resposta, ou seja, aquilo que fazemos a partir
dela.
Imagine, por exemplo, que uma pessoa que é especial para
você não respondeu à sua mensagem. Esse é o acontecimento. Pensar que ela não
se importa com você poderia ser a interpretação. Tristeza, raiva, humilhação,
auto rejeição poderiam ser as respostas emocionais. Enviar uma mensagem
agressiva, procurar saber se a pessoa teve algum tipo de problema ou
contratempo, exigir um retorno urgente, pedir que a pessoa que não respondeu
prove que realmente se importa com você, romper relações com ela ou esperar algum
tempo antes de agir são todas respostas possíveis (embora nem todas sejam
construtivas e funcionais).
Quando acontecimento, interpretação, emoção e resposta se
fundem, tudo parece ocorrer de uma vez: sentimos e já agimos, como se não
houvesse qualquer brecha disponível. A vida nos empurra de um lado para o
outro, de cima para baixo, de fora para dentro sem que a gente consiga fazer
nada, exatamente como no exemplo da montanha-russa.
Quando conseguimos separar esses elementos, mesmo que apenas
por alguns instantes, surgem pequenos espaços de liberdade. São breves, mas
podem ser suficientes para começarmos a escolher em vez de apenas reagir.
P.A.R.E.
Um recurso simples para abrir esse espaço, que costumo
recomendar aos meus pacientes, é uma técnica que me foi ensinada pelo psicólogo
brasileiro Bernard Rangé, chamada P.A.R.E. Leva menos de um
minuto e pode ser usado praticamente em qualquer lugar.
O P significa “pare por um instante”. Antes
de responder ou agir, ofereça a si mesmo alguns segundos para processar o que
aconteceu. Nem toda situação exige uma resposta imediata, mesmo quando o corpo
e a mente parecem dizer o contrário.
O A significa “atente” ou “atenção”. Dirija
a atenção à sua respiração e, sem tentar controlá-la demais, acompanhe pelo
menos três ciclos completos de inspiração e expiração. A ideia não é eliminar o
que você está sentindo, mas diminuir, por alguns instantes, a velocidade da
reação.
O R significa “reconheça”. Procure
identificar o que está sentindo naquele momento: raiva, tristeza, medo,
vergonha, frustração, ciúme ou desamparo, só para citar algumas respostas
emocionais possíveis. Dar nome à experiência costuma torná-la mais compreensível
e manejável. Aquilo que antes parecia apenas um mal-estar difuso começa a
ganhar contornos quando passamos a saber o que ele é, de fato.
Por fim, o E significa “escolha o próximo
passo”. Talvez você não consiga escolher imediatamente o que sentir, mas pode
escolher o que fazer: responder agora ou mais tarde, falar ou permanecer em
silêncio, aproximar-se ou estabelecer um limite. Procure uma ação coerente com
seus princípios e valores pessoais (coisas que você acredita serem boas e que
devam ser sempre priorizadas vida afora), e não apenas com o impulso do
momento.
Princípios e valores pessoais funcionam como
direcionamentos, inspiração, referência do que precisa ser protegido. Não como
tarefas que concluímos num dia. Ser sempre um parceiro presente e compreensivo,
proteger a própria integridade emocional e física, agir de modo a minimizar
danos e buscar soluções construtivas para os problemas são exemplos desses
valores. Eles apontam um rumo mesmo quando o terreno está acidentado. Quando as
coisas não estiverem indo bem, você os resgata como guias que vão informar se a
sua decisão é boa ou ruim, coerente ou incoerente com o que você preza na vida.
Para manter essa “bússola” sempre à mão, pode ser útil
estabelecer um pequeno ritual: ao acordar, escolha um valor para orientar as
próximas horas e traduza-o em uma intenção concreta. Se o valor for “presença
de qualidade na vida do outro”, por exemplo, você pode decidir que, em pelo
menos uma conversa durante o dia, deixará a outra pessoa terminar de dizer o
que precisa antes de formular sua resposta, ou demonstrar afeto,
disponibilidade e acolhimento ao que ela lhe disser, oferecendo suporte sem
julgamentos.
No fim do dia, procure perceber se esse princípio reverteu
em alguma ação concreta. Parece pouco, mas pode mudar o eixo a partir do qual o
dia é vivido. E, repetido ao longo do tempo, talvez mude também o eixo da
própria vida emocional.
Um espaço de três minutos
Outra prática que ajuda bastante, sobretudo em momentos de
sobrecarga, é uma adaptação do chamado espaço de três minutos,
utilizado em intervenções baseadas em atenção plena ou mindfulness.
Durante o primeiro minuto, procure observar o que está vivo
em você naquele momento: os pensamentos que atravessam sua mente, as emoções
presentes e as sensações percebidas no corpo. Não é preciso corrigir, afastar
ou resolver nada. Apenas reparar no que está lá.
No segundo minuto, leve a atenção para a respiração. Use-a
como uma âncora que o reconecta ao momento presente, em vez de permanecer
completamente absorvido por aquilo que está passando em sua cabeça, despertando
memórias e sentimentos tão antigos quanto você é capaz de se imaginar ou
antecipando consequências, medos, preocupações futuras.
No terceiro minuto, amplie novamente a atenção para o corpo
como um todo. Perceba o rosto, os ombros, o peito, o abdômen, as mãos e os pés,
notando como você está ocupando o seu próprio espaço, que inclui a situação
onde você se encontra e também o seu “espaço interno”. Só então retome aquilo
que estava fazendo.
Esse pequeno intervalo de presença não apaga a emoção, mas
pode reduzir a reatividade e a impulsividade e devolver alguma sensação de
controle.
Criando condições para uma maior estabilidade
No cotidiano, existem ainda hábitos que funcionam como
condições de base para a regulação emocional, como manter horários de sono
relativamente regulares, movimentar o corpo, receber alguma luz natural pela
manhã, fazer pausas sem telas, alimentar-se de modo a evitar grandes oscilações
de energia, manter vínculos próximos e saudáveis e preservar um mínimo de
rotina e previsibilidade. Nada disso é uma solução mágica. São apenas condições
de base: o terreno sobre o qual a mente pode se sentir suficientemente segura
para regular melhor as próprias emoções.
Quando estamos privados de sono, constantemente
sobrecarregados, sedentários, isolados ou submetidos a uma rotina completamente
imprevisível, nossa margem entre sentir e agir tende a se estreitar. Cuidar dos
hábitos não resolve todos os conflitos da vida, mas pode oferecer à mente
melhores condições para enfrentá-los.
Contratos de resposta
Também pode ajudar criar alguns contratos de
resposta para situações que costumam nos tirar do eixo. Isso pode
significar decidir antecipadamente, por exemplo, que você não responderá à
noite a mensagens emocionalmente tensas, que aplicará o P.A.R.E. antes de
reagir a uma crítica ou que não tomará decisões importantes no auge de uma
discussão. Pode significar, ainda, escrever aquilo que o impulso pede, salvar e
reler algumas horas depois, ou avisar à outra pessoa que precisa de algum tempo
antes de continuar uma conversa.
Esses limites não são frieza. São formas de proteger a
própria integridade emocional e também a relação com o outro. Quando sabemos
que determinada situação nos deixa particularmente vulneráveis, não precisamos
confiar apenas na força de vontade daquele momento. Podemos estabelecer
antecipadamente algumas regras de cuidado, enquanto ainda estamos
suficientemente calmos para pensar.
E quando tudo falha?
E quando, mesmo assim, tudo falha em determinado dia? Nesse
momento, vale lembrar de duas coisas.
A primeira é a compaixão. Compaixão por si mesmo
ou pelo outro não significa omissão, permissividade ou desculpa para qualquer
comportamento inadequado. Significa reconhecer o sofrimento sem acrescentar a
ele uma camada desnecessária de humilhação e crueldade, consigo mesmo ou com o
outro.
Tratar-se como trataria um amigo depois de um erro pode
ampliar a capacidade de assumir o que aconteceu, reparar eventuais danos e
procurar maneiras de agir de forma diferente no futuro. A punição constante, ao
contrário, muitas vezes nos prende ao próprio erro, em vez de nos ajudar a
transformá-lo.
A segunda é a coerência. Agir de acordo com os
próprios valores pessoais não significa transformar princípios em rigidez,
justificar ações nossas reiteradamente erradas nem utilizá-las para ignorar a
perspectiva do outro. Significa procurar alguma continuidade entre um modo de
conduta que dizemos considerar correto e a maneira como efetivamente agimos.
Uma pequena escolha alinhada por dia pode pesar mais, no fim
das contas, do que uma guinada grandiosa que não se sustenta na semana
seguinte. Protagonismo emocional não é perder o controle nunca. É perceber mais
cedo, reparar com mais honestidade e retornar com maior frequência e rapidez à
direção que escolhemos para nós mesmos.
Quando procurar ajuda
Por fim, é importante lembrar que algumas oscilações merecem
avaliação profissional. Isso acontece quando as mudanças são intensas,
persistentes ou acompanhadas de prejuízo significativo; quando existem
alterações marcantes no sono e na energia, aceleração ou lentificação,
impulsividade incomum, gastos fora do padrão, grandiosidade, desesperança ou
sensação persistente de vazio; ou quando há, desde muito tempo, um padrão de
instabilidade que prejudica repetidamente as relações, o trabalho ou o cuidado
consigo mesmo.
Também é importante procurar ajuda quando a pessoa sente que
as estratégias que costumava utilizar já não são suficientes ou quando os
impulsos começam a colocar ela própria ou outras pessoas em risco.
Buscar uma avaliação não significa procurar um rótulo.
Significa reconhecer que, às vezes, o cuidado não precisa, nem deve, ser
realizado sozinho.
O protagonismo emocional inclui também saber identificar o
momento de pedir ajuda e ter a humildade de fazÊ-lo a tempo. As subidas e
descidas continuarão existindo. A vida não se transforma numa planície retinha,
isenta de qualquer sobressalto. Mas, quando trocamos a reatividade pura por
presença, compreensão e princípios norteadoras, a montanha-russa deixa de ter
todo o comando. Continuamos sentindo, porém deixamos de ser apenas passageiros
passivos do mundo à nossa volta.
Passamos, pouco a pouco, a participar da regulação de nossa
própria temperatura interna, com assertividade, direção e gentileza.
Crédito da imagem:
gerada por IA a partir de prompt do autor.


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